Inverno do Mundo
Capítulo VI
– Com o assim ?
– Não quero deixar você de verdade.
– E eu com certeza não quero que você m e deixe.
– Largue essas duas m ulheres de Aldgate. Durm a com igo todas as noites. Vam os tentar ter um filho. É o que você quer, não é?
– É.
– Então vai fazer o que estou pedindo?
Houve um a pausa dem orada. Então ele disse:
– Vou.
– Obrigada.
Ela olhou para o m arido, torcendo para ganhar um beij o, m as Boy perm aneceu sentado ereto, com o olhar fixo à frente através do para-brisa, enquanto os lim padores varriam ritm adam ente a chuva incessante.
VI
No dom ingo, a chuva cessou e o sol apareceu. Lloy d William s teve a im pressão de que Londres tinha sido lavada.
Durante a m anhã, a fam ília William s se reuniu na cozinha da casa de Ethel em Aldgate. Nada havia sido com binado: todos apareceram espontaneam ente. Queriam estar j untos se a guerra fosse declarada, deduziu Lloy d.
Ao m esm o tem po que ansiava por agir contra os fascistas, a perspectiva da guerra deixava Lloy d apreensivo. Na Espanha, tinha visto carnificina e sofrim ento suficientes para um a vida inteira. Desej ava nunca m ais ter que participar de outra batalha. Havia até abandonado o boxe. Mas, apesar de tudo, no fundo do coração, não queria que Cham berlain recuasse. Vira com os próprios olhos o que o fascism o significava na Alem anha, e os boatos que chegavam da Espanha eram igualm ente assustadores: o regim e franquista estava assassinando centenas, m ilhares de antigos defensores do governo eleito, e os padres dom inavam outra vez as escolas.
No verão, depois de se form ar, ele havia entrado im ediatam ente para regim ento dos Fuzileiros Galeses e, por ser ex-aluno do Curso de Form ação de Oficiais, recebera a patente de tenente. O Exército estava se preparando com energia para o com bate: só com m uita dificuldade ele conseguira um a licença de 24 horas para visitar a m ãe naquele fim de sem ana. Se o prim eiro-m inistro declarasse guerra nesse dia, Lloy d estaria entre os prim eiros a serem m obilizados.
Billy William s chegou à casa na Nutley Street depois do café da m anhã de dom ingo. Lloy d e Bernie estavam sentados j unto ao rádio, com j ornais espalhados sobre a m esa da cozinha, enquanto Ethel preparava um pernil para o alm oço. Tio Billy quase chorou ao ver Lloy d de uniform e.
– Isso m e lem bra do nosso Dave – com entou. – Se tivesse voltado da Espanha, ele estaria sendo convocado agora.
Lloy d nunca contara ao tio as verdadeiras circunstâncias da m orte do prim o. Fingira desconhecer os detalhes e dissera apenas que Dave havia m orrido em com bate em Belchite e que devia estar enterrado lá. Billy tinha lutado na Grande Guerra e conhecia a negligência com que eram tratados os cadáveres no cam po de batalha, o que aum entava ainda m ais a sua dor. Sua m aior esperança era algum dia, quando a Espanha finalm ente fosse libertada, poder visitar Belchite e prestar hom enagem ao filho que m orrera lutando por aquela causa tão nobre.
Lenny Griffiths tam bém j am ais havia retornado da Espanha. Ninguém fazia ideia de onde ele pudesse estar enterrado. Talvez até ainda estivesse vivo e detido em um dos cam pos de prisioneiros de Franco.
O rádio transm itiu o pronunciam ento do prim eiro-m inistro Cham berlain na Câm ara dos Com uns na noite anterior, m as só.
– Quem ouve isso não faz ideia da confusão que aconteceu depois desse discurso – com entou Billy .
– A BBC nunca noticia confusões – disse Lloy d. – Eles gostam de transm itir segurança.
Tanto Billy quanto Lloy d eram m em bros do Com itê Executivo Nacional do Partido Trabalhista – Lloy d com o representante da ala j ovem do partido. Ao voltar da Espanha, conseguira ser aceito novam ente em Cam bridge. Enquanto term inava os estudos, percorrera o país dando palestras aos grupos do Partido Trabalhista e contando às pessoas com o o governo espanhol fora traído pelo governo britânico pró-fascista. Os discursos de nada adiantaram – os rebeldes antidem ocráticos de Franco tinham vencido, de qualquer j eito –, m as Lloy d se tornara um a figura conhecida e até um a espécie de herói, sobretudo entre os esquerdistas m ais j ovens, e isso o fizera ser eleito para o Com itê.
Tanto Lloy d quanto seu tio Billy, portanto, haviam participado da reunião do Com itê na noite anterior. Am bos sabiam que Cham berlain cedera às pressões do Gabinete e enviara um ultim ato a Hitler. Agora esperavam , im pacientes e aflitos, para ver o que iria acontecer.
Até onde sabiam , Hitler não tinha m andado nenhum a resposta.
Lloy d se lem brou da am iga de Ethel, Maud, e de sua fam ília em Berlim . Os filhos dela deviam ter agora 17 e 19 anos, calculou. Im aginou que eles tam bém deviam estar reunidos em volta de um rádio se perguntando se entrariam ou não em guerra contra a Inglaterra.
Às dez da m anhã, Millie, m eia-irm ã de Lloy d, apareceu. Estava com 19 anos e se casara com Abe, o irm ão de sua am iga Naom i Avery. Abe era um atacadista de couro. Millie ganhava um bom dinheiro com as com issões de vendedora num a butique de luxo. Tinha am bições de abrir a própria loj a, e Lloy d não duvidava de que conseguisse fazê-lo um dia. Em bora aquela não fosse a carreira que Bernie teria escolhido para a filha, Lloy d podia ver com o o padrasto sentia orgulho da inteligência, da am bição e da elegância de Millie.
Nesse dia, porém , sua atitude segura e cheia de pose desm oronou.
– Foi horrível quando você estava na Espanha – disse ela a Lloy d, chorosa. – E Dave e Lenny não voltaram . Agora são você e m eu Abie que vão sum ir em algum lugar, deixando todas nós aqui à espera de notícias dia sim , outro tam bém , im aginando se j á terão m orrido.
– E o seu prim o Keir tam bém – acrescentou Ethel. – Ele está com 18 anos.
– Em que regim ento m eu pai serviu? – perguntou Lloy d à m ãe.
– Isso tem algum a im portância? – Talvez por consideração a Bernie, ela nunca se m ostrava disposta a falar sobre o verdadeiro pai de Lloy d.
Mas ele queria saber.
– Para m im , tem – falou.
Ethel j ogou um a batata sem casca dentro da panela d’água com um a força desnecessária.
– Ele serviu nos Fuzileiros Galeses.
– Igual a m im ! Por que não m e contou isso antes?
– São águas passadas.
Lloy d sabia que talvez o nervosism o da m ãe tivesse outro m otivo. Ela provavelm ente j á estava grávida quando se casou. Isso não incom odava Lloy d, m as, para a geração de sua m ãe, era um a vergonha. Mesm o assim , ele insistiu:
– Meu pai era galês?
– Era.
– De Aberowen?
– Não.
– De onde, então?
Ela suspirou.
– Os pais dele viviam se m udando... algo a ver com o em prego do pai. Mas eu acho que originalm ente eram de Swansea. Está satisfeito agora?
– Estou.
A tia de Lloy d, Mildred, chegou da igrej a. Era um a senhora de m eia-idade, elegante e bonita, m as dentuça. Estava usando um chapéu extravagante – era chapeleira, e tinha um a pequena fábrica. Tinha duas filhas do prim eiro casam ento, Enid e Lillian, am bas j á com cerca de 30 anos, casadas e com os próprios filhos. Seu filho m ais velho era Dave, m orto na Espanha. O caçula, Keir, entrou atrás da m ãe na cozinha. Mildred insistia em levar os filhos à igrej a, m esm o que seu m arido Billy se recusasse a ter qualquer envolvim ento com a religião.
– Eu tive isso de sobra quando era criança – ele costum ava dizer. – Se eu não for salvo, ninguém vai ser.
Lloy d correu os olhos pela cozinha. Aquela era a sua fam ília: m ãe, padrasto, m eia-irm ã, tio, tia e prim o. Não queria deixá-los e partir para m orrer sabia-se lá onde.
Olhou para o relógio, um m odelo de aço inox com m ostrador quadrado que Bernie lhe dera de presente de form atura. Eram onze da m anhã. No rádio, a voz forte do locutor de notícias Alvar Liddell inform ou que o prim eiro-m inistro faria um pronunciam ento dentro de instantes. Seguiu-se um trecho solene de m úsica clássica.
– Silêncio, todo m undo – disse Ethel. – Depois preparo um chá para vocês.
Alvar Liddell anunciou o prim eiro-m inistro Neville Cham berlain.
O apaziguador do fascism o, pensou Lloy d, o hom em que entregou a Tchecoslováquia a Hitler; que se recusou teim osam ente a aj udar o governo eleito da Espanha, m esm o depois de não ser m ais possível negar que os alem ães e italianos estavam arm ando os rebeldes. Será que ele estava prestes a ceder m ais um a vez?
Lloy d reparou que os pais estavam de m ãos dadas, os dedos pequeninos de Ethel pressionando a palm a de Bernie.
Tornou a verificar o relógio. Onze e quinze.
Então ouviram o prim eiro m inistro dizer:
– Dirij o-m e a vocês da sala do Gabinete do Reino Unido no núm ero 10 da Downing Street.
Cham berlain tinha a voz um pouco esganiçada, excessivam ente form al. Parecia um professor de escola pedante. Um guerreiro, pensou Lloy d, é disso que precisam os.
– Hoj e de m anhã, o em baixador britânico em Berlim entregou ao governo alem ão um últim o aviso inform ando que, se o governo britânico não fosse com unicado antes das onze horas da m anhã que eles estavam dispostos a retirar im ediatam ente suas tropas da Polônia, um estado de guerra passaria a existir entre nós.
Lloy d se im pacientou com aquela verborragia de Cham berlain. Um estado de guerra passaria a existir entre nós: que j eito m ais estranho de dizer as coisas. Ande logo com isso, pensou. Vá direto ao ponto. É um assunto de vida ou m orte.
A voz de Cham berlain se fez m ais grave e m ais oficial. Talvez ele não estivesse m ais olhando para o m icrofone, e sim im aginando m ilhões de conterrâneos seus em casa, sentados j unto aos aparelhos de rádio, aguardando suas tem idas palavras.
– Devo lhes inform ar agora que nenhum a m ensagem com esse teor foi recebida...
Lloy d ouviu a m ãe dizer:
– Ai, Deus nos protej a.
Olhou para ela. O rosto de Ethel estava cinza.
Foi bem devagar que Cham berlain pronunciou as terríveis palavras seguintes:
– ...e, consequentem ente, este país está em guerra com a Alem anha.
Ethel com eçou a chorar.