O dia da caça
capítulo 2
ELES QUERIAM ASSUSTAR ALGUÉM, PENSEI enquanto entrava num a antessala bem ilum inada e decorada com esm ero. Mas quem? Não essas pessoas mortas. Não essa pobre família massacrada só Deus sabe por quê.
O prim eiro piso contava um a história m acabra, que desenhava os contornos da m atança. Quase todos os m óveis das salas de estar e de j antar tinham sido virados ou destruídos – ou as duas coisas. Havia alguns buracos enorm es nas paredes e dezenas de outros m enores. Um candelabro de vidro antigo estava estilhaçado no chão, os cacos espalhados sobre um tapete oriental colorido.
A cena do crim e não fazia sentido e, para piorar, não encontrava precedentes em nada de m inha experiência com o detetive de hom icídios.
Um sofá Chesterfield crivado de balas tinha sido em purrado contra a parede para abrir espaço diante da lareira, onde os prim eiros três corpos foram empilhados.
Em bora eu possa garantir que j á vi coisas tenebrosas em serviço, aquela cena, a m onstruosidade dela, m e congelou.
Conform e eles disseram , as vítim as em pilhadas eram o pai, a m ãe e, por cim a, o filho, todos com o rosto virado para cim a. Havia rastros e m anchas de sangue nas paredes m ais próxim as, nos m óveis e no teto. Um a poça se form ara ao redor dos corpos. Aqueles pobres coitados haviam sido atacados com algum tipo de arm a cortante afiada. Os corpos estavam m utilados.
– Meu Deus, m eu Deus... – m urm urei.
Era um a oração, um a praga contra os assassinos ou, m ais provavelm ente, as duas coisas.
Um dos peritos em im pressões digitais respondeu baixinho:
– Am ém .
Mas nenhum de nós dois estava olhando para o outro. Aquele era o tipo de cena de hom icídio que você precisava encarar na raça, tentando sair da casa com um a parcela ínfim a da sua sanidade intacta.
A disposição do sangue pela sala sugeria que os m em bros da fam ília tinham sido atacados separadam ente, depois agrupados no m eio.
Eu estava de acordo com Fescoe sobre haver m ais de um assassino. Algum a coisa tinha estim ulado a fúria selvagem deles para que fizessem aquilo. Mas o que exatam ente acontecera? Qual era a causa do m assacre? Drogas? Ritual? Psicose?
Psicose coletiva?
Arquivei os pensam entos aleatórios para consultá-los em outra hora. Primeiro os métodos, depois o motivo.
Circulei lentam ente os corpos m utilados, desviando das poças de sangue, procurando pisar nas partes secas do assoalho sem pre que possível. As incisões não pareciam seguir nenhum padrão e, pensando bem , os assassinatos tam bém não.
A garganta do garoto estava cortada. O pai tinha um buraco de bala na testa. E a cabeça da m ãe estava virada num ângulo estranho, com o se o pescoço tivesse sido quebrado.
Dei a volta com pleta para ver o rosto da m ãe. O ângulo era tão bizarro que ela parecia estar com os olhos erguidos para m im , com um a expressão quase esperançosa, com o se eu ainda pudesse salvá-la.
Inclinei-m e para analisá-la m ais de perto e de repente fiquei tonto. Minhas pernas fraquej aram . Eu não podia acreditar no que estava vendo.
Oh, não! Oh, meu Deus, não!
Recuando às cegas, apoiei o pé num a parte escorregadia e caí. Estendi o braço para am ortecer a queda e m inha m ão enluvada pintou o chão de verm elho escuro.
O sangue de Ellie Randall. Não Cox... Randall!
Eu a conhecia...
Muito tem po antes, Ellie havia sido m inha nam orada, quando estudávam os em Georgetown. Ela deve ter sido m eu prim eiro am or.
E agora tinha sido assassinada j unto com sua fam ília.