Inverno do Mundo
Capítulo III
Frunze deu um suspiro.
– Foram dois tipos – respondeu.
Volody a ficou anim ado e surpreso.
– Dois m odelos diferentes?
Frunze assentiu.
– Em Hiroshim a, usaram um artefato de urânio acionado por um proj étil tam bém de urânio, com o um a bala de revólver. A bom ba foi batizada de Little Boy. A outra, Fat Man, lançada sobre Nagasaki, era um a bom ba de plutônio com gatilho de im plosão.
Volody a m al conseguia respirar. Aquelas eram inform ações quentíssim as.
– Qual das duas é m elhor?
– As duas funcionaram , com o ficou claro, m as Fat Man é m ais fácil de fabricar.
– Por quê?
– É preciso m uitos anos para produzir U-235 suficiente para um a bom ba. Depois que se constrói um a pilha nuclear, o plutônio é m ais rápido.
– Quer dizer que a União Soviética deveria copiar a Fat Man?
– Com certeza.
– Há m ais um a coisa que você poderia fazer para aj udar a salvar a Rússia da destruição – disse Volody a.
– O quê?
Volody a o encarou.
– Conseguir os desenhos do proj eto da bom ba para m im – falou.
Willi ficou pálido.
– Sou cidadão am ericano – disse. – Isso que você está m e pedindo é alta traição. A punição é a m orte. Eu poderia ir para a cadeira elétrica.
Sua m ulher tam bém , pensou Volody a; ela é cúm plice. Mas ainda bem que você não pensou nisso.
– Nos últim os anos, pedi a m uitas pessoas que arriscassem suas vidas – disse ele. – Pessoas com o vocês, alem ães que odiavam os nazistas, hom ens e m ulheres que correram riscos terríveis para fornecer inform ações que nos aj udaram a vencer a guerra. E devo lhes dizer o m esm o que disse a elas: se não aceitarem , m uitas outras pessoas vão m orrer. – Ele se calou. Aquele era o seu m aior trunfo. Não tinha m ais nada a oferecer.
O alem ão olhou para a m ulher.
– Willi, você fabricou a bom ba – disse ela.
Frunze então virou-se para Volody a e falou:
– Vou pensar.
III
Dois dias depois, ele entregou os desenhos.
Volody a os levou para Moscou.
Zoy a foi solta. Não estava tão brava com a prisão quanto o m arido.
– Foi para defender a Revolução – disse ela. – E ninguém m e m achucou. Foi com o ficar hospedada num hotel ruim .
No prim eiro dia que passaram em casa, depois do sexo, Volody a disse:
– Tenho um a coisa para m ostrar a você, um a coisa que trouxe dos Estados Unidos. – Ele rolou para fora da cam a, abriu um a gaveta e pegou um livro. – É o catálogo da Sears Roebuck. Olhe só.
Sentando-se ao lado da m ulher na cam a, abriu o catálogo na seção de vestidos fem ininos. Os m odelos eram bem com pridos, m as os tecidos tinham cores vivas e alegres, listras, quadriculados e cores lisas, alguns com babados, pregas e cintos.
– Que bonito! – com entou Zoy a, pondo o dedo sobre um dos m odelos. – Dois dólares e 98 cents é m uito dinheiro?
– Na verdade, não – respondeu Volody a. – O salário m édio é de uns 50 dólares por sem ana, e o aluguel custa m ais ou m enos um terço disso.
– Sério? – Zoy a estava pasm a. – Quer dizer que a m aioria das pessoas pode com prar esses vestidos?
– Sim . Talvez não os cam poneses. Mas, pensando bem , esses catálogos foram inventados para agricultores que m oram a centenas de quilôm etros da loj a m ais próxim a.
– E com o funcionam ?
– Você escolhe o que quer, m anda o dinheiro e algum as sem anas depois o carteiro traz o que você encom endou.
– É com o ser czar, im agino. – Zoy a pegou o catálogo da m ão do m arido e virou a página. – Ah! Vej a, aqui tem m ais. – A página seguinte m ostrava conj untos de blazer e saia por 4 dólares e 98 cents. – Estes aqui tam bém são elegantes – com entou ela.
– Continue folheando – disse Volody a.
Zoy a se espantou ao ver páginas e m ais páginas de sobretudos, chapéus, sapatos, roupa de baixo, pij am as e m eias fem ininas.
– As pessoas podem com prar qualquer um desses artigos? – indagou.
– Isso m esm o.
– Mas estas páginas têm m ais opções do que as loj as norm ais da Rússia!
– É verdade.
Ela seguiu folheando o catálogo. Havia um a gam a sem elhante de roupas para hom ens e tam bém para crianças. Zoy a pôs o dedo em um sobretudo pesado de inverno para m eninos, feito de lã e vendido a 15 dólares.
– Por este preço, im agino que todos os m eninos dos Estados Unidos tenham o seu.
– Devem ter.
Depois das roupas vinham os m óveis. Era possível com prar um a cam a por 25 dólares. Considerando um salário de 50 dólares por sem ana, era tudo m uito barato. E não acabava nunca. O catálogo oferecia centenas de coisas que, na União Soviética, não podiam ser com pradas por dinheiro nenhum : brinquedos e j ogos, produtos de beleza, violões, cadeiras elegantes, ferram entas elétricas, rom ances de capa colorida, enfeites de Natal, torradeiras.
Até m esm o um trator.
– Você acha que qualquer agricultor am ericano que queira um trator pode com prar um na hora? – perguntou Zoy a.
– Só se tiver dinheiro para pagar – respondeu Volody a.
– Ele não precisa pôr o nom e num a lista e esperar alguns anos?
– Não.
Zoy a fechou o catálogo e olhou para o m arido com expressão solene.
– Se as pessoas podem ter tudo isso, por que iriam querer ser com unistas? – indagou.
– Boa pergunta – respondeu Volody a.