Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 91 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

Ela assentiu.

– Ele nasceu em 1936 – disse Greg.

– No m ês de m aio – com pletou ela. – Oito m eses e m eio depois de eu ter ido em bora do apartam ento de Buffalo.

– Meu pai sabe?

– Caram ba, não. Isso teria dado a ele ainda m ais poder sobre m im .

Toda a sua hostilidade havia sum ido, e ela agora parecia apenas vulnerável. Em seu olhar Greg viu um a súplica, em bora não tivesse certeza do que ela estava suplicando.

Olhou para Georgy com outros olhos: a pele clara, os olhos verdes, a estranha sem elhança com Daisy . Você é m eu filho?, pensou. Será possível?

Mas ele sabia que era.

Seu coração foi inundado por um a estranha em oção. De repente, pareceu-lhe que Georgy era absurdam ente vulnerável, um a criança indefesa num m undo cruel, e Greg precisava tom ar conta dele, garantir que nenhum m al lhe acontecesse. Teve um im pulso de tom ar o m enino nos braços, m as percebeu que isso poderia assustá-lo, então se conteve.

Georgy pousou o copo de suco na m esa. Desceu da cadeira e deu a volta até j unto de Greg. Com um olhar surpreendentem ente direto, perguntou:

– Quem é você?

É sem pre assim , pensou Greg: crianças sem pre fazem a pergunta m ais difícil. O que ele iria responder? A verdade era dem ais para um m enino de 6 anos assim ilar. Sou só um velho am igo de sua m ãe, pensou. Estava só passando por aqui e resolvi dizer oi. Não sou ninguém especial. Talvez vej a você de novo, provavelm ente não.

Olhou para Jacky, e viu que a expressão de súplica tinha se intensificado. Então com preendeu o que passava pela cabeça dela: estava m orrendo de m edo de que ele fosse rej eitar Georgy .

– Vam os fazer assim – disse Greg, pegando o m enino do chão e sentando-o em seu colo. – Por que não m e cham a de tio Greg?

 

IV

Greg trem ia de frio na galeria de espectadores de um a quadra de squash sem calefação. Ali, debaixo da arquibancada oeste do estádio vazio, na extrem idade do cam pus da Universidade de Chicago, Ferm i e Szilard tinham m ontado sua pilha atôm ica. Greg estava im pressionado e assustado.

A pilha era um cubo feito de tij olos de grafite que ia até o teto da quadra e term inava a poucos centím etros da parede dos fundos, com centenas de m anchas deixadas pelas bolas de squash. A pilha havia custado um m ilhão de dólares e poderia explodir a cidade inteira.

O grafite, a m atéria-prim a dos lápis, soltava um a poeira suj a que cobria o chão e as paredes. Todo m undo que passava algum tem po ali saía com o rosto encardido com o o de um carvoeiro. Ninguém conseguia m anter lim po seu j aleco.

O m aterial explosivo não era o grafite – m uito pelo contrário: ele estava ali para elim inar a radioatividade. No entanto, alguns dos tij olos da pilha estavam furados com estreitos buraquinhos recheados de óxido de urânio, o m aterial que irradiava os nêutrons. Atravessando a pilha havia dez dutos para barras de controle. Estas tinham quatro m etros de com prim ento e eram feitas de cádm io, um m etal que absorvia os nêutrons com m ais voracidade ainda que o grafite. No m om ento, as barras m antinham a situação tranquila. Som ente quando fossem rem ovidas da pilha a diversão com eçaria de verdade.

O urânio j á em itia sua radiação fatal, m as o grafite e o cádm io a absorviam . A radiação era m onitorada por m edidores que em itiam cliques am eaçadores e por um gravador cilíndrico a caneta que, felizm ente, não fazia barulho. A profusão de controles e m edidores j unto a Greg era a única fonte de calor do recinto.

Greg foi visitar o experim ento a 2 de dezem bro, um a quarta-feira de vento e frio intenso em Chicago. Nesse dia previa-se que a pilha fosse atingir um estado crítico pela prim eira vez. Greg estava lá para observar a experiência com o representante de seu chefe, o general Groves. A quem perguntasse ele dava a entender, em tom alegre, que Groves tem ia um a explosão e por isso m andara Greg arriscar a vida em seu lugar. Na verdade, sua m issão era m ais sinistra: ele devia fazer um a avaliação inicial dos cientistas para decidir qual deles poderia ser um a am eaça.

A segurança do Proj eto Manhattan era um pesadelo. Os principais cientistas eram estrangeiros. A m aioria era de esquerda, com unista ou liberal com am igos com unistas. Se todos os suspeitos fossem dem itidos, quase não sobrariam m ais cientistas. Então Greg tentava entender quais deles representavam os m aiores riscos.

Enrico Ferm i tinha cerca de 40 anos. Baixo, j á m eio careca e de nariz com prido, exibia um sorriso cativante ao supervisionar seu experim ento am eaçador. Estava bem -vestido, de terno e colete. A m anhã j á ia adiantada quando ele ordenou o início do teste.

Prim eiro, instruiu um dos técnicos a retirar todas as barras de cádm io da pilha, m enos um a.

– Com o assim , todas de um a vez? – perguntou Greg. Isso lhe parecia assustadoram ente precipitado.

– Já fom os até esse ponto ontem à noite – disse o cientista de pé ao seu lado, Barney McHugh. – Deu tudo certo.

– Bom saber – com entou Greg.

McHugh, barbado e gordo, ocupava um a posição m uito baixa na lista de suspeitos de Greg. Era am ericano e não tinha interesse nenhum por política. A única m ancha em sua ficha era ter um a esposa estrangeira, inglesa – o que nunca era um bom sinal, m as tam bém não constituía prova de traição.

Greg im aginava que houvesse algum m ecanism o sofisticado para pôr e tirar as barras, porém era tudo m uito sim ples. O técnico apenas encostou um a escada na pilha de tij olos, subiu até a m etade e as retirou com a m ão.

Com um tom de voz descontraído, McHugh com entou:

– Originalm ente faríam os este teste na floresta de Argonne.

– Onde fica isso?

– Pouco m ais de trinta quilôm etros a sudoeste de Chicago. Um lugar bem isolado. Menor risco de acidentes.

Greg estrem eceu.

– Por que m udaram de ideia e decidiram conduzir a experiência aqui m esm o, na Rua 57?

– Os operários que contratam os entraram em greve, então nós m esm os tivem os que m ontar a droga da pilha, e não podíam os ficar tão longe dos laboratórios.

– Então resolveram correr o risco de dizim ar a população de Chicago.

– Não acreditam os que isso vá acontecer.

Greg tam pouco acreditava, m as agora, a poucos m etros da pilha, j á não estava tão certo.

Ferm i estava com parando os m onitores a um a previsão dos níveis de radiação em cada etapa do experim ento, estabelecida previam ente. Ao que parecia, o estágio inicial correu de acordo com o esperado, pois ele ordenou que a últim a barra de cádm io fosse rem ovida até a m etade.

Havia algum as m edidas de segurança. Um a barra lastreada, suspensa acim a da pilha, estava pronta para ser baixada autom aticam ente caso o nível de radiação subisse dem ais. Se isso não funcionasse, havia um a barra sem elhante presa a um a corda no guarda-corpo da galeria onde Greg estava, e um j ovem físico, de pé com um m achado na m ão – parecendo sentir-se um pouco bobo –, m antinha-se a postos para cortar a corda em caso de em ergência. Por fim , três outros cientistas, cham ados de “o esquadrão suicida”, estavam posicionados perto do teto do estádio, em pé sobre a plataform a do elevador usado para m ontar a pilha, e despej ariam sobre ela grandes j arros de solução de sulfato de cádm io, com o se estivessem apagando um a fogueira.

Greg sabia que a geração de nêutrons se m ultiplicava em m ilésim os de segundo. Ferm i, porém , afirm ava que alguns nêutrons levavam m ais tem po, talvez vários segundos. Se ele estivesse certo, não haveria problem a. Se estivesse errado, porém , o esquadrão com os j arros e o físico que segurava o m achado seriam pulverizados num piscar de olhos.

Greg ouviu os cliques se acelerarem . Nervoso, olhou para Ferm i, que fazia contas com um a régua de cálculo. O italiano parecia satisfeito. De qualquer m odo, pensou Greg, se algo der errado, tudo provavelm ente vai acontecer tão depressa que nem sequer nos darem os conta.

O ritm o dos cliques se estabilizou. Ferm i sorriu e m andou que a barra fosse rem ovida m ais 15 centím etros.

Outros cientistas chegavam e subiam até a galeria, usando roupas pesadas, apropriadas para o inverno de Chicago: sobretudos, chapéus, cachecóis, luvas. Greg ficou pasm o com a falta de segurança. Ninguém checava credenciais: qualquer um daqueles hom ens poderia estar espionando para os j aponeses.

Entre os recém -chegados, Greg reconheceu Szilard, m uito alto e corpulento, de rosto redondo e grossos cabelos cacheados. Leo Szilard era um idealista: acreditava que a energia nuclear fosse libertar a raça hum ana do fardo do trabalho. Fora com o coração pesado que entrara para a equipe encarregada de produzir a bom ba atôm ica.

A barra saiu m ais 15 centím etros, e o ritm o dos cliques aum entou.

Greg olhou para o relógio. Eram onze e m eia da m anhã.

De repente, ouviu-se um barulho m uito alto. Todos se assustaram .

– Cacete! – praguej ou McHugh.

– O que houve? – perguntou Greg.

– Ah, agora entendi – respondeu o cientista. – O nível de radiação ativou o m ecanism o de segurança e liberou a barra de em ergência, só isso.

– Estou com fom e – anunciou Ferm i. – Vam os alm oçar.

Com o eles conseguiam pensar em com ida? No entanto, ninguém reclam ou.

– Nunca se sabe quanto tem po um a experiência vai levar – disse McHugh. – Às vezes dem ora o dia inteiro. É m elhor com er quando tem os a chance.

Greg teve vontade de gritar.

As barras de controle foram recolocadas na pilha e presas no lugar, e todos saíram do estádio.

A m aioria foi com er num bandej ão do cam pus. Greg pediu um queij o quente e sentou-se ao lado de um físico solene cham ado Wilhelm Frunze. A m aioria dos cientistas se vestia m al, m as Frunze se destacava nesse quesito. Usava um terno verde com detalhes em cam urça bege: casas de botão, debrum do colarinho, cotoveleiras, abas dos bolsos. Frunze ocupava um lugar bem alto na lista de suspeitos de Greg. Era alem ão, em bora tivesse deixado o país em m eados da década de 1930 e em igrado para Londres. Em bora fosse antinazista, não era com unista: seu posicionam ento político era social-dem ocrata. Havia se casado com um a artista am ericana. Ao conversar com ele durante o alm oço, Greg não viu m otivo para desconfiança. Frunze parecia gostar da vida nos Estados Unidos e se interessava por pouca coisa além do trabalho. Ainda assim , era im possível ter certeza quanto à verdadeira lealdade dos estrangeiros.

Depois do alm oço, Greg foi até o estádio abandonado. Olhando para as arquibancadas vazias, com eçou a pensar em Georgy . Não havia contado a ninguém que tinha um filho – nem m esm o a Margaret Cowdry, com quem agora estava tendo um relacionam ento deliciosam ente carnal –, m as ansiava por contar à m ãe. Sentia-se orgulhoso, m esm o que não houvesse m otivo para isso. Afinal, sua única contribuição para trazer Georgy ao m undo tinha sido fazer am or com Jacky, provavelm ente a coisa m ais fácil que ele j á havia feito na vida. De todo m odo, estava anim ado. Aquele era o início de um a espécie de aventura. Georgy iria crescer, aprender, m udar, e um dia se tornaria um hom em . E Greg estaria lá para assistir e se m aravilhar.

Os cientistas voltaram a se reunir às duas da tarde. Agora havia cerca de quarenta pessoas apinhadas na galeria j unto aos aparelhos de m onitoram ento. A experiência foi cuidadosam ente repetida até o ponto em que havia sido interrom pida, sem que Ferm i parasse de conferir seus instrum entos.

Então ele disse:

– Desta vez, rem ovam a barra trinta centím etros.

Os cliques aum entaram . Greg esperou o ritm o se estabilizar com o das outras vezes, m as isso não aconteceu. Pelo contrário: os cliques foram se acelerando cada vez m ais até se transform arem num rugido constante.

Ao perceber que a atenção de todos os presentes tinha se voltado para o m edidor cilíndrico, constatou que o nível de radiação j á havia ultrapassado o m áxim o previsto. A escala do m edidor era aj ustável. O nível foi aum entando, então a escala m udou, depois m udou outra vez, e m ais outra.

Ferm i levantou a m ão. Todos se calaram .

– A pilha atingiu um nível crítico – disse ele. Sorriu... e não pronunciou m ais nenhum a palavra.

Greg sentiu vontade de gritar: Então desliguem essa porra! Mas Ferm i continuou calado e im óvel, observando a caneta do m edidor cilíndrico. Tinha tanta autoridade que ninguém o confrontou. A reação em cadeia estava acontecendo, só que num am biente controlado. Ele deixou que ela prosseguisse por um m inuto, depois dois.

– Meu Deus – m urm urou McHugh.

Greg não queria m orrer. Queria se tornar senador. Queria ir para a cam a com Margaret Cowdry outra vez. Queria ver Georgy entrar para a faculdade. Ainda não vivi nem m etade da m inha vida, pensou.