Inverno do Mundo
Capítulo V
Era a prim eira vez que Daisy entendia o significado da palavra trabalho.
Ou cansaço. Ou tragédia.
Estava sentada na sala de aula de um a escola, bebendo chá inglês doce num a xícara sem pires. Usava um capacete de aço e galochas. Eram cinco da tarde, e ela ainda estava cansada por causa da noite anterior.
Era agora voluntária da ARP do bairro de Aldgate. Em tese, trabalhava em turnos de oito horas, seguidos por oito horas de sobreaviso e oito de descanso. Na prática, trabalhava enquanto durasse o ataque aéreo e enquanto houvesse feridos a serem levados para o hospital.
Londres fora bom bardeada todas as noites de outubro de 1940.
Daisy sem pre trabalhava com outra m ulher, auxiliar de m otorista, e quatro hom ens: j untos form avam a equipe de resgate. Sua base era num a escola e eles agora estavam sentados nas carteiras dos alunos, esperando que os aviões chegassem , as sirenes tocassem e as bom bas caíssem .
Ela dirigia um Buick am ericano transform ado em am bulância. A equipe tinha tam bém um carro norm al e outro m otorista para transportar o que cham avam de pacientes sentados – feridos que conseguiam ficar sentados sem aj uda no traj eto até o hospital.
Sua auxiliar cham ava-se Naom i Avery, um a londrina loura e bonita que gostava de hom ens e apreciava a cam aradagem da equipe. Nesse exato m om ento, estava provocando seu supervisor, um policial aposentado cham ado Nobby Clarke.
– O chefe dos voluntários é hom em – disse ela. – O supervisor do bairro é hom em . Você é hom em .
– Assim espero – retrucou Nobby , e os outros riram .
– Há m uitas m ulheres na ARP – continuou Naom i. – Por que nenhum a delas tem um cargo de supervisão?
Os hom ens riram . Um careca narigudo apelidado de George Bonitão falou:
– Lá vam os nós outra vez... os direitos fem ininos. – Ele tinha certa tendência à m isoginia.
– Vocês não acham m esm o que todos os hom ens são m ais inteligentes do que as m ulheres, acham ? – interveio Daisy .
– Na verdade, há algum as m ulheres supervisoras – disse Nobby .
– Nunca conheci nenhum a – disse Naom i.
– É um a questão de tradição, não é? – disse Nobby. – As m ulheres sem pre foram donas de casa.
– Com o Catarina, a Grande, da Rússia – disse Daisy com sarcasm o.
– Ou a rainha Elizabeth – em endou Naom i.
– Am elia Earhart.
– Jane Austen.
– Ou Marie Curie, a única cientista a ganhar o Nobel duas vezes.
– Catarina, a Grande? – indagou George Bonitão. – Não é ela que tem um a história com um cavalo?
– Olhe lá, tem os dam as no recinto – disse Nobby em tom de reprovação. – Mas posso responder à pergunta de Daisy .
Disposta a deixá-lo brilhar, Daisy falou:
– Então responda.
– Adm ito que algum as m ulheres podem ser tão inteligentes quanto os hom ens – falou, com ar de quem estava fazendo um a concessão incrivelm ente generosa. – Mas m esm o assim há um m otivo m uito bom para que a m aioria dos supervisores da ARP consista de hom ens.
– E que m otivo seria esse, Nobby ?
– É m uito sim ples: hom ens não aceitam receber ordens de m ulheres. – Ele se recostou na cadeira com um a expressão de triunfo, certo de que tinha ganhado a discussão.
A ironia era que, quando as bom bas estavam caindo, enquanto eles reviravam os destroços para resgatar os feridos, hom ens e m ulheres eram , sim, iguais. Nessa hora não havia hierarquia. Se Daisy gritasse para Nobby segurar a outra ponta de um a viga, ele obedeceria sem pestanej ar.
Daisy adorava aqueles hom ens, até m esm o George. Eles dariam a vida por ela, e ela por eles.
Ouviu um apito grave soar lá fora, na rua. Aos poucos, o som foi se tornando m ais agudo, até virar a sirene cansativam ente conhecida de um alarm e antiaéreo. Segundos depois, ouviu-se o estrondo de um a explosão distante. Com frequência o alarm e chegava tarde dem ais; às vezes, soava depois que as prim eiras bom bas j á haviam caído.
O telefone tocou e Nobby atendeu.
Todos se levantaram . Com a voz cansada, George perguntou:
– Esses alem ães nunca tiram um a droga de um a folga?
Nobby pôs o fone no gancho e anunciou:
– Nutley Street.
– Sei onde fica – disse Naom i enquanto todos saíam apressados. – A nossa deputada m ora nessa rua.
Entraram depressa nos carros. Enquanto Daisy engatava a m archa da am bulância e arrancava, Naom i, sentada ao seu lado, com entou:
– Bons tem pos.
Ela estava sendo irônica, porém , por m ais que parecesse estranho, Daisy estava mesmo feliz. Que esquisito, pensou, enquanto fazia um a curva em disparada. Noite após noite, via destruição, tragédias horríveis, corpos terrivelm ente m utilados. Havia um a boa chance de ela própria m orrer nessa m esm a noite, dentro de um prédio em cham as. Apesar disso, sentia-se ótim a. Estava trabalhando e sofrendo em prol de um a causa e, por m ais paradoxal que isso fosse, era m elhor do que agradar a si m esm a. Ela fazia parte de um grupo capaz de arriscar tudo para aj udar os outros, e essa era a sensação m ais gratificante do m undo.
Daisy não odiava os alem ães por tentarem m atá-la. Seu sogro, o conde Fitzherbert, lhe dissera por que eles estavam bom bardeando Londres. Até agosto, a Luftwaffe vinha atacando apenas portos e cam pos de pouso. Num m om ento de sinceridade pouco usual, Fitz havia lhe explicado que os britânicos não tiveram os m esm os escrúpulos: o governo aprovara em m aio o bom bardeio de cidades alem ãs, e durante todo o m ês de j unho a Real Força Aérea lançara bom bas sobre m ulheres e crianças em suas casas. Furioso, o povo alem ão exigira um a retaliação. O resultado era a Blitz.
Daisy e Boy vinham m antendo as aparências, m as ela trancava a porta do quarto sem pre que o m arido estava em casa, e ele não protestava. Seu casam ento era um a farsa, m as am bos estavam ocupados dem ais para tom ar qualquer atitude a respeito. Quando pensava nisso, Daisy ficava triste, pois agora havia perdido os dois, Boy e Lloy d. Felizm ente, m al tinha tem po para pensar.
A Nutley Street estava em cham as. A Luftwaffe lançava ao m esm o tem po bom bas incendiárias e explosivos de alta potência. Os m aiores danos eram causados pelo fogo, m as as bom bas quebravam as j anelas, deixando penetrar o oxigênio que alim entava as cham as.
Daisy parou a am bulância cantando pneus, e eles puseram m ãos à obra.
As vítim as com ferim entos leves eram acom panhadas até a estação de prim eiros socorros m ais próxim a. As m ais graves eram levadas para o St. Bart’s ou para o Hospital de Londres, em Whitechapel. Daisy fez várias viagens. Quando a noite caiu, ela acendeu os faróis. Por causa do blecaute, eles estavam cobertos, deixando passar apenas um estreito facho de luz. Mas isso agora parecia um a precaução inútil – Londres ardia com o um a fogueira.
O bom bardeio prosseguiu até de m adrugada. Em plena luz do dia, os aviões ficavam vulneráveis dem ais e corriam o risco de ser abatidos pelos caças pilotados por Boy e seus com panheiros. Assim , a intensidade do bom bardeio foi dim inuindo. Enquanto a luz cinzenta e fria com eçava a ilum inar os destroços, Daisy e Naom i voltaram para a Nutley Street e viram que não havia m ais vítim as a serem levadas para o hospital.
Exaustas, as duas se sentaram sobre o que restava de um a m ureta de tij olos que dem arcava um j ardim . Daisy tirou o capacete de aço. Estava suj a e esgotada. Nem im agino o que as m oças do Iate Clube de Buffalo iriam pensar de m im agora, disse a si m esm a. Então percebeu que j á não se im portava com isso. A época em que a aprovação daquelas garotas era a coisa m ais im portante do m undo para ela parecia m uito distante no passado.
– Quer um a xícara de chá, m inha linda? – perguntou alguém .
Ela reconheceu o sotaque galês. Ergueu os olhos e viu um a atraente m ulher de m eia-idade, com um a bandej a na m ão.
– Puxa, é disso m esm o que preciso – falou, aceitando.
Agora j á tinha tom ado gosto pela bebida. O sabor era am argo, m as tinha um efeito incrivelm ente restaurador.
A m ulher deu um beij o em Naom i, que explicou a Daisy :
– Nós som os parentes. Millie, a filha dela, é casada com m eu irm ão, Abie.
Daisy ficou olhando a m ulher circular com a bandej a pelo pequeno grupo de voluntários da ARP, bom beiros e vizinhos. Ela tinha um ar de autoridade e Daisy achou que devia ser um a celebridade local. Apesar disso, era obviam ente um a m ulher do povo e se dirigia a todos de form a descontraída e calorosa, fazendo-os sorrir. Conhecia Nobby e George Bonitão, e cum prim entou-os com o se fossem velhos am igos.
A m ulher então pegou a últim a xícara da bandej a para si e foi se sentar ao lado de Daisy .
– Seu sotaque é am ericano – com entou, sim pática.
Daisy assentiu.
– Sou casada com um inglês.
– Eu m oro nesta rua... m as m inha casa escapou das bom bas na noite passada. Sou deputada por Aldgate. Meu nom e é Eth Leckwith.
O coração de Daisy parou de bater por um segundo. Aquela era a fam osa m ãe de Lloy d!