Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 23 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

À um a hora da tarde de sábado, a pequena casa da Wellington Row em Aberowen, Gales do Sul, estava lotada. Sentado à m esa da cozinha, o avô de Lloy d parecia orgulhoso. Tinha a um de seus lados o filho, Billy William s, um m ineiro que fora eleito deputado por Aberowen. Do outro lado estava o neto, Lloy d, aluno da Universidade de Cam bridge. A filha, tam bém deputada, estava ausente. Aquela era a dinastia William s. Ninguém ali j am ais diria isso – o conceito de dinastia era antidem ocrático, e aquelas pessoas acreditavam na dem ocracia da m esm a form a que o papa acreditava em Deus –, m as, ainda assim , Lloy d desconfiava que esse devia ser o pensam ento de Granda.

Tam bém estava à m esa o am igo de longa data e agente de seu tio Billy, Tom Griffiths. Lloy d estava honrado por se sentar ao lado desses hom ens. Granda era um veterano do sindicato dos m ineiros; seu tio Billy fora levado a corte m arcial em 1919 por ter revelado a guerra secreta da Grã-Bretanha contra os bolcheviques; Tom lutara com Billy na batalha do Som m e. Aquilo era m ais im pressionante do que j antar com m em bros da fam ília real.

A avó de Lloy d, Cara William s, tinha servido um ensopado de carne com pão caseiro, e agora estavam todos ao redor da m esa bebendo chá e fum ando. Am igos e vizinhos tinham aparecido, com o sem pre acontecia quando Billy ia à cidade, e m eia dúzia deles se apoiava nas paredes pitando cachim bos e cigarros enrolados à m ão, enchendo a cozinha com o cheiro de hom ens e tabaco.

Billy tinha a m esm a baixa estatura e os m esm os om bros largos de m uitos outros m ineiros, m as, ao contrário dos dem ais, estava bem -vestido, de terno azul-m arinho, cam isa branca lim pa e gravata verm elha. Lloy d reparou que todos ali o cham avam pelo prim eiro nom e, com o para ressaltar o fato de que Billy era um deles e que subira ao poder graças aos seus votos. E cham avam Lloy d de “garoto”, deixando claro que a sua condição de universitário não os im pressionava. Granda, porém , era tratado com o Sr. William s: era a ele que de fato respeitavam .

Pela porta do fundos, que estava aberta, Lloy d podia ver a pilha de resíduos de carvão da m ina, um a m ontanha que não parava de crescer e j á havia chegado à rua atrás da casa.

Lloy d estava trabalhando com o organizador num cam po de m ineiros desem pregados, durante as férias de verão, em troca de um salário m ódico. O proj eto consistia em reform ar a biblioteca do Instituto dos Mineiros. Para ele, o trabalho braçal de lixar, pintar e m ontar estantes era um a m udança bem -vinda em sua rotina de leitura de Schiller em alem ão e Molière em francês. Gostava daquele clim a descontraído entre os hom ens: tinha herdado da m ãe o apreço pelo senso de hum or dos galeses.

Aquilo era ótim o, m as não estava lutando contra o fascism o. Seu rosto se contraía num a careta sem pre que ele se lem brava de com o ficara encolhido dentro da capela batista enquanto Boy Fitzherbert e os outros arruaceiros entoavam cantos na rua e atiravam pedras pela j anela. Desej ava ter ido até lá fora e dado um soco em alguém . Poderia até ter sido burrice, m as ele teria se sentido m elhor. Pensava nisso todas as noites antes de pegar no sono.

Pensava tam bém em Daisy Peshkov, com seu bolerinho de seda cor-de-rosa e m angas bufantes.

Tinha visto Daisy um a segunda vez durante a Sem ana de Maio. Fora assistir a um recital na capela do King’s College, porque o aluno do quarto vizinho ao seu no Em m anuel era um dos violoncelistas, e Daisy estava na plateia com a fam ília Westham pton. Usava um chapéu de palha com a aba virada para cim a que lhe dava o aspecto de um a colegial travessa. Ele fora procurá-la depois do espetáculo e fizera perguntas sobre os Estados Unidos, onde nunca estivera. Queria inform ações a respeito do governo do presidente Roosevelt, descobrir se ele tinha algum a lição para ensinar à Inglaterra, m as Daisy só conseguiu falar de festas no Clube de Tênis, partidas de polo e o Iate Clube. Apesar disso, ele se sentira novam ente cativado por ela. Sua conversa alegre o agradava ainda m ais por ser pontuada por tiradas inesperadas de inteligência sarcástica.

– Não quero afastá-la dos seus am igos – dissera ele. – Só queria perguntar sobre o New Deal.

– Puxa, você sabe m esm o deixar um a garota lisonj eada – respondera ela. No entanto, ao se despedirem , falara: – Ligue para m im quando for a Londres: May fair 2434.

Nesse dia, ele estava a cam inho da estação de trem e foi alm oçar na casa dos avós. Tinha alguns dias de folga do trabalho, então pegaria o trem para Londres e passaria alguns dias lá. Tinha a vaga esperança de esbarrar com Daisy, com o se Londres fosse um a cidadezinha igual a Aberowen.

No cam po de m ineiros, ele era responsável pelas aulas de educação política, e contou ao avô que havia organizado um a série de palestras com professores esquerdistas de Cam bridge.

– Digo a eles que essa é sua chance de descer da torre de m arfim e conhecer a classe trabalhadora, e eles acham difícil recusar.

Os olhos azul-claros de Granda espiaram por cim a de seu nariz com prido e afilado.

– Espero que nossos rapazes lhes ensinem algum as coisinhas sobre o m undo real.

Lloy d apontou para o filho de Tom Griffiths, que ouvia a conversa de pé j unto à porta dos fundos. Aos 16 anos, Lenny j á exibia a som bra de um a barba preta típica dos Griffiths, que não desaparecia nem m esm o quando suas faces estavam recém -barbeadas.

– Lenny teve um a discussão com um palestrante m arxista.

– Muito bem , Len – disse Granda. O m arxism o era popular em Gales do Sul, região às vezes cham ada, de brincadeira, de Pequena Moscou, m as Granda sem pre fora um anticom unista feroz.

– Conte para Granda o que você falou, Lenny .

O rapaz abriu um sorriso e disse:

– Em 1872, o líder anarquista Mikhail Bakunin alertou Karl Marx para o fato de que os com unistas, no poder, seriam tão opressores quanto a aristocracia que iriam substituir. Depois do que aconteceu na Rússia, alguém pode dizer que Bakunin estava errado?

Granda bateu palm as. Um bom argum ento era sem pre m uito valorizado à m esa da sua cozinha.

A avó de Lloy d lhe serviu m ais um a xícara de chá. Com o todas as m ulheres de Aberowen que tinham a sua idade, Cara William s estava grisalha, enrugada e corcunda.

– Já está cortej ando algum a m oça, m eu anj o? – perguntou ela a Lloy d.

Os hom ens sorriram e piscaram .

Lloy d corou.

– Estou m uito ocupado estudando, Grandm am . – No entanto, a im agem de Daisy Peshkov surgiu em sua m ente acom panhada pelo núm ero de telefone: May fair 2434.

– Então quem é essa tal de Ruby Carter? – quis saber a avó.

Os hom ens riram e seu tio Billy falou:

– Pegaram você, garoto!

Estava claro que a m ãe de Lloy d havia contado algum a coisa.

– Ruby é a responsável pelas novas associações no escritório do Partido Trabalhista em Cam bridge, só isso – protestou Lloy d.

– Ah, sim , m uito convincente – com entou Billy com sarcasm o, e os hom ens tornaram a rir.

– Você não iria querer que eu saísse com Ruby, Grandm am – disse Lloy d. – Acharia as roupas dela j ustas dem ais.

– É, ela não parece m uito adequada – com entou Cara. – Você agora é um universitário. Precisa elevar seus padrões.

Lloy d percebeu que a avó era tão esnobe quanto Daisy .

– Não há nada de errado com Ruby Carter – defendeu ele. – Só que eu não estou apaixonado por ela.

– Você deve se casar com um a m ulher instruída, um a professora ou enferm eira.

O problem a era que sua avó tinha razão. Lloy d gostava de Ruby, m as j am ais se apaixonaria por ela. Ela até que era bonita, além de inteligente, e Lloy d se deixava seduzir por um belo corpo tanto quanto qualquer um . Mas, ainda assim , sabia que ela não era a m oça certa para ele. O pior de tudo era que Grandm am havia apontado com precisão o m otivo disso: o futuro de Ruby era lim itado e seus horizontes, estreitos. Ela não era instigante. Ao contrário de Daisy .

– Chega dessa conversa sobre m ulheres – disse Granda. – Billy, conte-nos as notícias da Espanha.

– São ruins – falou Billy .

A Europa inteira estava prestando atenção na Espanha. O governo de esquerda eleito em fevereiro desse m esm o ano sofrera um a tentativa de golpe m ilitar apoiada por fascistas e conservadores. Franco, o general dos rebeldes, conseguira o apoio da Igrej a Católica. A notícia havia atingido o resto do continente com o um terrem oto. Depois da Alem anha e da Itália, será que a Espanha tam bém sucum biria à m aldição do fascism o?

– Com o vocês devem saber, a rebelião foi m al conduzida e quase fracassou – prosseguiu Billy. – Mas Hitler e Mussolini saíram em aj uda e salvaram a insurreição enviando de avião m ilhares de soldados rebeldes do norte da África com o reforços.

– E os sindicatos salvaram o governo! – interveio Lenny .

– É verdade – concordou Billy. – O governo dem orou a reagir, m as os sindicatos lideraram a organização dos trabalhadores e lhes deram arm as confiscadas de arsenais m ilitares, navios, loj as e qualquer outro lugar onde se pudesse encontrar arm am ento.

– Pelo m enos alguém está resistindo – com entou Granda. – Até agora, os fascistas conseguiram tudo o que queriam . Sim plesm ente entraram na Renânia e na Abissínia e pegaram o que desej avam . Graças a Deus os espanhóis existem , é isso que eu acho. Eles têm coragem de dizer não.

Os hom ens reunidos j unto às paredes m urm uraram sua aprovação.

Lloy d se lem brou novam ente daquela tarde de sábado em Cam bridge. Ele tam bém tinha deixado os fascistas fazerem o que queriam . E fervilhava de frustração por causa disso.

– Mas será que eles conseguem ganhar? – continuou Granda. – Parece que a questão agora são as arm as, não é?

– Sim – concordou Billy. – Os alem ães e os italianos estão abastecendo os rebeldes com arm as e m unição, e tam bém com caças e pilotos. Mas ninguém está aj udando o governo eleito da Espanha.

– Droga! E por que não? – questionou Lenny , zangado.

Cara ergueu do fogão seus olhos escuros de m ulher m editerrânea, que chispavam de reprovação. Por um instante, Lloy d teve a im pressão de estar vendo a linda m oça que sua avó fora um dia.

– Não quero saber desse palavreado na m inha cozinha! – ralhou ela.

– Desculpe, Sra. William s.

– Eu posso contar a vocês o que realm ente aconteceu – disse Billy, e os hom ens se calaram para escutar. – O prim eiro-m inistro francês, Léon Blum , que, com o todos sabem , é socialista, estava preparado para aj udar. Ele j á tem um vizinho fascista, a Alem anha, e a últim a coisa que desej a é outro regim e fascista em sua fronteira sul. Enviar arm as para o governo espanhol enfureceria a direita francesa, assim com o os socialistas católicos do país, m as Blum seria capaz de suportar isso, principalm ente se tivesse o apoio dos britânicos e pudesse dizer que arm ar o governo espanhol era um a iniciativa internacional.

– O que deu errado, então? – perguntou Granda.

– Nosso governo convenceu Blum a não agir. Ele foi a Londres, e Anthony Eden, nosso m inistro das Relações Exteriores, disse que não iríam os apoiá-lo.

Granda ficou com raiva.

– E por que ele precisa de apoio? Com o um prim eiro-m inistro socialista se deixa intim idar pelo governo conservador de outro país?

– Porque na França tam bém existe o perigo de um golpe m ilitar – respondeu Billy. – A im prensa de lá é direitista convicta, e está incitando os fascistas franceses ao frenesi. Com o apoio britânico, Blum pode com batê-la... m as, sem isso, talvez não.

– Então é o nosso governo que está sendo m ole com o fascism o de novo!

– Todos os conservadores do Reino Unido têm investim entos na Espanha: vinho, têxteis, carvão, aço... eles têm m edo de que o governo de esquerda os desaproprie.

– E os Estados Unidos? Eles acreditam na dem ocracia. Com certeza vão m andar arm as para a Espanha, não?

– Seria lógico, não é? Mas existe um lobby católico m uito bem financiado, com andado por um m ilionário cham ado Joseph Kennedy, que é contra qualquer aj uda ao governo espanhol. E um presidente dem ocrata precisa do apoio dos católicos. Roosevelt não vai fazer nada que possa am eaçar o New Deal.

– Bem , um a coisa nós podem os fazer – disse Lenny Griffiths, com um a expressão de ousadia adolescente no rosto.

– O quê, Len? – indagou Billy .

– Podem os ir para a Espanha lutar.

– Pare de falar bobagem , Lenny – repreendeu seu pai.

– Pessoas do m undo inteiro estão pensando em ir, até dos Estados Unidos. Elas querem form ar unidades de voluntários para com bater ao lado do Exército regular.

Lloy d se em pertigou na cadeira.

– É m esm o? – Era a prim eira vez que ouvia falar naquilo. – Com o você sabe disso?

– Li algum a coisa no Daily Herald.

Lloy d ficou subitam ente anim ado. Voluntários indo à Espanha com bater os fascistas!

– Bem , m as você não vai e pronto – disse Tom Griffiths a Lenny .

– Lem bram -se daqueles garotos que m entiram a própria idade para lutar na Grande Guerra? – perguntou Billy . – Milhares deles.

– A m aioria totalm ente inútil – rebateu Tom . – Eu m e lem bro daquele m enino que chorou antes da batalha do Som m e. Qual era m esm o o nom e dele, Billy ?

– Owen Bevin. Ele fugiu, não foi?

– Foi... e deu de cara com um pelotão. Foi fuzilado com o desertor. Ele tinha 15 anos, coitadinho.

– Eu tenho 16 – disse Lenny .

– Ah, sim – zom bou seu pai. – Grande diferença.

– Lloy d, vai acabar perdendo o trem que sai para Londres daqui a dez m inutos – disse Granda.

Ele ficara tão im pressionado com a revelação de Lenny que perdera a noção do tem po. Pulou da cadeira, deu um beij o na avó e pegou sua pequena m ala.

– Vou com você até a estação – disse Lenny .

Lloy d se despediu de todos e desceu a colina apressado. Lenny não disse nada durante o traj eto; parecia preocupado. Lloy d ficou feliz por não ter que conversar: sua m ente era um verdadeiro turbilhão.

O trem j á estava na plataform a. Lloy d com prou um a passagem de terceira classe para Londres. Quando estava prestes a em barcar, Lenny disse:

– Diga-m e um a coisa, Lloy d: com o se faz para tirar passaporte?

– Você está falando sério sobre ir para a Espanha, não está?

– Vam os lá, cara, não m e enrole.

O apito do trem soou. Lloy d subiu a bordo, fechou a porta e abaixou a j anela.

– Você tem que ir à agência dos correios e pedir um form ulário – falou.

– Se eu pedir um form ulário de passaporte na agência dos correios de Aberowen, m inha m ãe vai ficar sabendo em trinta segundos – disse Lenny , desanim ado.

– Então vá à agência de Cardiff – retrucou Lloy d.

Em seguida, o trem com eçou a andar.

Ele se acom odou na cadeira e tirou do bolso um exem plar em francês de O vermelho e o negro, de Stendhal. Ficou olhando a página sem assim ilar nada do texto. Só conseguia pensar em um a coisa: ir para a Espanha.

Sabia que ficaria com m edo, m as tudo o que sentia era excitação diante da possibilidade de lutar – lutar de verdade, e não apenas organizar reuniões – contra o tipo de gente que soltara cães fam intos em cim a de Jörg. O m edo viria depois, sem dúvida. Antes de um a luta de boxe, no vestiário, ele não sentia m edo. No entanto, quando pisava no ringue e via o hom em que queria bater nele até fazê-lo perder os sentidos, olhava para os om bros m usculosos, para os punhos firm es e para o rosto m al-encarado, sua boca ficava seca e seu coração disparava, e ele precisava resistir ao im pulso de virar as costas e sair correndo.

No m om ento, o que m ais o preocupava eram seus pais. Bernie sentia m uito orgulho de ter um enteado estudando em Cam bridge – j á tinha dito isso para m etade do East End –, e ficaria arrasado se Lloy d abandonasse a universidade antes de se form ar. Ethel ficaria apavorada com a possibilidade de o filho se ferir ou ser m orto. Am bos ficariam m uito preocupados.

Havia tam bém outras questões. Com o ele conseguiria chegar à Espanha? Para que cidade iria? Com o pagaria a passagem ? Mas apenas um em pecilho realm ente o detinha.

Daisy Peshkov.

Disse a si m esm o que deixasse de ser ridículo. Tinha visto a m oça duas vezes. Ela nem sequer estava interessada nele, o que m ostrava que era inteligente, pois os dois nada tinham em com um . Ela era filha de um m ilionário, um a socialite fútil que achava m açante falar sobre política. Gostava de hom ens com o Boy Fitzherbert: só isso j á provava que era a m ulher errada para Lloy d. Mesm o assim , ele não conseguia tirá-la da cabeça e a ideia de ir para a Espanha e perder qualquer chance de tornar a vê-la o deixava triste.

May fair 2434.

Sentiu vergonha da própria hesitação, sobretudo ao se lem brar da determ inação de Lenny. Havia m uitos anos que Lloy d falava em com bater o fascism o. Agora tinha um a chance de fazer isso. Com o poderia não ir?

Chegou à estação londrina de Paddington, pegou o m etrô até Aldgate e foi a pé até a casa gem inada da Nutley Street na qual havia nascido. Entrou com a própria chave. O lugar não m udara m uito desde que ele era criança, m as um a das inovações era o telefone sobre a m esinha ao lado do cabide para chapéus. Era o único telefone da rua e os vizinhos o tratavam com o se fosse um bem público. Junto ao aparelho havia um a caixa onde depositavam o dinheiro para pagar as ligações.

Sua m ãe se encontrava na cozinha. Já estava de chapéu, pronta para discursar num a reunião do Partido Trabalhista – o que m ais poderia ser? –, m as m esm o assim pôs a chaleira no fogo e preparou um chá para o filho.

– Com o vai todo m undo em Aberowen? – perguntou ela.

– Tio Billy está passando o fim de sem ana lá – respondeu Lloy d. – Todos os vizinhos se reuniram na cozinha de Granda. Parece um a corte m edieval.

– Seus avós estão bem ?

– Granda está o m esm o de sem pre. Grandm am parece envelhecida. – Ele fez um a pausa. – Lenny Griffiths quer ir para a Espanha lutar contra os fascistas.

Sua m ãe franziu os lábios em reprovação.

– Ah, é?

– Estou pensando em ir com ele. O que você acha?

Ele j á previa que ela fosse se opôr, m as m esm o assim sua reação o surpreendeu.

– Não se atreva a fazer um a m erda dessas! – disse ela, descontrolada. Ethel não com partilhava a aversão da m ãe a xingam entos. – Nem fale disso! – Ela bateu com o bule de chá sobre a m esa da cozinha. – Eu pari você com dor e sofrim ento, criei você, calcei sapatos nos seus pés e o m andei para a escola, e não passei por tudo isso para você j ogar sua vida fora num a porcaria de um a guerra!

Ele ficou espantado.

– Eu não estava pensando em j ogar m inha vida fora – falou. – Mas talvez em arriscá-la em nom e de um a causa na qual você m e criou para acreditar.

Para sua surpresa, ela com eçou a soluçar. Ethel raram ente chorava – na verdade, Lloy d não conseguia nem se lem brar da últim a vez que isso havia acontecido.

– Mãe, pare. – Ele passou o braço em volta de seus om bros trêm ulos. – Não aconteceu nada ainda.

Bernie, um hom em de m eia-idade, atarracado e careca, entrou na cozinha.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou. Parecia um pouco assustado.

– Desculpe, pai. Eu a aborreci – disse Lloy d, recuando um passo para deixar Bernie abraçar Ethel.

– Ele vai para a Espanha! – lam entava-se ela bem alto. – Vai ser m orto!

– Vam os todos m anter o controle e conversar com calm a – disse Bernie.

Era um hom em ponderado. Estava vestido com um terno escuro sim ples e calçava sapatos de solas grossas, consertados inúm eras vezes. Sem dúvida era por isso que as pessoas votavam nele: Bernie era o representante de Aldgate no Conselho do Condado de Londres. Lloy d não conhecia o pai biológico, m as não se im aginava am ando um pai de verdade m ais do que am ava Bernie, que sem pre tinha sido um padrasto am oroso, disposto a reconfortar e dar conselhos, e pouco inclinado a m andar ou punir. Tratava Lloy d exatam ente do m esm o m odo com o tratava Millie, sua filha legítim a.

Bernie convenceu Ethel a se sentar à m esa da cozinha e Lloy d lhe serviu um a xícara de chá.

– Certa vez achei que m eu irm ão tivesse m orrido – disse Ethel, ainda com lágrim as escorrendo pelo rosto. – Era dia de telegram as na Wellington Row, e o pobre rapaz dos correios tinha que ir de casa em casa entregando a hom ens e m ulheres pedacinhos de papel que diziam que seus filhos e m aridos estavam m ortos. Coitado, qual era m esm o o nom e dele? Geraint, acho. Mas ele não tinha um telegram a para a nossa casa, e eu, m á que sou, agradeci a Deus por outros terem m orrido, m as não o nosso Billy !

– Você não é m á – disse Bernie, fazendo-lhe um carinho.

A m eia-irm ã de Lloy d, Millie, veio do andar de cim a. Tinha 16 anos, porém parecia m ais velha, sobretudo vestida daquele j eito: com um a roupa preta bastante elegante e pequenos brincos de ouro. Ela passara dois anos trabalhando num a loj a de roupas fem ininas de Aldgate, m as era inteligente e am biciosa, e fazia poucos dias conseguira um em prego num a sofisticada loj a de departam entos do West End. Olhou para Ethel e perguntou:

– O que houve, Mam ? – Millie falava com um sotaque tipicam ente londrino.

– Seu irm ão quer ir para a Espanha m orrer! – exclam ou Ethel.

Millie olhou para Lloy d com ar acusador.

– O que você andou dizendo a ela? – Millie era sem pre rápida para encontrar defeitos no irm ão m ais velho, que ela acreditava ser alvo de um a adoração im erecida.

Lloy d respondeu com um a tolerância afetuosa:

– Lenny Griffiths, de Aberowen, vai lutar contra os fascistas e falei para Mam que estava pensando em ir com ele.

– É a sua cara – disse Millie com desdém .

– Duvido que você consiga chegar lá – ponderou Bernie, sem pre prático. – Afinal de contas, o país está no m eio de um a guerra civil.

– Posso pegar um trem até Marselha. Barcelona não fica m uito longe da fronteira com a França.

– São quase 150 quilôm etros. E a travessia dos Pireneus é m uito fria.

– Deve haver navios que vão de Marselha a Barcelona. Por m ar não é tão longe.

– É verdade.

– Pare com isso, Bernie! – gritou Ethel. – Parece até que vocês estão conversando sobre o cam inho m ais rápido para chegar a Piccadilly Circus. Ele está falando em ir para a guerra! Não vou perm itir isso.

– Ele tem 21 anos, você sabe – respondeu Bernie. – Não podem os im pedi-lo.

– Eu sei quantos anos ele tem , m erda!

Bernie olhou para o relógio.

– Tem os que ir para a reunião. Você é a oradora principal. E Lloy d não vai para a Espanha hoj e.

– Com o é que você sabe? – rebateu ela. – Nós podem os m uito bem chegar em casa e encontrar um bilhete dizendo que ele pegou o trem para Paris!

– Vam os fazer o seguinte: Lloy d, prom eta à sua m ãe que não irá dentro de, pelo m enos, um m ês – pediu Bernie. – De toda form a, não é m á ideia: antes de sair correndo, você precisa se inform ar sobre com o estão as coisas por lá. Deixe sua m ãe tranquila por enquanto. Depois podem os voltar a conversar sobre esse assunto.

Era um a proposta típica de Bernie, pensada para fazer todo m undo recuar sem se sentir hum ilhado. Mas Lloy d relutava em assum ir qualquer com prom isso. Por outro lado, não poderia sim plesm ente pular dentro de um trem . Precisava descobrir que acordos o governo espanhol estava fazendo para receber voluntários. O ideal seria que ele fosse com Lenny e outros rapazes. Precisaria de vistos, m oeda estrangeira, um par de botas...

– Está bem – concordou. – Eu espero um m ês.

– Prom eta – pediu sua m ãe.

– Eu prom eto.

Ethel se acalm ou. Pouco depois, passou pó de arroz no rosto e recuperou um aspecto m ais norm al. Tom ou um gole de chá.

Então vestiu o casaco e saiu com Bernie.

– Certo, tam bém j á vou – disse Millie.

– Aonde você vai? – perguntou-lhe Lloy d.

– Ao Gaiety .

O Gaiety era um a casa de espetáculos no East End.

– E eles deixam m eninas de 16 anos entrar?

Ela lhe lançou um olhar m alicioso.

– Quem tem 16 anos aqui? Eu não. De todo m odo, Dave tam bém vai, e ele só tem 15. – Millie estava se referindo ao prim o David William s, filho de tio Billy e tia Mildred.

– Bom , divirtam -se.

Ela foi até a porta, m as depois voltou.

– Só não vá m orrer na Espanha, seu idiota. – Envolveu o irm ão com os braços e o apertou bem forte, depois saiu sem dizer m ais nada.

Assim que ouviu a porta da frente bater, Lloy d foi até o telefone.

Não precisou nem pensar para se lem brar do núm ero. Um a im agem de Daisy surgiu em sua m ente, virando-se para se despedir com um sorriso arrebatador sob o chapéu de palha e dizendo:

– May fair 2434.

Ele pegou o telefone e discou.

O que iria dizer? “Você m e disse para ligar, então estou ligando”? Fraco. A verdade? “Não a adm iro nem um pouco, m as não consigo tirá-la da cabeça.” O m elhor seria convidá-la para fazer algum a coisa, m as o quê? Assistir a um a reunião do Partido Trabalhista?

Um hom em atendeu.

– Residência da Sra. Peshkov, boa noite. – Pelo tom deferente, Lloy d achou que fosse um m ordom o. A m ãe de Daisy decerto alugara um a casa em Londres com em pregados e tudo.

– Aqui é Lloy d William s... – Ele quis dizer algum a coisa que explicasse ou j ustificasse a ligação, por isso falou a prim eira coisa que lhe veio à m ente: – ...do Em m anuel College. – Não significava nada, m as ele torceu para que causasse um a boa im pressão. – Posso falar com a Srta. Daisy Peshkov?

– Lam ento, professor William s – respondeu o m ordom o, supondo que Lloy d fosse do corpo docente. – Todos foram à ópera.

É claro, pensou Lloy d, decepcionado. Nenhum a socialite ficava em casa àquela hora da noite, principalm ente no sábado.

– Ah, sim , agora m e lem bro – m entiu. – Ela m e disse que iria e eu m e esqueci. Covent Garden, não é? – Prendeu a respiração.

O m ordom o, porém , não desconfiou de nada.

– Isso m esm o, senhor. A flauta mágica, se não m e engano.

– Muito obrigado – disse Lloy d e em seguida desligou.

Foi até o quarto e trocou de roupa. No West End, a m aioria das pessoas usava traj es form ais, m esm o para ir ao cinem a. Mas o que ele faria quando chegasse lá? Não tinha dinheiro para com prar um ingresso para a ópera e, de toda form a, o espetáculo iria term inar dali a pouco.

Pegou o m etrô. A Roy al Opera House ficava ao lado do Covent Garden, o m ercado de frutas e legum es de Londres – um a localização um tanto incongruente. Por terem horários distintos, os dois estabelecim entos conviviam bem : o m ercado abria às três ou quatro da m anhã, quando m esm o os festeiros m ais resistentes de Londres j á estavam com eçando a ir para casa, e fechava antes da m atinê.

Lloy d passou pelas barracas fechadas do m ercado e espiou através de portas de vidro para dentro da ópera. O lobby m uito ilum inado estava deserto e ele pôde ouvir ao longe a m úsica de Mozart. Entrou. Adotando a atitude casual da classe alta, perguntou ao funcionário:

– A que horas term ina o espetáculo?

Se estivesse usando seu terno de tweed, provavelm ente teria escutado que não era da sua conta, m as o sm oking era o uniform e da autoridade e o funcionário respondeu:

– Daqui a uns cinco m inutos, senhor.

Lloy d agradeceu com um m eneio seco de cabeça. Dizer “obrigado” o teria denunciado.

Saiu do prédio e deu a volta no quarteirão. Era um a hora tranquila. Nos restaurantes, as pessoas pediam o café; nos cinem as, o film e se encam inhava para o clím ax m elodram ático. Em pouco tem po, tudo iria m udar e as ruas se encheriam de gente gritando por táxis, encam inhando-se para boates, despedindo-se com beij os nos pontos de ônibus e correndo para pegar os últim os trens de volta aos subúrbios.

Ele voltou para a ópera e entrou. A orquestra havia parado de tocar e a plateia com eçava a se agitar. Libertos da longa prisão de seus assentos, todos conversavam anim adam ente, elogiando os cantores, criticando os figurinos e fazendo planos para j antares tardios.

Ele viu Daisy quase na m esm a hora.

Ela estava deslum brante, com um vestido lilás e um a pequena estola de vison cor de cham panhe sobre os om bros nus. Saiu da sala na frente de um pequeno grupo de j ovens da sua idade. Lloy d ficou chateado ao avistar Boy Fitzherbert ao lado dela e ao ver que ela ria alegrem ente de algo que ele havia m urm urado em seu ouvido enquanto desciam a escada coberta por um tapete verm elho. Atrás dela vinha Eva Rothm ann, a interessante m oça alem ã, acom panhada por um rapaz alto traj ando um a farda m ilitar de gala para ocasiões especiais.

Eva reconheceu Lloy d e sorriu. Ele falou com ela em alem ão:

– Boa noite, Fräulein Rothm ann. Espero que tenha gostado da ópera.

– Gostei m uito, obrigada – respondeu ela na m esm a língua. – Não reparei que o senhor estava na plateia.

– Falem inglês, vocês dois – disse Boy , em tom am igável.

Sua voz soava ligeiram ente em briagada. Ele era bonito de um j eito paradoxal, com o um adolescente belo e em burrado, ou um cão de raça que revirasse latas de lixo. Tinha m odos agradáveis e provavelm ente devia ser capaz de dem onstrar um charm e estonteante quando queria.

– Visconde de Aberowen, este é o Sr. William s – apresentou Eva, em inglês.

– Nós j á nos conhecem os – falou Boy . – Ele estuda no Em m a.

– Oi, Lloy d – disse Daisy . – Estam os indo aos barracos.

Lloy d j á tinha ouvido aquela expressão antes. Significava ir ao East End visitar pubs de baixa reputação e assistir a espetáculos de entretenim ento da classe trabalhadora, com o rinhas de cães.

– Aposto que William s conhece alguns lugares – disse Boy .

Lloy d hesitou apenas por um a fração de segundo. Estaria disposto a aguentar Boy para ficar perto de Daisy ? É claro que sim .

– Na verdade, conheço m esm o – respondeu ele. – Querem que eu os leve?

– Sensacional!

Um a m ulher m ais velha apareceu e sacudiu o dedo para Boy .

– Você tem que levar essas m oças para casa antes da m eia-noite – disse ela, com sotaque am ericano. – Nenhum segundo de atraso, ouviu? – Lloy d supôs que aquela fosse a m ãe de Daisy .

O rapaz alto de farda disse:

– O Exército vai cuidar disso, Sra. Peshkov. Serem os pontuais.

Atrás da Sra. Peshkov vinha o conde Fitzherbert com um a m ulher gorda que devia ser sua esposa. Lloy d gostaria de poder questionar o conde sobre a política do governo britânico na Espanha.

Dois carros os aguardavam do lado de fora. O conde, a esposa e a m ãe de Daisy entraram em um Rolls-Roy ce Phantom III preto e crem e. Boy e seu grupo se apinharam dentro do outro carro, um a lim usine Daim ler E20 azul-escura, o veículo favorito da fam ília real. Eram sete j ovens ao todo, contando com Lloy d. Eva parecia estar com o soldado, que se apresentou a Lloy d com o tenente Jim m y Murray. A terceira m oça era May, irm ã de Jim m y, e o outro rapaz – um a versão m ais m agra e m ais calada de Boy – era Andy Fitzherbert.

Lloy d deu ao m otorista intruções para chegar ao Gaiety .

Viu Jim m y Murray passar discretam ente o braço em volta da cintura de Eva. A reação dela foi chegar um pouquinho m ais perto dele: ficou claro que os dois estavam flertando. Lloy d ficou feliz por Eva. Não era um a m oça bonita, m as era inteligente e encantadora. Gostava dela e ficou satisfeito ao ver que ela havia se arranj ado com um soldado alto. Perguntou-se, porém , com o os outros m em bros daquele grupo de grã-finos reagiriam se Jim m y anunciasse que iria se casar com um a alem ã filha de um j udeu.

Ocorreu-lhe que os outros j ovens form avam m ais dois casais: Andy e May, e – para sua irritação – Boy e Daisy. Lloy d estava sobrando. Sem querer encará-los dem ais, ficou exam inando a m oldura de m ogno encerado da j anela do carro.

A lim usine subiu Ludgate Hill até a Catedral de São Paulo.

– Pegue o Cheapside – disse Lloy d ao m otorista.

Boy sorveu um grande gole de um a garrafinha de bolso feita de prata. Lim pando a boca, falou:

– Você sabe m esm o andar por aqui, William s.

– Eu m oro aqui – respondeu Lloy d. – Nasci no East End.

– Que m aravilha – com entou Boy , e Lloy d não soube dizer se ele estava sendo distraidam ente educado ou desagradavelm ente sarcástico.

No Gaiety, todos os assentos estavam ocupados, m as havia m uitos lugares em pé, e os espectadores não paravam quietos, cum prim entando am igos e indo até o bar. Estavam todos bem -arrum ados, as m ulheres com vestidos de cores vivas e os hom ens com seus m elhores ternos. O ar dentro da casa de espetáculos estava quente e enfum açado, e um cheiro forte de cervej a derram ada im pregnava o am biente. Lloy d encontrou um espaço para seu grupo perto dos fundos da sala. As roupas os identificavam com o visitantes do West End, m as eles não eram os únicos: as casas de espetáculos faziam sucesso entre todas as classes.

No palco, um ator de m eia-idade usando um vestido verm elho e um a peruca loura apresentava um esquete de duplo sentido.

– Eu disse para ele: “Não vou deixar você entrar na m inha garagem .” – A plateia gargalhou. – E ele m e respondeu: “Estou vendo sua garagem daqui, m eu bem .” E eu falei: “Pode ir tirando o nariz daí!” E ele disse: “Parece que ela precisa de um a boa faxina.” Ora! Vej am só – term inou ele, fingindo indignação.

Lloy d viu que Daisy ostentava um largo sorriso. Inclinando-se para j unto dela, m urm urou em seu ouvido:

– Você reparou que é um hom em , não reparou?

– Não pode ser! – exclam ou ela.

– Preste atenção nas m ãos.

– Ai, m eu Deus! Ela é hom em !

David, prim o de Lloy d, passou pelo grupo, viu Lloy d e voltou para falar com ele.

– Por que você está assim todo elegante? – perguntou ele, com um forte sotaque londrino. Estava usando um cachecol de tricô e um a boina de tecido.

– Oi, Dave, com o vão as coisas?

– Vou para a Espanha com você e Lenny Griffiths – respondeu Dave.

– Não vai nada – disse Lloy d. – Você tem 15 anos.

– Meninos da m inha idade lutaram na Grande Guerra.

– E não aj udaram em nada... pergunte ao seu pai. Além do m ais, quem disse que eu vou?

– Sua irm ã – respondeu Dave, e então se afastou.

– William s, o que as pessoas costum am beber neste lugar? – perguntou Boy .

Lloy d achava que Boy não precisava de m ais nenhum a gota de álcool, m esm o assim respondeu:

– Cervej a para os hom ens, e Porto com lim ão para as m oças.

– Porto com lim ão?

– É, vinho do Porto m isturado com lim onada.

– Que coisa m ais intragável. – Boy sum iu na direção do bar.

O com ediante chegou ao ponto alto do esquete.

– Então eu disse a ele: “Seu idiota, essa é a porta errada!” – E então ela, ou ele, saiu do palco sob um a enxurrada de aplausos.

Millie apareceu diante de Lloy d.

– Oi – disse ela. – Quem é a sua am iga? – perguntou, olhando para Daisy .

Lloy d ficou feliz por Millie estar tão bonita, com seu vestido preto sofisticado, um colar de pérolas falsas e m aquiagem discreta.

– Srta. Peshkov, perm ita-m e apresentar m inha irm ã, a Srta. Leckwith. Millie, esta é Daisy .

As duas se cum prim entaram com um aperto de m ãos.

– É um prazer conhecer a irm ã de Lloy d – disse Daisy .

– Meia-irm ã, para ser m ais exata – retrucou Millie.

– Meu pai m orreu na Grande Guerra – explicou Lloy d. – Não cheguei a conhecê-lo. Minha m ãe se casou de novo quando eu ainda era bebê.

– Aproveitem o espetáculo – disse Millie, dando-lhes as costas. No entanto, antes de se afastar, dirigiu-se a Lloy d com um sussurro: – Agora estou vendo por que Ruby Carter não tem a m enor chance.

Lloy d grunhiu por dentro. Sua m ãe obviam ente tinha contado à fam ília inteira que ele estava envolvido com Ruby .

– Quem é Ruby Carter? – indagou Daisy .

– A criada de Chim bleigh a quem você deu o dinheiro para a consulta com o dentista.

– Ah, sim , m e lem bro. Quer dizer então que o nom e dela está sendo rom anticam ente associado ao seu?

– Na im aginação da m inha m ãe, está.

Daisy riu do ar sem graça dele.

– Quer dizer que não vai se casar com um a criada?

– Não vou m e casar com Ruby .

– Talvez com bine com você.

Lloy d a encarou.

– Nem sem pre nos apaixonam os pelas pessoas que m ais com binam conosco, não é?

Ela olhou para o palco. O espetáculo estava chegando ao fim e o elenco inteiro com eçava a entoar um a canção conhecida. A plateia, anim ada, com eçou a cantar j unto. Os espectadores que estavam em pé nos fundos da sala deram -se os braços e puseram -se a balançar ao ritm o da m úsica, e o grupo de Boy fez o m esm o.

Quando a cortina baixou, Boy ainda não tinha voltado.

– Vou procurá-lo – disse Lloy d. – Acho que sei onde ele pode estar. – O Gaiety tinha um toalete fem inino, m as os hom ens tinham que usar um a latrina seca e vários barris de óleo cortados ao m eio que ficavam no quintal. Lloy d encontrou Boy vom itando em um dos barris.

Em prestou-lhe um lenço para que ele lim passe a boca, depois o pegou pelo braço e o conduziu pelo teatro j á m eio vazio até a lim usine Daim ler que aguardava do lado de fora. O restante do grupo estava esperando. Os dois entraram no carro e Boy pegou no sono im ediatam ente.

Quando chegaram de novo ao West End, Andy Fitzherbert disse ao m otorista que fosse prim eiro à casa dos Murray , que ficava num a rua m odesta perto da Trafalgar Square. Desceu do carro com May e falou:

– Podem ir. Vou acom panhar May até a porta, depois voltarei para casa a pé.

Lloy d im aginou que Andy estivesse planej ando um a despedida rom ântica em frente à casa de May .

Eles seguiram até May fair. Quando o carro estava chegando à Grosvernor Square, onde ficava a casa de Daisy e Eva, Jim m y disse ao m otorista:

– Pare na esquina, por favor. – Em seguida, baixando a voz, dirigiu-se a Lloy d: – William s, você se incom odaria em acom panhar a Srta. Peshkov até a porta? Eu e Fräulein Rothm ann encontrarem os vocês daqui a um m inuto.

– É claro que não m e incom odo. – Era óbvio que Jim m y queria dar um beij o de despedida em Eva ali no carro. Boy não perceberia nada: estava roncando. Já o m otorista fingiria não ver, na esperança de receber um a gorj eta.

Lloy d saltou do carro e aj udou Daisy a descer. Quando ela segurou sua m ão, ele sentiu um arrepio sem elhante a um pequeno choque elétrico. Então lhe deu o braço e, j untos, seguiram cam inhando devagar pela calçada. A m eio cam inho entre dois postes, no ponto em que a luz era m ais fraca, Daisy parou.

– Vam os dar m ais um tem pinho a eles – falou.

– Estou m uito contente por Eva ter encontrado um nam orado – com entou Lloy d.

– Eu tam bém .

Ele tom ou fôlego para continuar.

– Não posso dizer o m esm o em relação a você e Boy Fitzherbert.

– Ele m e apresentou na corte! – disse Daisy. – E dancei com o rei num a boate... saiu em todos os j ornais dos Estados Unidos.

– E é por isso que você está nam orando com ele? – perguntou Lloy d, sem acreditar.

– Não só por isso. Ele gosta das m esm as coisas que eu: festas, cavalos de corrida, roupas bonitas. Ele é tão divertido! Tem até o próprio avião.

– Nenhum a dessas coisas significa nada – disse Lloy d. – Term ine com ele. Nam ore com igo.

Ela pareceu satisfeita, m as riu.

– Você é louco – falou. – Mas eu gosto de você.

– Estou falando sério – disse ele, aflito. – Não consigo parar de pensar em você, m esm o sendo a últim a m oça do m undo com quem eu deveria m e casar.

Ela tornou a rir.

– Quanta grosseria! Não sei por que ainda converso com você. Acho que o considero agradável por trás dessa sua falta de j eito.

– Na verdade, não sou sem j eito... Só com você.

– Pode até ser. Mas não vou m e casar com um socialista pobretão.

Lloy d havia aberto seu coração, fora rej eitado de um j eito bastante charm oso e agora estava arrasado. Tornou a olhar para a lim usine.

– Quanto tem po será que eles vão dem orar? – perguntou, desconsolado.

– Mas eu até que poderia beij ar um socialista, só para ver com o é – disse Daisy .

Ele dem orou alguns segundos para reagir. Im aginou que ela estivesse falando em teoria. Mas um a m oça j am ais diria um a coisa dessas em teoria. Aquilo era um convite. E ele quase foi burro o suficiente para deixá-lo passar.

Chegou m ais perto e levou as m ãos à cintura fina de Daisy. Ela virou o rosto para cim a, e sua beleza o deixou sem ar. Ele abaixou a cabeça e a beij ou suavem ente na boca. Ela não fechou os olhos, e ele tam pouco. Sentia-se incrivelm ente excitado, encarando aqueles olhos azuis enquanto roçava seus lábios nos dela. Daisy então entreabriu a boca e ele tocou seus lábios com a ponta da língua. Instantes depois, sentiu a língua dela reagir. Ela não tirava os olhos dos seus. Lloy d teve a sensação de estar no paraíso e desej ou poder perm anecer naquele abraço para sem pre. Ela apertou m ais o corpo de encontro ao seu. Ele estava com um a ereção e ficou encabulado, com m edo de que ela sentisse, por isso recuou – m as ela tornou a pressionar o corpo contra o dele, e ele percebeu, ainda a encarando, que ela queria sentir o contato de seu pênis contra o corpo m acio. Entender isso tornou sua excitação quase insuportável. Ele teve a sensação de que estava prestes a ej acular e ocorreu-lhe que ela talvez até desej asse isso.

Foi então que ouviu a porta do carro se abrir e escutou a voz de Jim m y Murray falando a um a altura levem ente exagerada, com o quem dá um alerta. Lloy d soltou Daisy .

– Bem – m urm urou ela, em tom de surpresa –, foi um prazer inesperado.

– Mais que um prazer – retrucou Lloy d, rouco.

Jim m y e Eva se aproxim aram e os quatro cam inharam até a porta da casa da Sra. Peshkov. Era um a construção im ponente, com degraus que conduziam a um a varanda coberta. Lloy d se perguntou se aquela varanda poderia servir de abrigo para m ais um beij o, m as, quando estavam subindo os degraus, a porta foi aberta por dentro por um hom em em traj e form al, provavelm ente o m ordom o com quem ele havia falado m ais cedo. Com o estava feliz por ter dado aquele telefonem a!

As m oças se despediram com recato, sem dar qualquer indício de que, segundos antes, estavam atracadas em abraços apaixonados. A porta então se fechou e elas desapareceram .

Lloy d e Jim m y tornaram a descer os degraus.

– Eu vou a pé daqui – disse Jim m y. – Quer que eu diga ao m otorista para levá-lo de volta até o East End? Você deve estar a pelo m enos uns cinco quilôm etros de casa. E Boy não vai se im portar... Acho que ele vai dorm ir até a hora do café da m anhã.

– É m uita gentileza sua, Murray, e eu lhe agradeço. Mas, acredite ou não, estou com vontade de andar. Tenho m uito em que pensar.

– Com o preferir. Boa noite, então.

– Boa noite – respondeu Lloy d. E, com a m ente em turbilhão e a ereção cedendo aos poucos, ele se virou para leste e tom ou o rum o de casa.