Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 121 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo IV

Weiss respondeu com calm a. Em um russo hesitante, falou:

– Não há necessidade dessa arm a. Ponha seu com panheiro em cim a desta m esa.

O soldado obedeceu e a equipe m édica com eçou a trabalhar. O soldado m anteve o fuzil apontado para o m édico o tem po todo.

Mais tarde nesse m esm o dia, os pacientes alem ães foram conduzidos ou carregados para fora e postos na traseira de um cam inhão que partiu para leste. Erik viu Werner Franck desaparecer, agora prisioneiro de guerra. Quando era pequeno, Erik ouvira m uitas vezes a história do tio Robert, que fora capturado pelos russos durante a Prim eira Guerra Mundial e voltara a pé da Sibéria até a Alem anha, um a viagem de 6.500 quilôm etros. Perguntou-se onde Werner iria parar.

Outros russos feridos foram trazidos e os alem ães cuidaram deles com o teriam feito com os próprios soldados.

Mais tarde, antes de cair num sono exausto, Erik se deu conta de que agora tam bém era um prisioneiro de guerra.

 

IV

À m edida que os exércitos Aliados se aproxim avam de Berlim , os países vitoriosos com eçaram a brigar entre si na conferência das Nações Unidas, em São Francisco. Woody teria achado isso deprim ente, se não estivesse m ais interessado em contatar Bella Hernandez.

Durante toda a invasão do Dia D e os com bates na França, durante o tem po que passara no hospital e se recuperando, a m oça não lhe saíra da cabeça. No ano anterior, ela estava term inando os estudos na Universidade de Oxford e pretendia fazer doutorado em Berkeley, São Francisco. Devia estar m orando na casa dos pais em Pacific Heights, a m enos que tivesse o próprio apartam ento m ais perto do cam pus.

Infelizm ente, Woody não estava conseguindo falar com ela.

Suas cartas ficaram sem resposta. Quando ele ligou para o núm ero indicado na lista telefônica, um a m ulher de m eia-idade que desconfiou ser a m ãe de Bella disse, num tom educado porém frio:

– Ela não está no m om ento. Quer deixar recado?

Mas Bella não retornara a ligação.

Provavelm ente tinha um nam orado. Nesse caso, ele preferia que ela lhe contasse. Mas talvez a m ãe estivesse interceptando sua correspondência e deixando de transm itir seus recados.

Woody deveria desistir. Talvez estivesse fazendo papel de bobo. Mas ele não era assim . Lem brou-se de sua longa e obstinada corte a Joanne. Isso j á está virando um padrão, pensou. Será que o problem a sou eu?

Enquanto isso, todo dia de m anhã ele acom panhava o pai até a suíte no últim o andar do Hotel Fairm ont, onde o secretário de Estado, Edward Stettinius, estava reunido com a delegação am ericana à conferência. Stettinius substituíra Cordell Hull, que estava hospitalizado. Os Estados Unidos tinham tam bém um novo presidente, Harry Trum an, em possado após a m orte do grande Franklin D. Roosevelt. Era um a pena, observou Gus Dewar, que num m om ento tão im portante da história m undial seu país fosse liderado por dois novatos inexperientes.

As coisas haviam com eçado m al. Num a reunião anterior à conferência realizada na Casa Branca, o estouvado presidente Trum an ofendera Molotov, m inistro soviético das Relações Exteriores. Consequentem ente, Molotov j á chegara a São Francisco de m á vontade. Ele anunciou que voltaria para casa a m enos que a conferência concordasse im ediatam ente em adm itir a Bielorrússia, a Ucrânia e a Polônia com o m em bros.

Ninguém queria que a União Soviética se retirasse. Sem ela, as Nações Unidas não seriam as Nações Unidas. A m aior parte da delegação am ericana era a favor de um com prom isso com os com unistas, m as, com sua onipresente gravata-borboleta, o senador Vandenberg insistia obstinadam ente em que nada fosse feito sob pressão de Moscou.

Num a certa m anhã Woody tinha algum as horas vagas e então aproveitou-as para ir à casa dos pais de Bella.

O bairro elegante em que a fam ília m orava não ficava m uito longe do Hotel Fairm ont, situado em Nob Hill, m as Woody ainda estava usando um a bengala, por isso pegou um táxi. A casa era um a m ansão vitoriana pintada de am arelo na Gough Street. A m ulher que abriu a porta estava bem -vestida dem ais para ser um a criada. Recebeu-o com um sorriso de viés igualzinho ao de Bella: com certeza era sua m ãe.

– Bom dia, senhora – disse ele, educado. – Meu nom e é Woody Dewar. Conheci Bella Hernandez em Londres no ano passado e gostaria de revê-la, se for possível.

O sorriso dela desapareceu. A m ulher o exam inou dem oradam ente e disse:

– Então é o senhor.

Woody não tinha ideia do que ela estava falando.

– Meu nom e é Caroline Hernandez, sou a m ãe de Isabel – disse ela. – Entre.

– Obrigado.

Ela não lhe estendeu a m ão para um cum prim ento e se com portava de form a abertam ente hostil, em bora não desse nenhum a pista do m otivo. Mesm o assim , Woody conseguira entrar na casa.

A Sra. Henandez o conduziu até um a sala de estar espaçosa e agradável, com um a estonteante vista para o m ar. Apontou para um a cadeira, indicando-lhe que se sentasse; o gesto beirou a grosseria. Então acom odou-se diante dele e o encarou com o olhar duro.

– Quanto tem po o senhor passou com Bella na Inglaterra? – perguntou.

– Só algum as horas. Mas não parei de pensar nela desde então.

Houve outra pausa cheia de subentendidos e então ela prosseguiu:

– Quando foi para Oxford, Bella estava de casam ento m arcado com Victor Rolandson, um rapaz m aravilhoso que a conhece desde pequena. Os Rolandson são velhos am igos m eus e de m eu m arido... ou m elhor, eram , até Bella voltar para casa e rom per o noivado.

O coração de Woody se encheu de esperança.

– Ela disse apenas que tinha percebido que não era apaixonada por Victor. Im aginei que tivesse conhecido outra pessoa e agora sei quem foi.

– Eu não fazia ideia de que ela fosse noiva – disse Woody .

– Ela usava um anel de brilhante que dificilm ente passaria despercebido. Seu fraco poder de observação causou um a tragédia.

– Sinto m uito – desculpou-se Woody. Então disse a si m esm o que deixasse de ser um banana. – Ou m elhor, não sinto, não – em endou. – Estou m uito feliz por ela ter rom pido o noivado, porque eu a considero absolutam ente m aravilhosa e a quero para m im .

A Sra. Hernandez não gostou nada disso.

– O senhor é bem atrevido, m eu j ovem .

Woody ficou subitam ente ressentido com aquele tratam ento arrogante.

– Sra. Hernandez, foi a senhora que acabou de usar a palavra “tragédia”. Minha noiva Joanne m orreu nos m eus braços em Pearl Harbor. Meu irm ão Chuck m orreu m etralhado na praia de Bougainville. No Dia D, m andei cinco rapazes am ericanos para a m orte na tentativa de tom ar um a ponte num a cidadezinha m inúscula cham ada Église-des-Soeurs. Eu sei bem o que é tragédia. E um noivado rom pido está longe disso.

O desabafo a deixou espantada. Woody im aginou que ela raram ente enfrentasse a resistência dos m ais j ovens. Ela não respondeu nada, m as em palideceu de leve. Depois de alguns instantes, levantou-se e saiu da sala sem dar nenhum a explicação. Woody não soube m uito bem o que deveria fazer, m as ainda não tinha visto Bella, então ficou sentado e aguardou.

Cinco m inutos depois, Bella apareceu.

Woody se levantou, com o coração acelerado. A sim ples visão da m oça o fez sorrir. Ela usava um vestido sim ples am arelo-claro que realçava os cabelos escuros lustrosos e a pele m orena. Sem pre ficaria bonita usando roupas desprovidas de adereços, pensou ele, igualzinho a Joanne. Teve vontade de abraçá-la e apertar aquele corpo m acio de encontro ao seu, m as esperou que ela lhe desse algum sinal.

Bella parecia nervosa e pouco à vontade.

– O que está fazendo aqui? – perguntou.

– Vim procurar você.

– Por quê?

– Porque não consigo tirá-la da cabeça.

– Nós nem nos conhecem os.

– Podem os dar um j eito nisso a partir de hoj e m esm o. Quer j antar com igo?

– Não sei.

Ele atravessou a sala até onde ela estava.

Ela ficou surpresa ao vê-lo usando a bengala.

– O que houve com você?

– Levei um tiro no j oelho, na França. Está m elhorando aos poucos.

– Sinto m uito.

– Bella, acho você m aravilhosa. E acredito que tam bém goste de m im . Nenhum de nós dois está com prom etido. Qual é o problem a?

Ela deu aquele sorriso de viés do qual ele tanto gostava.

– Acho que estou com vergonha. Por causa do que fiz naquela noite em Londres.

– Só isso?

– Foi m uito para um prim eiro encontro.

– Aquele tipo de coisa acontecia o tem po todo. Não com igo necessariam ente, m as ouvi falar. Você pensou que eu fosse m orrer.

Ela assentiu.

– Nunca fiz nada daquele tipo, nem m esm o com Victor. Não sei o que m e deu. E no m eio de um parque público! Fiquei m e sentindo um a prostituta.

– Eu sei exatam ente o que você é – disse Woody. – Um a m oça inteligente, linda, com um coração de ouro. Então, por que não esquecem os aquela noite em Londres e com eçam os a nos conhecer, com o os dois j ovens respeitáveis e bem -criados que som os?

Ela com eçou a ceder.

– Podem os m esm o fazer isso?

– Claro.

– Então tudo bem .

– Posso buscá-la às sete?

– Tudo bem .

Aquilo era um a deixa para ele ir em bora, m as Woody hesitou.

– Você não sabe com o estou feliz por tê-la reencontrado – falou.

Ela o encarou pela prim eira vez.

– Ah, Woody , eu tam bém . Estou m uito feliz! – Então o abraçou pela cintura.

Era o que ele queria. Retribuindo o abraço, afundou o rosto naqueles cabelos volum osos. Passaram vários instantes assim .

Por fim , ela se afastou.

– Nos vem os às sete – falou.

– Sem falta.

Ele saiu da casa envolto num a aura de felicidade.

De lá, foi direto para um a reunião do com itê diretivo no Prédio dos Veteranos, ao lado da Ópera. Quarenta e seis representantes estavam sentados em volta da m esa com prida, com assessores com o Gus Dewar sentados m ais atrás. Woody, que era assessor de um assessor, sentou-se encostado na parede.

Molotov, m inistro soviético das Relações Exteriores, foi o prim eiro a discursar. Não era um hom em im pressionante, pensou Woody. Com os cabelos j á rareando na testa, um bigode bem -cortado e óculos, parecia um vendedor de loj a, profissão exercida por seu pai. Mas Molotov tinha resistido m uito tem po na vida política bolchevique. Am igo de Stalin desde antes da Revolução, era o arquiteto do pacto nazi-soviético de 1939. Trabalhador incansável, as longas horas que passava à m esa de trabalho havim lhe rendido o apelido de “Cu de Pedra”.

Ele propôs que a Bielorrússia e a Ucrânia fossem aceitas com o m em bros originais das Nações Unidas. Assinalou que essas duas repúblicas soviéticas eram as que m ais haviam sofrido com a invasão nazista e que cada um a delas contribuíra com m ais de um m ilhão de hom ens para o Exército Verm elho. O argum ento de que não eram totalm ente independentes de Moscou j á tinha sido usado, m as o m esm o se podia dizer do Canadá e da Austrália, territórios do Im pério Britânico que haviam sido aceitos com o m em bros independentes.

A votação foi unânim e. Woody sabia que tudo fora previam ente com binado. Os países latino-am ericanos tinham am eaçado se retirar a m enos que a Argentina, que apoiava Hitler, fosse aceita, e essa concessão havia sido feita para garantir seus votos.

Então veio a bom ba: o prim eiro-m inistro tcheco, Jan Masary k, levantou-se para falar. Ele era um célebre liberal e antinazista que saíra na capa da revista Time em 1944. Masary k propôs que a Polônia tam bém fosse aceita nas Nações Unidas.

Os am ericanos se opunham à inclusão da Polônia até que Stalin autorizasse a realização de eleições naquele país, e Masary k, com o dem ocrata, deveria ter apoiado essa posição, sobretudo porque ele m esm o tam bém estava tentando criar um a dem ocracia com Stalin olhando o tem po todo por cim a do seu om bro. Molotov devia ter pressionado Masary k sobrem aneira para levá-lo a trair seus ideais daquela form a. De fato, quando o tcheco se sentou, tinha a expressão de quem acabara de tom ar um rem édio am argo.

Gus Dewar tam bém tinha o sem blante sério. Os acordos feitos anteriorm ente – em relação à Bielorrússia, à Ucrânia e à Argentina – deveriam ter garantido o bom andam ento da sessão. Mas agora Molotov tinha usado um golpe inesperado.

Sentado com a delegação am ericana, o senador Vandenberg ficou indignado. Sacou um a caneta e um bloquinho e com eçou a escrever furiosam ente. Um m inuto depois, arrancou a folha do bloquinho, acenou para Woody , entregou-lhe o recado e disse:

– Leve isso ao secretário de Estado.

Woody foi até a m esa, curvou-se por cim a do om bro de Stettinius, pôs o papel na sua frente e disse:

– O senador Vandenberg m andou que eu lhe entregasse isto, secretário.

– Obrigado.

Woody voltou para sua cadeira j unto à parede. Essa foi m inha participação na história, pensou. Tinha dado um a olhada no recado antes de entregá-lo. Vandenberg escrevera rapidam ente um discurso curto e arrebatado de recusa à proposta tcheca. Será que Stettinius faria o que o senador estava pedindo?

Se Molotov conseguisse o que queria em relação à Polônia, Vandenberg poderia sabotar as Nações Unidas no Senado. No entanto, se Stettinius seguisse agora a estratégia de Vandenberg, Molotov poderia se levantar e ir em bora, o que tam bém aniquilaria as Nações Unidas.

Woody prendeu a respiração.

Stettinius se levantou, com o recado de Vandenberg na m ão.

– Acabam os de honrar nossos com prom issos assum idos com a Rússia em Yalta – inform ou. Ele estava se referindo ao acordo feito pelos Estados Unidos de apoiar as candidaturas de Bielorrúsia e Ucrânia. – Outras obrigações de Yalta tam bém exigem cum prim ento. – Ele estava usando as palavras escritas por Vandenberg. – É preciso instaurar um governo provisório novo e representativo na Polônia.

Um m urm úrio chocado percorreu o recinto. Stettinius estava desafiando Molotov. Woody olhou para Vandenberg. O senador não cabia em si de tanta satisfação.

– Antes que isso aconteça – prosseguiu Stettinius –, esta conferência não pode, em sã consciência, reconhecer o governo de Lublin. – Ele olhou diretam ente para Molotov e repetiu as palavras exatas de Vandenberg: – Isso seria um a sórdida dem onstração de m á-fé.

Molotov adotou um a expressão enfurecida.

O m inistro das Relações Exteriores britânico, Anthony Eden, em pertigou seu corpo longilíneo e levantou-se para apoiar Stettinius. Seu tom foi de um a cortesia im pecável, m as suas palavras foram duras:

– Meu governo não tem com o saber se o povo polonês apoia o governo provisório – afirm ou –, porque nossos aliados soviéticos não perm item a entrada de observadores britânicos na Polônia.