Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 102 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo V

Macke recolheu a pistola do chão.

Werner chegou à porta da escola. Macke m irou com cuidado em suas pernas e disparou.

Os três prim eiros tiros não acertaram , e Werner conseguiu passar pela porta.

O inspetor tornou a disparar pela porta ainda aberta. Werner deu um grito e caiu no chão.

Macke saiu correndo pelo corredor. Atrás de si, ouviu os com panheiros vindo do refeitório da escola.

Então o teto se abriu com um estrondo, ouviu-se outro baque alto e línguas de fogo com eçaram a brotar, com o se fossem um chafariz. Macke soltou um grito de pavor. Quando suas roupas pegaram fogo, com eçou a urrar de dor. Caiu no chão. Fez-se silêncio, depois escuridão.

 

V

Os m édicos estavam fazendo a triagem dos pacientes no saguão do hospital. Aqueles que tinham apenas hem atom as e cortes eram m andados para a área de espera do am bulatório, onde as enferm eiras m enos experientes lim pavam suas feridas e lhes davam aspirina para aliviar a dor. Os casos m ais graves recebiam tratam ento de em ergência ali m esm o, no saguão, e depois eram encam inhados para especialistas no andar de cim a. Os m ortos eram levados para o pátio e deitados no chão frio até que alguém fosse procurá-los.

O Dr. Ernst exam inou um a vítim a de queim aduras que não parava de gritar e receitou m orfina.

– Depois tire as roupas dele e passe um pouco de gel nas queim aduras – instruiu o m édico antes de se dirigir ao paciente seguinte.

Carla preparou um a inj eção enquanto Frieda rem ovia as roupas carbonizadas do ferido, cortando-as. O hom em tinha queim aduras graves em toda a lateral direita do corpo, m as o lado esquerdo não estava tão ruim . Carla encontrou um pedaço intacto de pele e m úsculo na coxa esquerda. Estava a ponto de aplicar a inj eção quando olhou para o rosto do paciente e gelou.

Conhecia aquele rosto rechonchudo e redondo, aquele bigodinho que parecia um a suj eira debaixo do nariz. Dois anos antes, aquele m esm o hom em entrara em sua casa e prendera seu pai. Quando vira o pai novam ente, ele estava à beira da m orte. Aquele era o inspetor Macke, da Gestapo.

Você m atou m eu pai, pensou ela.

Agora posso m atar você.

Seria sim ples. Bastava aplicar quatro vezes a dose m áxim a de m orfina. Ninguém iria perceber, principalm ente num a noite com o aquela. Ele perderia os sentidos na m esm a hora e m orreria em poucos m inutos. Algum m édico j á exaurido iria supor que a m orte fora decorrente de um a falência cardíaca. Ninguém duvidaria do diagnóstico. Não haveria perguntas céticas. Ele seria apenas m ais um em m eio aos m ilhares de pessoas m ortas num grande bom bardeio. Descanse em paz.

Sabia que Werner tinha m edo de que Macke houvesse descoberto seu j ogo. A qualquer m om ento, o j ovem tenente poderia ser preso. Todo mundo fala sob tortura. Werner iria entregar Frieda, Heinrich e os outros – além da própria Carla. Ela poderia salvar todos eles, ali m esm o, em apenas um m inuto.

Mas vacilou.

Perguntou-se o m otivo daquela hesitação. Macke era um torturador, um assassino. Merecia m orrer m il vezes.

Carla tinha m atado Joachim , ou pelo m enos aj udado a m atá-lo. Mas aquilo acontecera num a briga. Joachim estava prestes a m atar sua m ãe a pontapés quando ela o atingira na cabeça com um panelão de sopa. Essa situação era diferente.

Macke era seu paciente.

Carla não era m uito religiosa, m as ainda assim acreditava que algum as coisas fossem sagradas. Era enferm eira, e os pacientes confiavam nela. Sabia que Macke não hesitaria em torturá-la e m atá-la – m as ela não era igual a ele, não era esse tipo de pessoa. Aquilo não tinha nada a ver com o inspetor, m as com Carla.

Tinha a sensação de que, se m atasse um paciente, teria que largar a profissão e nunca m ais se atreveria a cuidar de qualquer doente. Seria com o um banqueiro ladrão, um político corrupto, ou um padre que acaricia as m eninas que vêm fazer aulas de catecism o. Teria traído a si m esm a.

– O que está esperando? – perguntou Frieda. – Não posso passar o gel antes de ele se acalm ar.

Carla espetou Thom as Macke com a agulha e ele parou de gritar.

Frieda com eçou a passar gel na pele queim ada.

– Este aqui sofreu apenas um a concussão – disse então o Dr. Ernst, referindo-se a outro paciente. – Mas levou um tiro nas nádegas. – Ele ergueu a voz para se dirigir ao paciente: – Com o o senhor tom ou esse tiro? Balas são a única coisa que a RAF não está atirando em nós.

Carla se virou para olhar. O paciente estava deitado de bruços. Sua calça tinha sido cortada, deixando as nádegas à m ostra. A pele era m uito branca, e pelos finos e louros despontavam da base das costas. Apesar de atordoado, o hom em balbuciou algum a coisa.

– A arm a do policial disparou por acidente? Foi isso que o senhor disse? – indagou Ernst.

O paciente respondeu com m ais clareza:

– Sim .

– Vou rem over a bala. Vai doer, m as tem os pouca m orfina, e há casos m ais graves que o seu.

– Pode tirar.

Carla lim pou o ferim ento. Ernst em punhou um fórceps com prido e estreito.

– Morda o travesseiro – ordenou.

O m édico inseriu o fórceps dentro do ferim ento. O paciente soltou um grito abafado de dor.

– Tente não tensionar os m úsculos – recom endou o Dr. Ernst. – Assim fica m ais difícil.

Carla pensou que aquilo era um a coisa estúpida de se dizer. Ninguém conseguia relaxar com um a pinça enfiada num a ferida.

– Ai, m erda! – urrou o hom em .

– Pronto, peguei – disse o Dr. Ernst. – Tente ficar parado!

O paciente obedeceu, então o m édico retirou a bala e a depositou em um a bandej a.

Carla enxugou o sangue do buraco e fez um curativo no ferim ento.

O paciente ficou de frente.

– Não – repreendeu Carla. – O senhor tem que ficar de...

Interrom peu a frase no m eio. Era Werner.