Inverno do Mundo

Ken Follett · Capítulo 132 de 153

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Inverno do Mundo

Capítulo III

Frunze deu um suspiro.

– Foram dois tipos – respondeu.

Volody a ficou anim ado e surpreso.

– Dois m odelos diferentes?

Frunze assentiu.

– Em Hiroshim a, usaram um artefato de urânio acionado por um proj étil tam bém de urânio, com o um a bala de revólver. A bom ba foi batizada de Little Boy. A outra, Fat Man, lançada sobre Nagasaki, era um a bom ba de plutônio com gatilho de im plosão.

Volody a m al conseguia respirar. Aquelas eram inform ações quentíssim as.

– Qual das duas é m elhor?

– As duas funcionaram , com o ficou claro, m as Fat Man é m ais fácil de fabricar.

– Por quê?

– É preciso m uitos anos para produzir U-235 suficiente para um a bom ba. Depois que se constrói um a pilha nuclear, o plutônio é m ais rápido.

– Quer dizer que a União Soviética deveria copiar a Fat Man?

– Com certeza.

– Há m ais um a coisa que você poderia fazer para aj udar a salvar a Rússia da destruição – disse Volody a.

– O quê?

Volody a o encarou.

– Conseguir os desenhos do proj eto da bom ba para m im – falou.

Willi ficou pálido.

– Sou cidadão am ericano – disse. – Isso que você está m e pedindo é alta traição. A punição é a m orte. Eu poderia ir para a cadeira elétrica.

Sua m ulher tam bém , pensou Volody a; ela é cúm plice. Mas ainda bem que você não pensou nisso.

– Nos últim os anos, pedi a m uitas pessoas que arriscassem suas vidas – disse ele. – Pessoas com o vocês, alem ães que odiavam os nazistas, hom ens e m ulheres que correram riscos terríveis para fornecer inform ações que nos aj udaram a vencer a guerra. E devo lhes dizer o m esm o que disse a elas: se não aceitarem , m uitas outras pessoas vão m orrer. – Ele se calou. Aquele era o seu m aior trunfo. Não tinha m ais nada a oferecer.

O alem ão olhou para a m ulher.

– Willi, você fabricou a bom ba – disse ela.

Frunze então virou-se para Volody a e falou:

– Vou pensar.

 

III

Dois dias depois, ele entregou os desenhos.

Volody a os levou para Moscou.

Zoy a foi solta. Não estava tão brava com a prisão quanto o m arido.

– Foi para defender a Revolução – disse ela. – E ninguém m e m achucou. Foi com o ficar hospedada num hotel ruim .

No prim eiro dia que passaram em casa, depois do sexo, Volody a disse:

– Tenho um a coisa para m ostrar a você, um a coisa que trouxe dos Estados Unidos. – Ele rolou para fora da cam a, abriu um a gaveta e pegou um livro. – É o catálogo da Sears Roebuck. Olhe só.

Sentando-se ao lado da m ulher na cam a, abriu o catálogo na seção de vestidos fem ininos. Os m odelos eram bem com pridos, m as os tecidos tinham cores vivas e alegres, listras, quadriculados e cores lisas, alguns com babados, pregas e cintos.

– Que bonito! – com entou Zoy a, pondo o dedo sobre um dos m odelos. – Dois dólares e 98 cents é m uito dinheiro?

– Na verdade, não – respondeu Volody a. – O salário m édio é de uns 50 dólares por sem ana, e o aluguel custa m ais ou m enos um terço disso.

– Sério? – Zoy a estava pasm a. – Quer dizer que a m aioria das pessoas pode com prar esses vestidos?

– Sim . Talvez não os cam poneses. Mas, pensando bem , esses catálogos foram inventados para agricultores que m oram a centenas de quilôm etros da loj a m ais próxim a.

– E com o funcionam ?

– Você escolhe o que quer, m anda o dinheiro e algum as sem anas depois o carteiro traz o que você encom endou.

– É com o ser czar, im agino. – Zoy a pegou o catálogo da m ão do m arido e virou a página. – Ah! Vej a, aqui tem m ais. – A página seguinte m ostrava conj untos de blazer e saia por 4 dólares e 98 cents. – Estes aqui tam bém são elegantes – com entou ela.

– Continue folheando – disse Volody a.

Zoy a se espantou ao ver páginas e m ais páginas de sobretudos, chapéus, sapatos, roupa de baixo, pij am as e m eias fem ininas.

– As pessoas podem com prar qualquer um desses artigos? – indagou.

– Isso m esm o.

– Mas estas páginas têm m ais opções do que as loj as norm ais da Rússia!

– É verdade.

Ela seguiu folheando o catálogo. Havia um a gam a sem elhante de roupas para hom ens e tam bém para crianças. Zoy a pôs o dedo em um sobretudo pesado de inverno para m eninos, feito de lã e vendido a 15 dólares.

– Por este preço, im agino que todos os m eninos dos Estados Unidos tenham o seu.

– Devem ter.

Depois das roupas vinham os m óveis. Era possível com prar um a cam a por 25 dólares. Considerando um salário de 50 dólares por sem ana, era tudo m uito barato. E não acabava nunca. O catálogo oferecia centenas de coisas que, na União Soviética, não podiam ser com pradas por dinheiro nenhum : brinquedos e j ogos, produtos de beleza, violões, cadeiras elegantes, ferram entas elétricas, rom ances de capa colorida, enfeites de Natal, torradeiras.

Até m esm o um trator.

– Você acha que qualquer agricultor am ericano que queira um trator pode com prar um na hora? – perguntou Zoy a.

– Só se tiver dinheiro para pagar – respondeu Volody a.

– Ele não precisa pôr o nom e num a lista e esperar alguns anos?

– Não.

Zoy a fechou o catálogo e olhou para o m arido com expressão solene.

– Se as pessoas podem ter tudo isso, por que iriam querer ser com unistas? – indagou.

– Boa pergunta – respondeu Volody a.