Inverno do Mundo
Capítulo VI
O j ardim do hospital não passava de terra congelada. Diante da porta da frente havia um ônibus cinza, com o m otor ligado e o m otorista fum ando ao volante. Carla viu que ele estava de sobretudo grosso, chapéu e luvas, o que significava que não havia calefação dentro do ônibus.
Um pequeno grupo de agentes da Gestapo e da SS observava os procedim entos.
Os últim os pacientes subiram a bordo. Carla e Werner em barcaram com eles e com eçaram a distribuir os cobertores.
O Dr. Rothm ann estava em pé no fundo do ônibus.
– Carla – disse ele. – Por favor... diga à m inha Hannelore o que aconteceu. Tenho que ir com os pacientes. Não tenho escolha.
– Claro. – A voz dela estava em bargada.
– Talvez eu consiga proteger essas pessoas.
Em bora não acreditasse nisso, Carla assentiu.
– Sej a com o for, não posso abandoná-las – acrescentou o m édico.
– Vou dizer a ela.
– E diga tam bém que eu a am o.
Carla não conseguiu m ais conter as lágrim as.
– Diga a ela que essa foi a últim a coisa que eu falei – pediu o m édico. – Que eu a am o.
Carla aquiesceu.
Werner a segurou pelo braço.
– Vam os.
Os dois desceram do ônibus.
Um agente da SS se dirigiu a Werner:
– Ei, você aí, de uniform e da Força Aérea, o que acha que está fazendo?
Werner estava tão bravo que Carla tem eu que fosse arrum ar briga. No entanto, ele respondeu com calm a:
– Entregando cobertores a pessoas velhas e com frio. Por acaso isso é contra a lei?
– Você deveria estar lutando no front oriental.
– Vou para lá am anhã. E você?
– Cuidado com o que diz.
– Se fizer o favor de m e prender antes de eu ir, talvez salve a m inha vida.
O hom em virou as costas.
O ônibus em itiu um ruído ao ter a m archa engatada, e o barulho do m otor ficou m ais alto. Carla e Werner se viraram para olhar. Em cada j anela havia um rosto, todos diferentes: balbuciando coisas desconexas, babando, rindo histericam ente, distraído, ou então distorcido por seus próprios torm entos espirituais – insanos, sem exceção. Pacientes psiquiátricos sendo levados pela SS. Loucos conduzindo outros loucos.
O ônibus se afastou.
VI
– Acho que eu teria gostado da Rússia, se tivesse conseguido vê-la – com entou Woody com o pai.
– Tenho a m esm a sensação.
– Não consegui nem tirar fotografias decentes.
Os dois estavam sentados no grande saguão do Hotel Moskva, perto da entrada do m etrô, com as m alas feitas. Voltavam para casa.
– Tenho que contar a Greg Peshkov que conheci um rapaz cham ado Volody a Peshkov – disse Woody. – Apesar de Volody a não ter ficado m uito contente com isso. Acho que qualquer um que tenha vínculos com o Ocidente se torna suspeito.
– Pode apostar.
– Enfim , conseguim os o que queríam os. É isso que im porta. Os Aliados estão com prom etidos com as Nações Unidas.
– Sim – concordou Gus, satisfeito. – Foi preciso um pouco de esforço para convencer Stalin, m as ele acabou vendo que fazia sentido. Acho que você aj udou com aquela sua conversa franca com Peshkov.
– Pai, você passou a vida inteira lutando por isso.
– É, devo adm itir que este é um m om ento m uito bom .
Um pensam ento preocupante passou pela cabeça de Woody .
– Você não vai se aposentar agora, vai? – perguntou ele.
Gus riu.
– Não. Em princípio conseguim os um acordo, m as o trabalho está só com eçando.
Cordell Hull j á tinha ido em bora de Moscou, m as alguns de seus assessores continuavam na cidade, e um deles se aproxim ou dos Dewar. Woody sabia quem era: um rapaz cham ado Ray Baker.
– Senador, tenho um recado para o senhor – disse ele, parecendo nervoso.
– Você chegou bem a tem po... Estou de partida – respondeu Gus. – O que foi?
– É sobre o seu filho Charles... Chuck.
Gus ficou pálido.
– Qual é o recado, Ray ?
O rapaz estava com dificuldade para falar.
– A notícia é ruim , senador. Ele participou de um a batalha nas Ilhas Salom ão.
– Foi ferido?
– Não, senador. É pior.
– Ah, m eu Deus! – exclam ou Gus, e caiu em prantos.
Woody nunca tinha visto o pai chorar.
– Sinto m uito, senador.