Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 64 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo XIII

– Macke.

Ele tornou a se virar.

– Pois não, superintendente?

– Troque de cam isa.

– Cam isa?

– A sua está suj a de sangue.

– Sim , senhor. Desculpe-m e, senhor.

Macke desceu a escada pisando firm e, bufando de raiva. Voltou à sala no subsolo. O padre Peter ainda estava vivo.

Enfurecido, ele tornou a gritar:

– Quem contou a você sobre Akelberg?

Não houve resposta.

Ele aj ustou a corrente na intensidade m áxim a.

O padre Peter gritou por m uito tem po, m as por fim se calou num derradeiro silêncio.

 

XIII

O casarão em que a fam ília Franck m orava ficava dentro de um pequeno parque. A uns 200 m etros da casa, num aclive suave, havia um pequeno pagode oriental, aberto de todos os lados, com bancos para se sentar. Quando crianças, Carla e Frieda brincavam que ali era sua casa de cam po, e passavam horas fingindo dar grandes festas nas quais dezenas de criados serviam seus convidados glam ourosos. Mais tarde, aquele se tornou seu lugar favorito para conversar a sós.

– A prim eira vez que m e sentei neste banco, m eus pés não alcançavam o chão – disse Carla.

– Ah, que vontade de voltar a esse tem po... – falou Frieda.

A tarde estava quente, nublada e úm ida, e am bas usavam vestidos sem m anga. Estavam desanim adas. O padre Peter havia m orrido: segundo a polícia, tinha se suicidado na prisão, deprim ido pelos crim es que com etera. Carla se perguntou se ele fora espancado com o seu pai. Por m ais terrível que fosse, parecia bem provável.

Dezenas de pessoas tam bém estavam presas por toda a Alem anha. Algum as haviam protestado publicam ente contra a m atança dos deficientes, outras não tinham feito nada além de passar adiante cópias do serm ão do bispo Von Galen. Ela im aginou se todas essas pessoas seriam torturadas. Perguntou-se por quanto tem po conseguiria escapar desse m esm o destino.

Werner saiu da casa com um a bandej a na m ão. Atravessou o gram ado e foi até o pagode.

– Que tal um a lim onada, m eninas? – ofereceu, alegre.

Carla virou a cara.

– Não, obrigada – respondeu, fria.

Não entendia com o ele podia fingir ser seu am igo depois de ter se com portado de m odo tão covarde.

– Para m im , não – respondeu Frieda.

– Espero que nossa am izade não estej a abalada – disse Werner, olhando para Carla.

Com o ele podia dizer um a coisa dessas? É claro que a am izade estava abalada.

– O padre Peter m orreu, Werner – disse Frieda.

– Provavelm ente foi torturado até a m orte pela Gestapo por ter se recusado a aceitar a m orte de pessoas com o o seu irm ão – continuou Carla. – Meu pai tam bém m orreu pelo m esm o m otivo. Várias outras pessoas estão na prisão ou em cam pos. Mas você conservou seu em preguinho burocrático, então tudo bem .

Werner pareceu m agoado. Isso deixou Carla surpresa. Esperava que ele fosse contradizê-la ou que pelo m enos aparentasse indiferença. Mas ele parecia genuinam ente abalado.

– Você não acha que cada um de nós faz o que pode a seu m odo? – perguntou ele.

Que argum ento m ais fraco.

– Você não fez nada! – retrucou Carla.

– Pode ser – disse ele, pesaroso. – Então não vão querer lim onada?

Nenhum a das duas respondeu, e ele voltou para dentro de casa.

Apesar de indignada e com raiva, Carla não podia evitar um a ponta de arrependim ento. Antes de descobrir que Werner era um covarde, estava em barcando num rom ance com ele. Havia gostado m uito dele, dez vezes m ais do que de qualquer outro rapaz que tivesse beij ado. Não estava exatam ente com o coração partido, m as profundam ente decepcionada.

Frieda tinha m ais sorte, pensou Carla ao ver Heinrich sair da casa. Sua am iga era um a m oça glam ourosa, que gostava de se divertir, enquanto Heinrich era sério e intenso. Mesm o assim , por algum a razão m isteriosa, os dois com binavam .

– Você está apaixonada por ele? – perguntou a Frieda enquanto ele ainda não podia escutar.

– Ainda não sei – respondeu ela. – Mas ele é um encanto. Eu o adoro.

Talvez aquilo não fosse am or, pensou Carla, m as estava no bom cam inho.

Heinrich trazia novidades.

– Tive que vir contar a vocês im ediatam ente – disse ele. – Meu pai m e falou depois do alm oço.

– Falou o quê? – quis saber Frieda.

– O governo cancelou o proj eto. Cham ava-se Aktion T4. O exterm ínio dos deficientes. Eles vão parar.

– Quer dizer então que nós vencem os? – perguntou Carla.

Heinrich assentiu vigorosam ente.

– Meu pai está pasm o. Disse que é a prim eira vez que vê o Führer ceder à opinião pública.

– E fom os nós que o forçam os a fazer isso! – exclam ou Frieda.

– Mas ninguém sabe disso, graças a Deus – disse Heinrich, enfático.

– Quer dizer que eles sim plesm ente vão fechar os hospitais e acabar com o program a? – perguntou Carla.

– Não exatam ente.

– Com o assim ?

– Meu pai disse que todos esses m édicos e enferm eiras vão ser transferidos.

Carla franziu o cenho.

– Para onde?

– Para a Rússia – respondeu Heinrich.