Inverno do Mundo
Capítulo dez
1941 (III)
Em outubro, a neve derretia ao cair no solo, e as ruas de Moscou estavam frias e m olhadas. Volody a vasculhava o arm ário de m antim entos à procura de suas valenki, as botas de feltro tipicam ente russas que aqueciam os pés dos m oscovitas no inverno, quando se espantou ao encontrar seis caixas de vodca.
Seus pais não eram grandes apreciadores de álcool. Raram ente bebiam m ais que um a pequena dose. De vez em quando, o pai com parecia a um daqueles longos j antares regados a álcool oferecidos por Stalin a velhos cam aradas, e entrava cam baleando pela porta a altas horas da m adrugada, bêbado feito um gam bá. Em casa, porém , um a garrafa de vodca durava no m ínim o um m ês.
Volody a entrou na cozinha. Seus pais estavam tom ando café da m anhã: sardinhas em lata, pão preto e chá.
– Pai, por que tem os um estoque de seis anos de vodca no arm ário de m antim entos? – perguntou.
Seu pai pareceu surpreso.
Os dois olharam para Katerina, que enrubesceu. Ela ligou o rádio e baixou o volum e até um sussurro quase inaudível. Será que desconfiava que o apartam ento estivesse gram peado?, perguntou-se Volody a.
Quando ela falou, sua voz saiu baixa, m as zangada.
– Que dinheiro vocês vão usar quando os alem ães chegarem ? – perguntou. – Não pertencerem os m ais à elite privilegiada. Vam os m orrer de fom e, a m enos que possam os com prar com ida no m ercado negro. Estou velha dem ais para vender m eu corpo. Vodca vai valer m ais do que ouro.
Volody a ficou chocado por ouvir a m ãe falar daquele j eito.
– Os alem ães não vão chegar aqui – disse o pai.
Volody a não tinha tanta certeza. O inim igo avançava outra vez, fechando o cerco a Moscou. Já tinham tom ado Kalinin, ao norte, e Kaluga, ao sul, am bas m uito próxim as, a cerca de 160 quilôm etros da capital. As baixas soviéticas eram assustadoram ente altas. Um m ês antes, o contingente de soldados do Exército Verm elho era de 800 m il hom ens; agora, porém , segundo as estim ativas que chegavam à m esa de Volody a, restavam apenas 90 m il.
– E quem vai detê-los, droga? – perguntou ao pai.
– As linhas de abastecim ento dos alem ães estão longas dem ais. Eles não estão preparados para o nosso inverno. Vam os contra-atacar quando eles estiverem enfraquecidos.
– Nesse caso, por que vocês estão tirando o governo de Moscou?
A burocracia estava em pleno processo de transferência para a cidade de Kuiby shev, pouco m ais de três m il quilôm etros a leste. Os m oscovitas tinham ficado apreensivos ao ver funcionários do Estado retirando caixas de docum entos dos prédios governam entais e carregando-as em cam inhões.
– É só por precaução – disse Grigori. – Stalin continua na cidade.
– Há um a solução – argum entou Volody a. – Tem os centenas de m ilhares de hom ens na Sibéria. Precisam os trazê-los com o reforços.
Grigori fez que não com a cabeça.
– Não podem os deixar o leste indefeso. O Japão ainda é um a am eaça.
– O Japão não vai nos atacar... Sabem os disso! – Volody a olhou para a m ãe. Não deveria falar sobre inform ações secretas de inteligência na sua frente, m as não conseguiu se conter. – A m esm a fonte de Tóquio que nos avisou, corretam ente, que a invasão alem ã era im inente nos disse que os j aponeses não vão atacar. Não é possível que o governo vá ignorá-la outra vez!
– Avaliar inform ações de inteligência nunca é fácil.
– Não tem os outra opção! – exclam ou Volody a, zangado. – Tem os 12 exércitos na reserva... um m ilhão de hom ens. Se os m obilizarm os, Moscou talvez sobreviva. Se não, estam os perdidos.
Grigori fez cara de aflito.
– Não fale assim , nem m esm o num a conversa particular.
– Por que não? Provavelm ente vou m orrer em breve m esm o.
Katerina com eçou a chorar.
– Olhe só o que você fez – disse Grigori.
Volody a saiu da cozinha. Enquanto calçava as botas, perguntou-se por que havia gritado com o pai e levado a m ãe às lágrim as. Então entendeu: era porque agora acreditava que a Alem anha fosse derrotar a União Soviética. O estoque de vodca da m ãe, destinado a servir de m oeda de troca durante um a ocupação nazista, o forçara a encarar a realidade. Nós vam os perder, disse a si m esm o. O fim da Revolução Russa está próxim o.
Vestiu o sobretudo e pôs o chapéu. Então voltou à cozinha. Deu um beij o na m ãe e um abraço no pai.
– Para que isso tudo? – perguntou Grigori. – Você está apenas indo trabalhar.
– É só para o caso de nunca m ais nos verm os – respondeu Volody a, e saiu.
Quando atravessou a ponte para o centro da cidade, constatou que todos os transportes públicos tinham parado de funcionar. O m etrô estava fechado e nenhum ônibus ou bonde circulava.
Parecia haver apenas m ás notícias.
O boletim dessa m anhã do SovInform Buro, divulgado no rádio e em postes pintados de preto e equipados com alto-falantes nas esquinas da cidade, fora m ais sincero do que o usual: “Na m adrugada de 14 para 15 de outubro, a posição do front oeste piorou”, com unicara a agência de inform ações. “Um a grande quantidade de tanques alem ães penetrou nossas defesas.” Todos sabiam que o SovInform Buro sem pre m entia, então im aginaram que a situação fosse ainda pior.
O centro da cidade estava abarrotado de refugiados que chegavam aos m ontes, vindos do oeste do país, em purrando seus pertences em carrinhos de m ão e conduzindo pelas ruas rebanhos de vacas esqueléticas, porcos im undos e ovelhas encharcadas, todos a cam inho da zona rural a leste de Moscou, desesperados para se afastar o m áxim o possível do avanço alem ão.
Volody a tentou pegar um a carona. O tráfego de veículos civis em Moscou não era m uito grande ultim am ente. O com bustível vinha sendo poupado para os interm ináveis com boios m ilitares que circulavam pelo rodoanel de Moscou. Um j ipe GAZ-64 novo parou para ele.
Ao observar a rua pelo veículo aberto, Volody a viu m uitos estragos causados por bom bas. Diplom atas que tinham voltado da Inglaterra diziam que aquilo não era nada com parado à Blitz londrina, m as, para os m oscovitas, j á era ruim o bastante. Volody a passou por vários prédios em ruínas e dezenas de casas de m adeira incendiadas.
Grigori, encarregado da defesa antiaérea, m andara instalar peças de artilharia no topo dos prédios m ais altos e erguer balões de barragem abaixo das nuvens de neve. A m ais estranha de suas decisões tinha sido m andar pintar os dom os dourados das igrej as de verde e m arrom , para cam uflá-los. Ele adm itira para o filho que isso não influenciaria em nada o fato de as bom bas acertarem ou não o alvo, m as daria aos cidadãos a sensação de estarem sendo protegidos.
Se os alem ães ganhassem e os nazistas tom assem Moscou, o sobrinho e a sobrinha de Volody a, filhos de sua irm ã Any a, seriam criados não com o patriotas com unistas, m as com o nazistas abj etos, com a m ão erguida para saudar Hitler. A Rússia ficaria igual à França, um país servil, tendo à frente um governo pró-fascista subserviente, que recolhia os j udeus e os deportava para cam pos de concentração. Essa sim ples ideia era um torm ento. Volody a queria um futuro no qual a União Soviética pudesse se libertar da liderança m aligna de Stalin e da brutalidade da polícia secreta para com eçar a construir o verdadeiro com unism o.
Quando chegou ao prédio da Inteligência, j unto ao cam po de pouso de Khody nka, viu que o ar estava cheio de flocos acinzentados que não eram neve, m as cinzas. A Inteligência do Exército Verm elho estava queim ando seus arquivos para im pedir que caíssem nas m ãos do inim igo.
Pouco depois de ele chegar, o coronel Lem itov entrou em sua sala.
– Você m andou um m em orando para Londres sobre um físico alem ão cham ado Wilhelm Frunze. Foi um a iniciativa m uito inteligente, que se revelou um a ótim a pista. Parabéns.
Que diferença faz?, pensou Volody a. Os blindados estavam a apenas 160 quilôm etros de Moscou. Era tarde para espiões poderem aj udar. Mesm o assim , forçou-se a se concentrar.
– Frunze, sim . Estudei com ele na escola, em Berlim .
– Londres entrou em contato com ele e Frunze estava disposto a falar. O encontro aconteceu em local seguro.
Enquanto falava, Lem itov não parava de m exer no relógio de pulso. Mostrar-se agitado não era do seu feitio. Era óbvio que estava tenso. Todos estavam .
Volody a não disse nada. Sem dúvida, algum a inform ação tinha sido obtida no encontro em Londres, do contrário Lem itov não estaria falando sobre isso.
– Londres disse que Frunze no início ficou ressabiado, e suspeitou que nosso hom em pertencesse à polícia secreta britânica – disse Lem itov com um sorriso. – Na verdade, depois do prim eiro encontro, ele foi a Kensington Palace Gardens, bateu na porta da nossa em baixada e solicitou confirm ação de que o nosso hom em era um agente legítim o!
Volody a sorriu.
– Um verdadeiro am ador.
– Exato – concordou Lem itov. – Um agente de desinform ação j am ais faria algo tão estúpido.
A União Soviética ainda não estava com pletam ente acabada. Volody a precisava continuar com o se Willi Frunze tivesse im portância.
– Que inform ação ele nos deu, coronel?
– Segundo Frunze, ele e outros colegas cientistas estão colaborando com os am ericanos na fabricação de um a superbom ba.
Volody a teve um sobressalto, lem brando-se das palavras de Zoy a Vorotsy ntsev. Aquilo confirm ava os piores tem ores da m oça.
– Mas há um problem a com a inform ação – prosseguiu Lem itov.
– Que problem a?
– Em bora a tenham os traduzido, não conseguim os entender nada. – Lem itov entregou a Volody a um m aço de páginas datilografadas.
– “Separação de isótopos por difusão gasosa” – disse Volody a, lendo um dos títulos em voz alta.
– Entende o que eu quero dizer?
– Estudei línguas na universidade, coronel, não física.
– Mas você j á m encionou que conhece um a cientista. – Lem itov sorriu. – Um a loura deslum brante que não aceitou seu convite para ir ao cinem a, se bem m e lem bro.
Volody a corou. Falara sobre Zoy a com Kam en, que devia ter passado a fofoca adiante. O problem a de se trabalhar para um espião era que seu chefe sem pre sabia de tudo.
– É um a am iga da m inha fam ília. Ela m e falou sobre um processo explosivo cham ado fissão. Quer que eu lhe faça algum as perguntas?
– De m odo inform al e extraoficial. Não quero fazer um a tem pestade por causa disso antes de entender do que se trata. Frunze talvez sej a m aluco e poderíam os fazer papel de bobos. Descubra do que tratam estes relatórios e se o que Frunze está dizendo faz sentido, cientificam ente falando. Se a inform ação dele for legítim a, os britânicos e am ericanos realm ente podem fabricar um a superbom ba? E os alem ães?
– Já faz uns dois ou três m eses que não vej o Zoy a.
Lem itov deu de om bros. Na verdade, pouco im portava que relação Volody a tinha com Zoy a. Na União Soviética, responder a perguntas feitas pelas autoridades nunca era um a opção.
– Vou encontrá-la.
Lem itov assentiu.
– Hoj e m esm o – disse o coronel, e saiu da sala.
Volody a franziu o cenho, pensativo. Zoy a tinha certeza de que os am ericanos estavam fabricando um a superbom ba, e conseguira persuadir Grigori a m encionar o assunto para Stalin, m as o líder com unista desdenhara a inform ação. Agora, um espião na Inglaterra estava dizendo a m esm a coisa que ela. Zoy a parecia estar certa. E Stalin errado – de novo.
Os líderes da União Soviética tinham um a perigosa tendência a negar as m ás notícias. Na sem ana anterior m esm o, um a m issão de reconhecim ento aéreo tinha localizado blindados alem ães a apenas 130 quilôm etros de Moscou. O Estado-Maior se recusara a acreditar na inform ação antes que ela fosse confirm ada duas vezes. Então ordenara que a NKVD prendesse e torturasse o oficial da Aeronáutica que fizera a descoberta, por “provocação”.
Era difícil pensar a longo prazo com os alem ães tão perto, m as a ideia de um a bom ba que pudesse aniquilar Moscou não podia ser m enosprezada, nem m esm o naquele m om ento de extrem o perigo. Se os soviéticos derrotassem os alem ães, talvez depois viessem a ser atacados pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos: algo parecido acontecera após a guerra de 1914 a 1918. Será que a União Soviética se veria indefesa diante de um a superbom ba capitalista-im perialista?
Volody a instruiu seu assistente, o tenente Belov, a encontrar Zoy a.
Enquanto aguardava o endereço, ficou estudando os relatórios de Frunze, tanto no original em inglês quanto na tradução russa, e decorou o que lhe pareciam ser as expressões-chave, um a vez que não podia tirar os docum entos do prédio. Um a hora depois, tinha com preensão suficiente para fazer perguntas.
Belov descobriu que Zoy a não estava na universidade, nem no prédio anexo onde residiam os cientistas. O adm inistrador do prédio, porém , contou-lhe que todos os residentes m ais j ovens tinham sido convocados para aj udar na construção de novas defesas internas para a cidade e inform ou-lhe onde Zoy a estava trabalhando.
Volody a vestiu o sobretudo e saiu.
Estava anim ado, m as não sabia m uito bem se era por causa de Zoy a ou da superbom ba. Talvez as duas coisas.
Conseguiu arrum ar um ZIS m ilitar e um m otorista.
Ao passar pela estação de Kazan – de onde saíam os trens para o leste –, viu que parecia haver no lugar um m otim em pleno auge. A im pressão era que as pessoas não conseguiam sequer entrar na estação, que diria em barcar. Hom ens e m ulheres ricos lutavam para chegar às portas com filhos, anim ais de estim ação, m alas e baús. Volody a ficou chocado ao ver alguns deles trocando socos e chutes, sem o m enor pudor. Alguns policiais assistiam a tudo, im potentes: seria necessário um exército para im por algum a ordem ali.
Motoristas do Exército em geral eram taciturnos, m as aquele hom em sentiu-se im pelido a com entar:
– Covardes filhos da puta. Fugindo e nos deixando aqui para com bater os nazistas. Olhe só para eles, com seus sobretudos de m erda.
Volody a ficou surpreso. Criticar a elite governante era um perigo. Com entários com o aquele podiam levar a um a denúncia. O infrator então passaria um a ou duas sem anas nos porões do quartel-general da NKVD, na praça Luby anka. Podia sair de lá aleij ado.
Volody a teve a incôm oda sensação de que o rígido sistem a de hierarquia e deferência que sustentava o com unism o soviético estava com eçando a enfraquecer e se desintegrar.
Encontraram a equipe que estava m ontando a barricada exatam ente no local inform ado pelo adm inistrador. Volody a desceu do carro, pediu ao m otorista que esperasse e pôs-se a observar o trabalho que estava sendo feito.
Um a estrada principal estava coalhada de “ouriços” antitanque. Um ouriço consistia em três pedaços de trilho de trem , feitos de aço, com um m etro de com prim ento cada um , soldados entre si pelo m eio para form ar um asterisco que se apoiava no chão sobre três pernas e erguia três braços no ar. Aparentem ente, eles causavam sérios danos às esteiras dos blindados.
Atrás do cam po de ouriços, um a vala antitanque estava sendo cavada com picaretas e pás, enquanto m ais atrás era erguido um m uro de sacos de areia, com fendas pelas quais os defensores pudessem atirar. Um a estreita faixa em zigue-zague fora deixada livre de obstáculos, para que a estrada ainda pudesse ser usada pelos m oscovitas até a chegada dos alem ães.
Quase todos os operários da escavação e da construção do m uro de sacos eram m ulheres.
Volody a encontrou Zoy a ao lado de um a m ontanha de areia, enchendo sacos com um a pá. Passou um m inuto a observá-la de longe. Ela usava um sobretudo im undo, luvas de lã e botas de feltro. Tinha os cabelos louros presos para trás e cobertos por um lenço de cor indefinida am arrado sob o queixo. Seu rosto estava suj o de lam a, m as ainda assim ela continuava sexy. Manej ava a pá num ritm o constante, fazendo um trabalho eficiente. Então o supervisor soprou um apito, e todos fizeram um a pausa para descansar.
Zoy a foi se sentar sobre um a pilha de sacos de areia e tirou do bolso do sobretudo um pacotinho em brulhado em j ornal. Volody a se acom odou ao seu lado e disse:
– Você poderia ter sido dispensada deste trabalho.
– É a m inha cidade – respondeu ela. – Por que eu não aj udaria a defendê-la?
– Quer dizer que não vai fugir para o leste?
– Não vou fugir dos filhos da puta dos nazistas.
A veem ência da resposta o surpreendeu.
– Muita gente está fugindo.
– Eu sei. Pensei que você j á tivesse ido em bora há m uito tem po.
– Você tem um a péssim a opinião a m eu respeito. Acha que pertenço a um a elite egoísta.
Ela deu de om bros.
– Quem pode se salvar geralm ente aproveita.
– Bem , você está enganada. Minha fam ília toda continua aqui em Moscou.
– Talvez eu tenha feito m au j uízo de você. Aceita um a panqueca? – Ela abriu o pacotinho: lá dentro havia quatro discos de m assa clara envoltos em folhas de repolho. – Prove.
Ele aceitou e deu um a m ordida. O sabor não era grande coisa.
– O que é?
– Casca de batata. É possível pegar baldes cheios na porta dos fundos de qualquer cantina do partido ou no refeitório m ilitar. Depois é só passar no m oedor, cozinhar até as cascas ficarem m acias, m isturar com um pouco de farinha e leite, pôr sal, se tiver, e fritar em banha.
– Eu não sabia que a sua situação estava tão ruim assim – disse ele, constrangido. – Pode ir com er na nossa casa sem pre que quiser.
– Obrigada. O que traz você aqui?
– Um a pergunta. O que é separação de isótopos por difusão gasosa?
Ela o encarou.
– Ah, m eu Deus... O que aconteceu?
– Nada. Só estou tentando avaliar algum as inform ações duvidosas.
– Finalm ente estam os construindo um a bom ba de fissão?
A reação dela confirm ou que a inform ação de Frunze provavelm ente era genuína. Ela havia entendido na hora o significado de suas palavras.
– Responda à pergunta, por favor – disse ele, severo. – Mesm o que sej am os am igos, isto é um assunto oficial.
– Está bem . Você sabe o que é um isótopo?
– Não.
– Alguns elem entos existem na natureza sob form as ligeiram ente diferentes. Os átom os de carbono, por exem plo, têm sem pre seis prótons, m as alguns têm seis nêutrons, enquanto outros têm sete ou oito. Esses tipos diferentes são isótopos: carbono-12, carbono-13, carbono-14.
– É bem sim ples, m esm o para quem estudou línguas – com entou Volody a. – E que im portância tem isso?
– O urânio tem dois isótopos: U-235 e U-238. No urânio natural, os dois tipos estão m isturados. Mas só o U-235 é explosivo.
– Ou sej a, é preciso separá-los.
– Em tese, a difusão gasosa seria um a das m aneiras de fazer isso. Quando um gás é difundido através de um a m em brana, as m oléculas m ais leves passam m ais depressa. Portanto, o gás resultante é m ais rico no isótopo m ais baixo. É claro que nunca vi isso ser feito.
O relatório de Frunze dizia que os britânicos estavam construindo um a fábrica de difusão gasosa no País de Gales, na região oeste da Grã-Bretanha. Os am ericanos tam bém estavam construindo um a instalação desse tipo.
– Um a fábrica dessas poderia ter algum a outra finalidade?
– Não conheço nenhum outro m otivo para separar isótopos. – Ela balançou a cabeça. – Pense bem – disse ela. – Se alguém está priorizando esse tipo de processo em tem pos de guerra, ou está ficando m aluco, ou está fabricando um a arm a.
Volody a viu um carro se aproxim ar da barricada e ziguezaguear pela faixa livre da estrada. Era um KIM-10, um veículo pequeno de duas portas proj etado para fam ílias ricas. Em teoria, podia atingir a velocidade m áxim a de 95 quilôm etros por hora, m as aquele ali estava tão abarrotado que provavelm ente não chegaria nem a 65.
Ao volante estava um hom em de 60 e poucos anos, de chapéu e sobretudo de tecido em estilo ocidental. A seu lado, um a j ovem com um chapéu de pele na cabeça. Um a pilha de caixas de papelão ocupava o banco traseiro. No teto, havia um piano am arrado de form a precária.
Aquele era obviam ente um integrante da elite governante tentando sair da cidade com a esposa ou a am ante, e a m aior quantidade de obj etos de valor que pudesse carregar. O tipo de pessoa que Zoy a pensava que Volody a fosse; talvez por isso não tivesse aceitado sair com ele. Volody a se perguntou se ela talvez pudesse rever a opinião que tinha a seu respeito.
Um a das voluntárias da barricada em purrou um ouriço para a frente do KIM-10, e Volody a viu que haveria problem as.
O carro seguiu avançando devagar até o para-choque encostar no ouriço. Talvez o m otorista acreditasse que poderia tirar o obstáculo da frente em purrando-o. Várias outras m ulheres se aproxim aram para assistir. O ouriço fora proj etado para resistir a em purrões. Suas pernas se cravavam no chão, im obilizando-o, e ele ficava bem firm e. Ouviu-se um ruído de m etal sendo am assado quando o para-choque dianteiro do carro se deform ou. O m otorista engatou a ré e recuou.
Pôs a cabeça para fora da j anela e gritou:
– Tirem isso daí, agora! – Sua voz dava a entender que ele estava acostum ado a ser obedecido.
A voluntária, um a m ulher atarracada de m eia-idade, usando um a boina quadriculada m asculina, cruzou os braços.
– Tire você... seu desertor!
O m otorista desceu do carro com o rosto verm elho de raiva, e Volody a ficou espantado ao reconhecer o coronel Bobrov, com quem havia cruzado na Espanha. Bobrov ficara fam oso por m atar os próprios hom ens com um tiro na nuca quando eles recuavam . “Não há perdão para os covardes!” Esse era o seu lem a. Em Belchite, Volody a o vira m atar três m em bros da Brigada Internacional por terem recuado ao ficar sem m unição. Agora que usava roupas civis, Volody a se perguntou se Bobrov iria atirar na m ulher que havia im pedido a sua passagem .
Bobrov foi até diante do carro e segurou o ouriço. Era m ais pesado do que ele previra. Com esforço, conseguiu tirá-lo do cam inho.
Enquanto ele voltava para o carro, a m ulher de boina tornou a pôr o ouriço na frente do carro.
Mais voluntárias se j untaram para assistir ao em bate, sorrindo e fazendo piadas.
Bobrov andou até a m ulher enquanto tirava do bolso um a credencial.
– Eu sou o general Bobrov! – bradou. Ele devia ter sido prom ovido desde que voltara da Espanha. – Deixem -m e passar!
– Você se diz soldado? – retrucou a m ulher com desdém . – Então por que não está lutando?
Bobrov corou. Sabia que o desprezo dela tinha fundam ento. Teria ele sido convencido a fugir pela j ovem esposa?, perguntou-se Volody a.
– Para m im você é um traidor – prosseguiu a voluntária de boina. – Tentando fugir com seu piano e sua putinha. – Ela então derrubou o chapéu dele no chão.
Volody a ficou estarrecido. Nunca tinha visto ninguém desafiar um a autoridade daquele j eito na União Soviética. Em Berlim , antes de os nazistas subirem ao poder, ficara surpreso ao ver alem ães com uns discutirem sem m edo com agentes da polícia; m as isso não acontecia em seu país.
As m ulheres reunidas vibraram .
Bobrov tinha a cabeça inteiram ente coberta por cabelos brancos rentes. Olhou para o chapéu que saíra rolando pela estrada m olhada. Deu um passo para ir atrás, m as m udou de ideia.
Volody a não se sentiu tentado a intervir. Não havia nada que pudesse fazer contra aquele grupo grande. Além disso, não nutria nenhum a sim patia por Bobrov. Parecia-lhe j usto que ele fosse tratado com a m esm a brutalidade que sem pre dispensara aos dem ais.
Outra voluntária, um a m ulher m ais velha envolta num cobertor im undo, abriu o porta-m alas do carro.
– Vej am só isto aqui! – exclam ou.
O com partim ento estava cheio de m alas de couro. Ela pegou um a das bagagens e soltou os trincos, fazendo a tam pa se abrir. O conteúdo da m ala caiu: roupa de baixo rendada, anáguas e cam isolas de linho, m eias e cam isetas de seda, tudo obviam ente fabricado no Ocidente, de qualidade superior à de qualquer roupa que m ulheres russas j á tivessem visto, que dirá com prado. As peças finas caíram na papa de neve da rua e ficaram presas ali com o pétalas de flor sobre um a pilha de esterco.
Algum as das m ulheres com eçaram a recolher as roupas. Outras foram pegando m ais m alas. Bobrov correu até a traseira do carro e com eçou a em purrá-las para longe. Aquilo estava ficando feio, pensou Volody a. O general devia portar um a arm a, e a qualquer m om ento iria sacá-la. Mas a m ulher do cobertor ergueu um a pá e acertou Bobrov com força na cabeça. Um a m ulher capaz de cavar um a vala com um a pá não era nada fraca, e o golpe produziu um barulho alto e nauseante. O general caiu no chão e as voluntárias com eçaram a chutá-lo.
A j ovem am ante saltou do carro.
– Vai nos aj udar a cavar? – gritou a m ulher da boina, e as outras riram .
A nam orada do general, que parecia ter uns 30 anos, baixou a cabeça e pôs-se a seguir pela estrada na m esm a direção de onde o carro tinha vindo. A m ulher de boina quadriculada lhe deu um em purrão, m as ela se esquivou entre os ouriços e com eçou a correr. A voluntária foi atrás. A am ante, que calçava sapatos de cam urça bege de salto alto, escorregou no chão m olhado e caiu. O chapéu de pele escapuliu de sua cabeça. Ela se levantou com dificuldade e voltou a correr. A m ulher de boina a deixou ir em bora e se atirou sobre o chapéu.