Inverno do Mundo
Capítulo V
A nuvem incandescente com eçou a baixar, m as o estrondo perdurou, sustentando-se de form a inacreditável, até Greg se perguntar se aquele seria o barulho do fim do m undo.
Por fim , o rugido foi dim inuindo, e a nuvem em form a de cogum elo com eçou a se dispersar.
Greg ouviu Frank Oppenheim er dizer:
– Funcionou.
– É, funcionou – disse Oppie.
Os dois irm ãos cum prim entaram -se com um aperto de m ãos.
E o m undo continua aqui, pensou Greg.
Mas agora está m udado para sem pre.
V
Lloy d William ns e Daisy foram à prefeitura de Hoxton na m anhã de 26 de j ulho para assistir à contagem dos votos.
Se Lloy d perdesse, ela estava decidida a rom per o noivado.
Ele negava veem entem ente que ela fosse um a am eaça para sua carreira política, m as Daisy sabia que era. Os inim igos políticos de Lloy d faziam questão de cham á-la de “Lady Aberowen”. Eleitores reagiam a seu sotaque am ericano com um a atitude indignada, com o se ela não tivesse o direito de participar da vida política britânica. Até m esm o os m em bros do Partido Trabalhista a tratavam de form a diferente, perguntando-lhe se ela preferia um café quando todos estavam tom ando chá.
Conform e Lloy d previra, m uitas vezes ela havia conseguido superar a hostilidade inicial das pessoas com portando-se de form a natural e encantadora e aj udando as outras m ulheres a lavar as xícaras de chá. Mas será que isso era suficiente? Os resultados da eleição seriam um a resposta definitiva.
Daisy não iria se casar com Lloy d se isso im plicasse que ele teria que abrir m ão da carreira à qual dedicara toda a sua vida. Ele se dizia disposto a isso, m as era um a base frágil dem ais para um casam ento. Daisy estrem ecia, horrorizada, ao im aginá-lo fazendo algum a outra coisa, trabalhando num banco ou com o funcionário público, profundam ente infeliz e tentando fingir que ela não tinha culpa. Pensar nisso era insuportável.
Infelizm ente, todos achavam que os conservadores iriam ganhar a eleição.
Durante a cam panha, algum as coisas tinham saído com o os trabalhistas queriam . O discurso de Churchill sobre a “Gestapo” se provara um tiro no pé. Até m esm o os conservadores tinham se indignado. Clem ent Attlee, cuj o discurso pelo Partido Trabalhista foi transm itido no dia seguinte, reagira com fria ironia:
– Ontem à noite, quando ouvi o discurso do prim eiro-m inistro, no qual ele passou um a im agem tão deturpada da política do Partido Trabalhista, percebi na hora qual era o seu obj etivo. Ele queria que os eleitores entendessem com o era grande a diferença entre Winston Churchill, o grande líder de um a nação unida na guerra, e o Sr. Churchill, líder do Partido Conservador. Tem ia que aqueles que tinham aceitado sua liderança durante a guerra pudessem ser com pelidos, por gratidão, a continuar a segui-lo. Agradeço a ele por ter decepcionado essas pessoas de form a tão plena.
O altivo desprezo de Attlee fez parecer que Churchill estava querendo provocar um a briga. O povo estava farto de arrebatam ento e raiva, pensou Daisy ; com certeza, em tem pos de paz, os eleitores iriam preferir a ponderação e o bom senso.
Um a pesquisa da Gallup feita na véspera da eleição indicou vitória trabalhista, m as ninguém acreditou. George Gallup, que era am ericano, fizera um a previsão equivocada na últim a eleição presidencial dos Estados Unidos. A ideia de que se podia prever o resultado perguntando a um núm ero pequeno de eleitores em quem eles iriam votar parecia m eio estapafúrdia. O News Chronicle, j ornal que publicara a pesquisa, previa um em pate.
Todos os outros veículos acreditavam na vitória dos conservadores.
Daisy nunca havia se interessado pela m ecânica da dem ocracia, m as agora seu destino estava em j ogo, e ela ficou observando, fascinada, os votos em papel serem retirados das urnas, separados, contados, em pilhados e recontados. O supervisor da contagem era conhecido com o Returning Officer, “funcionário do retorno”, dando a im pressão de que havia passado algum tem po afastado. Na verdade, era um escrevente da prefeitura. Observadores de cada partido vigiavam a operação para garantir que não houvesse nenhum deslize ou trapaça. O processo era dem orado e Daisy achou aquele suspense um a tortura.
Às dez e m eia, ouviram o prim eiro resultado de outro distrito. Harold Macm illan, protegido de Churchill e m em bro do Gabinete durante a guerra, acabara de perder a vaga de Stockton-on-Tees para o Partido Trabalhista. Quinze m inutos depois, veio a notícia de um a grande vitória trabalhista em Birm ingham . Não eram perm itidos rádios na prefeitura, por isso Daisy e Lloy d tinham que confiar nos boatos que vinham de fora, e ela não soube m uito bem em que acreditar.
Já era m eio-dia quando o supervisor cham ou os candidatos e seus assessores até um canto da sala para lhes com unicar o resultado antes de pronunciá-lo publicam ente. Daisy quis acom panhar Lloy d, m as não foi perm itido.
O supervisor falou em voz baixa com o grupo reunido. Além de Lloy d e do deputado em exercício, havia um candidato conservador e outro com unista. Daisy analisou o rosto de cada um , m as não conseguiu adivinhar quem tinha ganhado. Então todos subiram ao palanque e o silêncio dom inou a sala. Daisy chegou a ficar enj oada.
– Eu, Michael Davies, na condição de supervisor eleitoral nom eado pela lei no distrito parlam entar de Hoxton...
Em pé j unto com os m em bros do Partido Trabalhista, Daisy não desgrudava os olhos de Lloy d. Será que estava prestes a perdê-lo? Pensar nisso lhe deu um aperto no peito e a fez ofegar de m edo. Em sua vida, por duas ocasiões ela escolhera um hom em totalm ente errado. Charlie Farquharson era o contrário de seu pai: bondoso, porém fraco. Já Boy Fitzherbert era m uito parecido com o dele: decidido e egoísta. Agora, finalm ente, ela havia encontrado Lloy d, que era ao m esm o tem po forte e bondoso. Não o escolhera por causa de seu status social nem pelo que ele podia fazer por ela, m as apenas porque era um hom em extraordinariam ente bom . Era delicado, inteligente, confiável e tinha verdadeira adoração por ela. Daisy levara m uito tem po para perceber que ele era o que ela procurava. Que boba tinha sido!
O supervisor leu o núm ero de votos obtidos por cada candidato. A lista era em ordem alfabética, então o nom e William s foi o últim o. De tão ansiosa, Daisy m al conseguiu m em orizar os núm eros.