Inverno do Mundo
Capítulo II
Todas as m alas estavam abertas em volta do carro abandonado. As operárias tiraram as caixas do banco de trás e as viraram de ponta-cabeça, esvaziando o conteúdo na estrada. Talheres se esparram aram , peças de louça se partiram , vidro se estilhaçou. Lençóis bordados e toalhas brancas foram arrastados na lam a. Um a dezena de pares de sapatos finos se espalhou pelo asfalto.
Bobrov conseguiu se aj oelhar e tentou ficar de pé. A m ulher do cobertor tornou a golpeá-lo com a pá. Quando ela desabotoou seu sobretudo de lã de boa qualidade e tentou tirá-lo, Bobrov resistiu. A m ulher então se enfureceu e com eçou a golpeá-lo repetidam ente, até ele ficar parado, caído no chão, com a cabeça branca coberta de sangue. Em seguida ela descartou o cobertor velho e vestiu o sobretudo de lã.
Volody a se aproxim ou do corpo im óvel de Bobrov. Os olhos estavam vidrados, sem vida. Ele se aj oelhou e procurou sinais vitais: respiração, batim entos cardíacos, pulso. Não encontrou nada. O general estava m orto.
– Não há perdão para os covardes – falou, m as m esm o assim fechou os olhos de Bobrov.
Algum as das m ulheres desam arraram o piano. O instrum ento escorregou do teto do carro e bateu no chão com um tinido dissonante. Elas com eçaram a destruí-lo alegrem ente com picaretas e pás. Outras disputavam os obj etos de valor espalhados pelo chão, recolhendo talheres, em bolando os lençóis, rasgando as roupas de baixo elegantes na luta para ficar com elas. Houve brigas. Um bule de porcelana saiu voando pelos ares e por pouco não acertou a cabeça de Zoy a.
Volody a voltou depressa para perto dela.
– Isto aqui está virando um m otim generalizado – falou. – Tenho um carro m ilitar com m otorista. Posso tirá-la daqui.
Ela hesitou apenas por um instante.
– Obrigada.
Os dois correram para o carro, subiram depressa e foram em bora dali.
II
A fé de Erik von Ulrich no Führer foi j ustificada pela invasão à União Soviética. À m edida que os exércitos alem ães avançavam em disparada pela vastidão da Rússia, repelindo o Exército Verm elho com o se este fosse insignificante, Erik se alegrava com a genialidade m ilitar do líder a quem havia prestado fidelidade.
Não que fosse fácil. Durante o chuvoso m ês de outubro, a zona rural ficara parecendo um a banheira de lam a: os russos cham avam esse período de rasputitsa, “tem po sem estradas”. A am bulância de Erik tinha que abrir cam inho a duras penas por um verdadeiro pântano. Um a onda de lam a ia se form ando na frente do veículo, dim inuindo gradualm ente sua velocidade até ele e Herm ann serem obrigados a saltar e retirar a poça com pás antes de prosseguirem . Todo o Exército alem ão enfrentava a m esm a dificuldade, e o avanço sobre Moscou estava praticam ente paralisado. Além do m ais, estradas lam acentas significavam que os cam inhões de abastecim ento nunca conseguiam alcançar o front. O Exército tinha pouca m unição, com bustível e com ida, e o estoque de rem édios e m aterial m édico da unidade de Erik estava perigosam ente baixo.
Por isso ele a princípio ficara contente quando com eçara a gelar, no início de novem bro. O gelo parecia um a bênção: tornava as estradas duras outra vez e perm itia que a am bulância se m ovesse em velocidade norm al. No entanto, o sobretudo de verão e a roupa de baixo de algodão deixavam Erik trem endo de frio – os uniform es de inverno ainda não tinham chegado da Alem anha. Tam bém não haviam recebido os lubrificantes resistentes a baixas tem peraturas necessários para m anter em funcionam ento os m otores da am bulância e de todos os cam inhões, blindados e peças de artilharia do Exército. Quando não estavam avançando pela estrada, Erik acordava de duas em duas horas durante a noite para ligar o m otor e deixá-lo funcionar por cinco m inutos; era a única form a de im pedir que o óleo congelasse e o líquido de refrigeração se solidificasse. Mesm o assim , por precaução, ele acendia um a fogueira debaixo da am bulância todas as m anhãs, um a hora antes de partir.
Centenas de veículos enguiçaram e foram abandonados. Aviões da Luftwaffe, deixados ao relento durante a noite em pistas de pouso im provisadas, congelaram e não puderam m ais ser ligados, e os abrigos para os soldados se protegerem dos ataques aéreos sim plesm ente desapareceram .
Apesar de tudo isso, os russos estavam recuando. Ainda que lutassem com bravura, continuavam a ser repelidos. A unidade de Erik parava o tem po todo para tirar cadáveres russos do cam inho, e os m ortos congelados em pilhados no acostam ento form avam um a m ureta sinistra. Incansável e im piedoso, o Exército alem ão se aproxim ava cada vez m ais de Moscou.
Erik tinha certeza de que m uito em breve veria Panzers adentrarem m aj estosam ente a praça Verm elha, enquanto bandeiras com a suástica trem ulariam triunfantes acim a das torres do Krem lin.
Enquanto isso, a tem peratura j á tinha chegado a -10oC, e continuava a cair.
A unidade m édica da qual Erik fazia parte ficou baseada num a cidadezinha ao lado de um canal congelado, cercada por um a floresta de abetos. Erik desconhecia o nom e daquele lugar. Os russos m uitas vezes destruíam tudo ao recuar, m as a cidade sobrevivera relativam ente intacta. Havia um hospital m oderno, agora ocupado pelo alem ães. O Dr. Weiss dera um a instrução rápida aos m édicos que trabalhavam lá: m andarem os pacientes para casa, qualquer que fosse sua condição.
Agora, Erik estava exam inando um paciente, um rapaz de uns 18 anos que sofria de geladura. De tão rígida, a pele am arelada e cerosa de seu rosto parecia gelo. Quando Erik e Herm ann cortaram o fino uniform e de verão, viram que os braços e as pernas estavam cobertos de bolhas roxas. As botas, rasgadas e rotas, tinham sido enchidas com j ornal na vã tentativa de proteger os pés do frio. Quando Erik as retirou, sentiu o cheiro característico de putrefação da gangrena.
Mesm o assim , achou que talvez pudessem evitar que o rapaz fosse am putado.
Sabiam o que fazer. Estavam tratando m ais hom ens por causa de geladura do que de ferim entos de com bate.
Encheu um a banheira com água m orna, e então ele e Herm ann Braun puseram o paciente lá dentro.
Erik ficou estudando o corpo enquanto este descongelava. Viu a cor negra da gangrena num dos pés e nos dedos do outro.
Quando a água com eçou a esfriar, tiraram o rapaz da banheira, secaram -no com cuidado, puseram -no na cam a e o cobriram com m antas. Em seguida dispuseram à sua volta pedras quentes enroladas em toalhas.
O rapaz estava consciente e alerta.
– Vou perder o pé? – perguntou.
– É o m édico quem vai decidir – respondeu Erik de m odo autom ático. – Som os apenas ordenanças.
– Mas vocês veem vários pacientes – insistiu ele. – Qual é a sua opinião?
– Acho que talvez não sej a necessário – disse Erik.
Se estivesse enganado, sabia o que iria acontecer. No pé m enos afetado, Weiss am putaria os dedos, rem ovendo-os com um cortador grande parecido com um alicate. A outra perna seria am putada abaixo do j oelho.
Alguns m inutos depois, Weiss entrou e exam inou os pés do rapaz.
– Preparem o paciente para a am putação – ordenou, ríspido.
Erik ficou desolado. Mais um j ovem na flor da idade passaria o resto da vida aleij ado. Que lástim a.
Mas o paciente não pensava assim .
– Graças a Deus – disse ele. – Não terei m ais que lutar.
Enquanto preparavam o paciente para a cirurgia, Erik j ulgou que aquele soldado era um dos m uitos que insistiam em m anter um a atitude derrotista – sua própria fam ília pertencia a esse grupo. Pensava m uito no falecido pai. Misturada à dor e à saudade, sentia um a raiva profunda. O pai não teria se j untado à m aioria para celebrar o triunfo do Terceiro Reich, refletiu com am argura. Teria reclam ado de algum a coisa, questionado as decisões do Führer, prej udicado o m oral das Forças Arm adas. Por que seu pai tivera de ser tão rebelde? Por que dem onstrara tanto apego à ideologia ultrapassada da dem ocracia? A liberdade não tinha feito nada pela Alem anha, ao passo que o fascism o salvara o país!
Mesm o zangado com o pai, Erik sentiu lágrim as quentes encherem seus olhos ao pensar na form a com o ele m orrera. No início havia negado que Walter tivesse sido m orto pela Gestapo, m as logo percebera que provavelm ente era verdade. Os m em bros da Gestapo não eram santos: espancavam quem espalhasse m entiras m aldosas sobre o nazism o. Seu pai insistira em perguntar se o governo estava m atando crianças deficientes. Fora tolo ao dar ouvidos à esposa inglesa e à filha excessivam ente em otiva. Erik am ava as duas, o que tornava ainda m ais doloroso o fato de elas se m ostrarem tão equivocadas e teim osas.
Enquanto estava de licença em Berlim , fora visitar o pai de Herm ann, o hom em que lhe apresentara pela prim eira vez a em polgante filosofia nazista, quando ele e o am igo eram pequenos. Herr Braun agora fazia parte da SS. Erik disse ter conhecido um hom em num bar que afirm ara que o governo m atava deficientes em hospitais especiais.
– É verdade que os deficientes são um estorvo dispendioso na m archa rum o à nova Alem anha – respondera-lhe Herr Braun. – A raça tem que ser purificada reprim indo os j udeus e outros tipos degenerados, e im pedindo os casam entos m istos que produzem um a gente bastarda. Mas a eutanásia nunca foi um a política nazista. Som os determ inados, som os duros, às vezes até brutais, m as não m atam os pessoas. Isso é um a calúnia com unista.
As acusações de seu pai não tinham fundam ento. Ainda assim , Erik de vez em quando chorava.
Por sorte, tinha m uito com que se ocupar. Pela m anhã sem pre havia m uitos pacientes, em sua m aioria feridos da véspera. Em seguida vinha um curto período de calm aria antes de chegarem as baixas do dia. Depois de Weiss operar o rapaz com geladura, ele, Erik e Herm ann fizeram um a pausa na sala de funcionários lotada.
Herm ann ergueu os olhos de um j ornal.
– Em Berlim estão dizendo que nós j á ganham os! – exclam ou. – Eles deveriam vir aqui ver com os próprios olhos.
Com seu cinism o habitual, o Dr. Weiss disse:
– O Führer fez um discurso m uito interessante no Sportspalast. Discorreu sobre a inferioridade bestial dos russos. Acho isso m uito reconfortante. Estava com a im pressão de que os russos fossem os m ais ferozes com batentes que j á encontram os. Lutaram por m ais tem po e com m ais garra do que poloneses, belgas, holandeses, franceses ou britânicos. Eles podem até não ter equipam entos suficientes, estar m alcom andados e passando fom e, m as correm na direção de nossas m etralhadoras em punhando seus fuzis antiquados com o se não se im portassem em viver ou m orrer. Fico feliz em saber que isso nada m ais é do que um indício de sua bestialidade. Estava com eçando a tem er que eles talvez fossem coraj osos e patriotas.
Com o sem pre, Weiss fingia concordar com o Führer, m as pensava exatam ente o contrário. Herm ann fez cara de quem não estava entendendo, m as Erik com preendeu tudo e ficou furioso.
– Independentem ente do que sej am os russos, eles estão perdendo – falou. – Estam os a 65 quilôm etros de Moscou. O Führer tinha razão.
– E ele é bem m ais inteligente do que Napoleão – com entou o Dr. Weiss.
– Na época de Napoleão, nada se m ovia m ais depressa que um cavalo – disse Erik. – Hoj e em dia tem os autom óveis e telégrafo sem fio. Os m eios de com unicação m odernos nos perm itiram ter sucesso onde Napoleão falhou.
– Ou terão perm itido, quando tom arm os Moscou.
– Coisa que farem os em poucos dias, se não em horas. Não é possível que o senhor ainda duvide!
– Será m esm o? Acho que alguns dos nossos próprios generais j á sugeriram que parem os onde estam os e m ontem os um a linha defensiva. Podem os garantir nossas posições, nos reabastecer durante o inverno e voltar à ofensiva quando a prim avera chegar.
– Isso m e parece um a covardia traiçoeira! – disse Erik, exaltado.
– Tem razão... Você deve ter razão, porque, pelo que sei, foi isso m esm o que Berlim disse aos generais. Mas eu entendo. Naturalm ente, quem está no quartel-general tem um a visão m uito m ais abrangente do que os hom ens que estão no front.
– Nós praticam ente destruím os o Exército Verm elho!
– Mas Stalin parece conseguir m aterializar novas divisões do nada, com o um m ágico. No início da cam panha, pensávam os que houvesse 200. Agora acham os que são m ais de 300. Onde ele encontrou m ais cem divisões?
– O Führer está certo, e isso vai ser provado... m ais um a vez.
– É claro que vai, Erik.
– Ele nunca errou antes!
– Um hom em pensou que pudesse voar, então pulou do alto de um prédio de dez andares e, quando estava passando pelo quinto, agitando os braços no ar inutilm ente, ouviram -no dizer: “Até agora estou indo bem .”
Um soldado entrou correndo na sala de funcionários.
– Houve um acidente – anunciou. – Na pedreira ao norte da cidade. Um a colisão, três veículos. Há oficiais da SS feridos.
A SS havia sido originalm ente a guarda pessoal de Hitler, e agora form ava um a elite poderosa. Erik adm irava sua disciplina soberba, seus uniform es ultraelegantes e sua relação privilegiada com Hitler.
– Vam os m andar um a am bulância – disse Weiss.
– É o Einsatzgruppe, o Grupam ento Especial – disse o soldado.
Erik j á ouvira falar vagam ente dos Grupam entos Especiais. Eles entravam nos territórios conquistados logo depois do Exército para prender arruaceiros e sabotadores em potencial, com o com unistas, por exem plo. Provavelm ente estavam m ontando um cam po de prisioneiros do lado de fora da cidade.
– Quantos feridos? – perguntou Weiss.
– Seis ou sete. Ainda estão tirando pessoas das ferragens.
– Certo. Braun e Von Ulrich, vão até lá.
Erik ficou satisfeito. Agradava-lhe poder conviver com os m ais fervorosos partidários do Führer, e ficaria ainda m ais feliz se pudesse lhes prestar algum serviço.
O soldado lhe entregou um papel com instruções para chegar ao local.
Erik e Herm ann engoliram depressa o chá que estavam tom ando, apagaram seus cigarros e saíram da sala. Erik vestiu um sobretudo de pele que havia roubado de um oficial russo m orto, m as não o abotoou, para deixar o uniform e alem ão à m ostra. Os dois seguiram apressados até a garagem , e Herm ann saiu com a am bulância. Erik foi lendo as instruções, estreitando os olhos para tentar ver através da neve fina que caía.
A estrada saía da cidade e seguia serpenteando pela floresta. Eles passaram por vários ônibus e cam inhões vindo na direção contrária. A neve que cobria a estrada estava com pacta e dura, e Herm ann não podia ir m uito depressa para não derrapar. Era fácil im aginar com o o acidente havia acontecido.
O dia era curto e j á estava de tarde. Nessa época do ano, o sol nascia às dez e se punha às cinco. Um a luz cinzenta atravessava as nuvens de neve. Os pinheiros altos agrupados dos dois lados da estrada a tornavam ainda m ais escura. Erik teve a sensação de estar num conto de fadas dos irm ãos Grim m , seguindo a trilha rum o à floresta profunda onde o m al espreitava.
Ficaram atentos para um a curva à esquerda, e encontraram -na vigiada por um soldado que lhes indicou o cam inho. Seguiram sacolej ando por um a estradinha traiçoeira entre as árvores até um segundo guarda acenar para eles e dizer:
– Vão bem devagar. Foi assim que a batida aconteceu.
Um m inuto depois, chegaram ao local do acidente. Os três veículos danificados pareciam soldados uns aos outros: um ônibus, um j ipe e um a lim usine Mercedes com pneus revestidos por correntes de neve. Erik e Herm ann saltaram depressa da am bulância.
O ônibus estava vazio. Havia três hom ens no chão, talvez os passageiros do j ipe. Vários soldados estavam reunidos em volta do carro esprem ido entre os dois outros veículos, aparentem ente tentando tirar os passageiros lá de dentro.
Erik ouviu um a saraivada de tiros de fuzil e, por um instante, perguntou a si m esm o quem estaria atirando, m as afastou esse pensam ento e se concentrou no trabalho.
Ele e Herm ann exam inaram os feridos um após outro, avaliando seu estado. Dos três caídos no chão, um estava m orto, outro tinha o braço quebrado e o terceiro parecia ter sofrido apenas escoriações. Dentro do carro, um dos passageiros m orrera de hem orragia, outro estava desacordado e um terceiro gritava.
Erik aplicou um a inj eção de m orfina no hom em que gritava. Quando a droga fez efeito, ele e Herm ann conseguiram tirá-lo do veículo e colocá-lo na am bulância. Sem ele no cam inho, os soldados puderam soltar o passageiro desacordado, que estava preso nas ferragens retorcidas do Mercedes. O hom em tinha um ferim ento na cabeça que iria m atá-lo, pensou Erik, m as não disse isso aos dem ais. Voltou sua atenção para os hom ens do j ipe. Herm ann pôs um a tala no de braço quebrado, e Erik levou o que tinha ferim entos leves até a am bulância e o fez sentar-se lá.
Então voltou ao Mercedes.
– Vam os dem orar uns cinco, dez m inutos para conseguir tirá-lo – falou um capitão. – Esperem aqui.
– Está bem – disse Erik.
Tornou a ouvir tiros e adentrou um pouco m ais a floresta, curioso para saber o que o Grupam ento Especial estaria fazendo ali. A neve no chão entre as árvores estava m uito pisada e coberta de guim bas de cigarro, talos de m açã, j ornais velhos e todo tipo de lixo, com o se um a excursão de operários de um a fábrica tivesse passado por ali.
Chegou a um a clareira onde havia cam inhões e ônibus estacionados. Várias pessoas tinham sido levadas para lá. Alguns ônibus partiam , desviando do local do acidente; outro estava chegando quando Erik passou. Depois do estacionam ento, ele deparou com m ais ou m enos um a centena de russos de todas as idades, aparentem ente prisioneiros, em bora m uitos carregassem m alas, caixas e sacolas às quais se agarravam com o quem protege seus bens m ais preciosos. Um dos hom ens segurava um violino. Um a m enininha com um a boneca cruzou olhares com Erik, e um pressentim ento nauseante lhe revirou as entranhas.
Os prisioneiros estavam sendo vigiados por agentes da polícia local arm ados com cassetetes. Independentem ente do que estivesse fazendo, era óbvio que o Grupam ento Especial tinha colaboradores. Os policiais olharam para Erik, repararam no uniform e m ilitar alem ão visível por baixo do sobretudo aberto e não disseram nada.
Quando ele passou, um prisioneiro russo bem -vestido se dirigiu a ele em alem ão:
– Senhor, sou diretor da fábrica de pneus desta cidade. Nunca acreditei no com unism o, só aceitava da boca para fora, com o todos os industriais tinham que fazer. Eu posso aj udá-lo... sei onde fica tudo por aqui. Por favor, m e leve em bora deste lugar.
Erik o ignorou e seguiu andando na direção dos tiros.
Chegou à pedreira. Era um buraco grande e irregular aberto no chão, com a borda m argeada por abetos altos que pareciam guardas de uniform e verde-escuro coberto de neve. Em um dos lados, um declive com prido conduzia ao fundo. Enquanto ele observava, 12 prisioneiros com eçaram a descer em direção ao buraco escuro, dois a dois, conduzidos por soldados.
Erik reparou que entre os prisioneiros havia três m ulheres e um m enino de uns 11 anos. Será que o cam po para onde seriam levados ficava em algum lugar daquela pedreira? Mas eles não tinham m ais bagagem . A neve caía sobre suas cabeças descobertas qual um a bênção.
Erik se dirigiu a um soldado da SS em pé ali perto:
– Sargento, quem são esses prisioneiros?
– Com unistas – respondeu o soldado. – Da cidade. Com issários políticos, essas coisas.
– Com o assim ? Até aquele m enininho?
– Judeus, tam bém – disse o sargento.
– Bem , o que eles são? Com unistas ou j udeus?
– Que diferença faz?
– Não é a m esm a coisa.
– Claro que é. Praticam ente todos os com unistas são j udeus. E todos os j udeus são com unistas. Você por acaso não sabe de nada?
O diretor da fábrica de pneus que tinha falado com ele não parecia ser nem com unista nem j udeu, pensou Erik.
Os prisioneiros chegaram ao fundo da pedreira. Até ali, andavam com o ovelhas num rebanho, sem falar nem olhar em volta. Nesse m om ento, porém , com eçaram a se agitar, apontando para algum a coisa no chão. Esforçando-se para ver por entre os flocos de neve, Erik distinguiu o que pareciam ser cadáveres espalhados entre as pedras, com as roupas salpicadas de branco.
Pela prim eira vez, reparou em 12 hom ens arm ados com fuzis em pé na borda do barranco, entre as árvores. Doze prisioneiros, 12 fuzis: entendeu o que estava acontecendo ali, e um m isto de incredulidade e horror lhe subiu pela garganta feito bile.
Os hom ens ergueram os fuzis e apontaram para os prisioneiros.
– Não! – gritou Erik. – Não, vocês não podem fazer isso!
Mas ninguém o escutou.
Um a das prisioneiras gritou. Erik a viu segurar o m enino de 11 anos e apertá-lo de encontro a seu corpo, com o se seus braços pudessem deter as balas de fuzil. Devia ser a m ãe.
Um oficial bradou:
– Fogo!
Os fuzis dispararam . Os prisioneiros cam balearam e caíram . O estrondo fez um pouco de neve se soltar dos pinheiros e cair sobre os atiradores, salpicando-os de branco.
Erik viu m ãe e filho desabarem , ainda abraçados.
– Não! – repetiu. – Ah, não!
O sargento olhou para ele.
– Qual é o seu problem a? – indagou, irritado. – Quem é você, aliás?
– Sou ordenança m édico – respondeu Erik, sem tirar os olhos da cena m acabra no fundo da pedreira.
– E o que está fazendo aqui?
– Eu trouxe um a am bulância para os oficiais feridos no acidente. – Erik viu que outros 12 prisioneiros j á estavam sendo conduzidos encosta abaixo, para dentro da pedreira. – Ah, m eu Deus, m eu pai tinha razão – gem eu. – Nós estam os m atando pessoas.
– Pare de choram ingar e volte para a porra da sua am bulância.
– Sim , sargento – respondeu Erik.