Inverno do Mundo
Capítulo IV
Será que toda m ulher olhava para trás e relem brava as tolices com etidas na j uventude? Daisy tornou a pensar em Ethel, que sem dúvida tivera um com portam ento tolo – afinal de contas, engravidara do patrão –, m as nunca falava sobre isso com arrependim ento. Talvez essa fosse a atitude correta. Pensou nos erros que ela m esm a com etera: ficar noiva de Charlie Farquharson, rej eitar Lloy d, casar-se com Boy Fitzherbert. Não conseguia olhar para trás e pensar no bem que tinha advindo dessas escolhas. Som ente quando decidira rej eitar a alta roda e buscar consolo na cozinha de Ethel em Aldgate sua vida m udara para m elhor. Ela havia parado de alm ej ar o status social e aprendera o que significava a verdadeira am izade; desde então, era um a m ulher feliz.
Agora que j á não ligava para nada disso, gostava ainda m ais de festas.
– Está pronta? – perguntou Lloy d.
Ela estava. Vestiu o casaco de noite que Dior criara para com binar com o vestido. Os dois desceram no elevador, saíram do hotel e entraram na lim usine que os aguardava.
IV
Na véspera de Natal, Carla convenceu a m ãe a tocar piano.
Fazia m uitos anos que Maud não tocava. Talvez o instrum ento a deixasse triste por despertar lem branças de Walter: os dois costum avam tocar e cantar j untos, e ela m uitas vezes dissera aos filhos com o havia tentado, sem sucesso, ensinar a ele o ragtim e. Mas ela não contava m ais essa história, e Carla desconfiava que, hoj e em dia, o piano tam bém fizesse a m ãe pensar em Joachim Koch, o j ovem oficial que viera ter aulas com ela, a quem ela enganara e seduzira, e que Carla e Ada m ataram na cozinha. A própria Carla não conseguia elim inar com pletam ente a lem brança daquela noite de pesadelo, sobretudo quando tivera que se livrar do corpo. Não estava arrependida – fora a coisa certa a fazer –, m as m esm o assim teria preferido esquecer.
Nessa noite, porém , Maud finalm ente concordou em tocar “Noite Feliz” para que todos cantassem j untos. Werner, Ada, Erik e as três crianças – Rebecca, Walli e a bebezinha Lili – reuniram -se na sala de estar em volta do velho Steinway. Carla pôs um a vela em cim a do piano e, sob as som bras dançantes que esta lançava, analisou o rosto dos parentes que entoavam a conhecida canção natalina alem ã.
Walli, no colo de Werner, faria 4 anos em algum as sem anas e tentava acom panhar a canção adivinhando com inteligência as palavras e a m elodia. O m enino tinha os olhos orientais do pai estuprador. Carla havia decidido que sua vingança seria criar o filho para que tratasse as m ulheres com carinho e respeito.
Erik cantava com sinceridade a letra da m úsica. Apoiava o regim e soviético da m esm a form a cega que havia apoiado os nazistas. De início, isso havia provocado em Carla incom preensão e fúria, m as ela agora via um a lógica triste no fervor do irm ão. Erik era um a daquelas pessoas inadequadas cuj o m edo da vida era tão grande que preferiam viver sob um a autoridade dura, ter um governo que lhes dissesse o que fazer e o que pensar, e que não perm itisse nenhum a dissidência. Eram tolas e perigosas, m as havia m uita gente assim .
Carla então encarou com ternura o m arido. Aos 30 anos, Werner continuava sendo um hom em bonito. Lem brou-se de tê-lo beij ado, e m ais, quando tinha 19 anos, no banco da frente de seu carro estiloso parado na floresta de Grunewald. Ainda gostava de beij á-lo.
Quando pensava no tem po transcorrido desde então, tinha m il lam entações, m as a m aior de todas era a m orte do pai. Sentia falta dele o tem po todo, e ainda chorava ao se lem brar de vê-lo caído no hall de casa, espancado tão cruelm ente que sucum biu antes de o m édico chegar.
Mas todos tinham que m orrer, e seu pai perdera a vida em nom e de um m undo m elhor. Se m ais alem ães houvessem tido a sua coragem , os nazistas não teriam triunfado. Carla queria fazer tudo o que ele fizera: criar bem os filhos, fazer diferença na política de seu país, am ar e ser am ada. Mais do que tudo, quando m orresse, queria que os filhos pudessem dizer, com o ela dizia do pai, que sua vida tinha significado algum a coisa, e que o m undo era um lugar m elhor por causa dela.
A canção de Natal term inou. Maud sustentou o últim o acorde no piano, e o pequeno Walli se inclinou para a frente e apagou a vela com um sopro.