O dia da caça
Leia um trecho do próximo livro da série Alex Cross
LEIA UM TRECHO DO PRÓXIMO LIVRO
DA SÉRIE ALEX CROSS
EU, ALEX CROSS
PRÓLOGO
FOG O E ÁG UA
Um
HANNAH WILLIS CURSAVA O SEGUNDO ano da faculdade de direito da Universidade da Virgínia e todo o seu futuro parecia favorável e prom issor – exceto, é claro, pelo fato de ela estar prestes a m orrer naquela m ata escura, som bria e sinistra.
Corra, Hannah, dizia a si m esm a. Apenas corra. Pare de pensar. Ficar se lamentando e chorando não vai ajudar você agora. Correr talvez ajude.
Ela tropeçou e cam baleou para a frente até suas m ãos encontrarem outro tronco de árvore no qual se agarrar. Apoiou seu corpo dolorido nele, esperando recuperar as forças para respirar novam ente. E então dar outro pique e seguir m ais alguns passos adiante.
Não pare ou você vai morrer aqui mesmo nesta mata. É simples assim.
A bala aloj ada em algum lugar da parte de baixo das suas costas tornava cada m ovim ento e cada respiração um a agonia, causando m ais dor do que Hannah j am ais im aginara possível. Era apenas a am eaça de um a segunda bala ou talvez algo pior que a m antinha de pé e seguindo em frente.
A m ata era quase um breu total. Um a lua crescente que pairava sobre as copas cerradas das árvores m al ilum inava o chão. As próprias árvores não passavam de som bras. Era im possível ver os espinhos dos arbustos na vegetação rasteira; eles perfuravam e cortavam suas pernas até sangrar. A pouca roupa que usava – apenas um body caro de renda preta – agora pendia em frangalhos dos seus om bros.
No entanto, nada disso im portava ou ao m enos era registrado por Hannah. O único pensam ento claro que conseguia atravessar a dor e o pânico era: Corra, garota. O restante era um pesadelo sem palavras nem sentido.
Por fim e m uito de repente (teria se passado um a hora? Ou m ais?), a cobertura baixa das árvores se abriu acim a da sua cabeça e ao seu redor.
– Mas o quê...?
A terra se transform ou em cascalho debaixo dos seus pés e, sem ter onde se apoiar, Hannah caiu de j oelhos.
Sob o luar opaco, ela conseguia ver o fantasm a de um a faixa dupla no asfalto, revelando a curva de um a estrada. Era com o um m ilagre. Ou m eio m ilagre, pelo m enos. Ela sabia que ainda não tinha escapado daquela encrenca.
Quando ouviu o barulho de um m otor ao longe, Hannah se apoiou nas próprias m ãos e em purrou o corpo para cim a, levantando-se do cascalho. Reunindo um a força que não sabia ainda possuir, ficou de pé e então cam baleou até o m eio da estrada. Suor e lágrim as frescas em baçavam seu m undo.
Por favor, Deus, não permita que sejam eles. Não podem ser aqueles dois desgraçados.
O Senhor não seria tão cruel, seria?
Foi então que um a cam inhonete verm elha dobrou a curva, vindo para cim a dela rápido. Rápido dem ais! De repente ela estava tão cega quanto estivera antes na m ata, m as dessa vez por causa dos faróis do veículo.
– Pare! Por favor, pare! Por favooor! – gritou ela. – Pare, seu filho da puta!
No últim o segundo, os pneus cantaram no asfalto. A cam inhonete verm elha entrou por com pleto no seu cam po de visão e parou im ediatam ente antes de atropelá-la com o um anim al na estrada. Ela conseguia sentir o calor que saía do m otor através da grade.
– Ei, gatinha, bela roupa. Você só precisava ter esticado o polegar.
Ela não conhecia aquela voz – o que era bom , m uito bom . Música country alta vinha da cabine tam bém : Charlie Daniels Band, sua m ente registrou de form a vaga, pouco antes de Hannah desabar no asfalto.
O m otorista j á havia saído da cam inhonete quando, segundos depois, ela recobrou a consciência.
– Oh, m eu Deus, eu não... O que aconteceu com você? Você está...? O que aconteceu com você?
– Por favor. – Ela m al conseguia falar. – Se eles m e encontrarem aqui, vão m atar nós dois.
As m ãos fortes do hom em a envolveram , roçando o buraco do tam anho de um a m oeda de 10 centavos nas suas costas enquanto a erguia. Ela apenas suspirou, fraca dem ais para gritar. Alguns segundos nebulosos e indistintos depois, eles estavam dentro da cam inhonete e seguindo m uito depressa pela rodovia de duas pistas.
– Aguente firm e, querida. – A voz do m otorista estava trêm ula agora. – Me conte quem fez isso com você.
Hannah sentia que estava perdendo a consciência de novo.
– Os hom ens...
– Os hom ens? Que homens, querida? De quem você está falando?
Um a resposta pairou vagam ente sobre a cabeça de Hannah e ela não soube ao certo se a disse em voz alta ou se apenas pensou nela antes de tudo escurecer.
Os homens da Casa Branca.
Dois
O NOME DELE ERA JOHNNY TUCCI, m as todos os garotos do seu bairro no sul da Filadélfia o cham avam de Johnny Cacoete, por causa do m odo com o seus olhos não paravam quietos quando ele ficava nervoso, o que acontecia a m aior parte do tem po.
É claro que, depois da noite de hoj e, os garotos do bairro poderiam ir se danar. Naquela noite Johnny entrou no j ogo pra valer. Era hora de ser hom em . Ele estava com “o pacote”, não estava?
Era um serviço sim ples, m as dos bons, porque ele estava sozinho e precisava assum ir toda a responsabilidade. Já havia apanhado o pacote. Teve m edo, m as se saiu bem .
Ninguém falava com todas as letras, m as, assim que você com eçava a fazer entregas desse tipo, isso significava que estava vinculado de algum a form a à Fam ília e que ela estava vinculada a você. Em outras palavras, havia um relacionam ento. Depois daquela noite, Johnny não precisaria m ais fazer apostas para os outros, nem catar m igalhas nos bairros do sul. Era com o aquele adesivo de para-choque que dizia: Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida.
Então era natural que ele estivesse em polgado... e só um pouquinho nervoso.
O alerta de seu tio Eddie não parava de se repetir na sua m ente, com o um a gravação: Não desperdice essa oportunidade, Cacoete. Eu estou colocando o meu na reta por você. O tio dissera isso com o se estivesse lhe fazendo um grande favor ao lhe dar esse serviço. Quer dizer, Johnny até achava que talvez estivesse realm ente, m as m esm o assim . Seu próprio tio não precisava ficar esfregando isso na sua cara, precisava?
Ele estendeu a m ão e aum entou o volum e do rádio. Até a m úsica country que eles costum avam tocar por ali era m elhor do que escutar a falação de Eddie na sua cabeça a noite inteira. Calhou de estar tocando um a velha canção da Charlie Daniels Band, “The Devil Went Down to Georgia”. Ele até conhecia um pouco da letra. Mas nem isso fez com que a voz de Eddie saísse de sua m ente.
Não desperdice essa oportunidade, Cacoete.
Eu estou colocando o meu na reta por você.
Puta m erda!
Luzes azuis piscavam em seu retrovisor, vindas do nada. Dois, três segundos antes ele poderia ter j urado que estava sozinho na Interestadual 95.
Pelo j eito, não.
Johnny com eçou a sentir os prim eiros espasm os no canto do olho direito.
Ele pisou no acelerador; talvez conseguisse fugir. Então se lem brou da porcaria do Dogde que estava dirigindo, roubado do estacionam ento de um m otel em Essington. Que droga! Eu devia ter ido ao estacionamento do Marriott. Arranjado um carro japa.
Mas era possível que ainda não tivessem denunciado o roubo do Dodge. O dono, sej a lá quem fosse, provavelm ente estava dorm indo no m otel. Com algum a sorte, Johnny poderia sim plesm ente sum ir com a m ulta e ninguém j am ais precisaria ficar sabendo.
Mas esse era o tipo de sorte que as outras pessoas tinham , não ele.
Os policiais levaram um a eternidade para sair da viatura, o que era um m au sinal – o pior de todos. Eles estavam conferindo o m odelo e a placa do veículo. Quando enfim chegaram ao Dodge, parando um de cada lado, os olhos de Johnny j á pareciam dois feij ões m exicanos saltadores.
Ele tentou m anter a calm a.
– Boa noite, oficiais. Algum pro...
O que estava do seu lado, um suj eito alto com um sotaque caipira, abriu a porta do m otorista.
– Bico calado. Saia do veículo.
Eles não dem oraram nada para encontrar o pacote. Depois de vasculharem os bancos da frente e de trás, abriram o porta-m alas, puxaram a lona que cobria o estepe e pronto.
– Minha Nossa Senhora! – exclam ou um dos policiais ao ilum inar o porta-m alas com sua lanterna. O outro engasgou quando viu o que havia ali. – Que diabo você fez?
Johnny não ficou por perto para responder à pergunta. Ele j á estava correndo para salvar sua vida.
Três
NINGUÉM NUNCA TINHA ESTADO TÃO m orto, ou sido tão burro, quanto ele agora. Johnny Tucci teve certeza disso enquanto saía do m eio das árvores e com eçava a descer, deslizando, um a ribanceira que havia ao lado da rodovia.
Ele talvez pudesse se esconder daqueles tiras, m as não da Fam ília. Nem na cadeia nem em qualquer outro lugar. Isso era um fato. Não se perdia um “pacote” com o aquele sem que você m esm o se tornasse um pacote.
Vozes surgiram de cim a do barranco, seguidas por fachos de luz dançantes. Johnny atirou-se para baixo e se escondeu debaixo de um aglom erado de arbustos. Ele trem ia dos pés à cabeça, seu coração tão acelerado que chegava a doer, seus pulm ões ofegantes por conta do excesso de cigarros. Era quase im possível ficar parado, em silêncio.
Ai, merda, estou morto.
– Está vendo algum a coisa? Está vendo aquele desgraçado? Aquele doente?
– Ainda não. Mas nós vam os pegá-lo. Ele está aqui em baixo em algum lugar. Não pode ter ido longe.
Os policiais se dividiram , indo cada um para um lado, descendo a ribanceira. Muito calculistas e eficientes.
Em bora ele j á tivesse conseguido recuperar o fôlego, a trem edeira só piorava e não apenas por causa dos tiras. Era porque tinha com eçado a se dar conta do que precisaria fazer em seguida. Estritam ente falando, havia som ente duas opções realistas. Um a envolvia o 38 que ele trazia no coldre em seu tornozelo. A outra, o pacote – e seu dono. Era apenas um a questão de com o ele preferia m orrer.
E, sob aquele luar frio, não parecia haver m uita escolha.
Movendo-se o m ais lentam ente possível, ele estendeu a m ão para baixo e sacou o 38. Trem endo m uito, encaixou o cano dentro da boca. A porcaria do m etal chacoalhava com força contra seus dentes e deixava um gosto am argo em sua língua. Ele sentiu vergonha das lágrim as que escorriam pelo seu rosto, m as não conseguia evitá-las. De qualquer m aneira, quem além dele ficaria sabendo?
Meu Deus, era assim m esm o que iria term inar? Com ele chorando feito um bebê, sozinho no m eio da floresta? Que m undo terrível.
Ele conseguia até ouvir os garotos falando. Deus me livre de acabar como Johnny. Johnny Cacoete. Era isso que eles colocariam na sua lápide – só de m aldade. Aqueles m alditos!
Durante todo aquele tem po, o cérebro de Johnny dizia aperte o gatilho, m as seu dedo não obedecia. Tentou novam ente, com as duas m ãos no cabo dessa vez, m as não adiantou. Nem isso ele conseguia fazer direito.
Por fim , cuspiu o cano da arm a, ainda chorando com o um a criança. De certa m aneira, saber que iria viver m ais um dia não o aj udou nem um pouco a conter as lágrim as. Ele apenas ficou deitado ali, m ordendo os lábios, sentindo pena de si m esm o, até os tiras chegarem ao córrego no fundo da ribanceira.
Então Johnny Cacoete escalou rápido o m esm o cam inho pelo qual havia descido, atravessou a interestadual e se j ogou na m ata do outro lado – perguntando-se com o faria para sum ir da face da Terra, sabendo que isso era totalm ente im possível.
Ele havia olhado. Tinha visto o que estava dentro do “pacote”.