O dia da caça
capítulo 80
– AQUI É KALMA – DISSE ela, apontando para um triângulo am arelo no m apa. – É um dos m aiores cam pos de Darfur. Aposto que Tiger o conhece bem . Todo m undo por aqui conhece.
– O que são as outras cores? – perguntei.
Adanne m e explicou que existiam m ais de 100 cam pos no total. Verde significava “inacessível durante a estação das chuvas” e azul, “fechado para organizações de aj uda não m ilitares”, de acordo com as condições do conflito no m om ento. O amarelo em Kalm a significava “aberto”.
Era ali que com eçaríam os nossa caçada.
– E estes aqui? – perguntei, correndo o dedo sobre um a linha de ícones vermelhos em form a de cham a. Havia dezenas deles.
Adanne suspirou antes de responder.
– Verm elho é para vilas que foram destruídas. Os janjawid queim am tudo que podem : depósitos de com ida, gado. Tam bém j ogam carcaças hum anas e de anim ais dentro dos poços. Tudo para garantir que ninguém volte. Janjawid significa “horda” em árabe.
Essas eram as m ilícias árabes, que m uitos acreditavam ser apoiadas pelo governo local num a cam panha cruel para tornar a vida dos negros da região o m ais insegura possível. Cerca de 2 m ilhões de pessoas j á haviam abandonado suas casas e m ais de 200 m il tinham m orrido. Isto é, 200 mil até onde se sabia.
Era com o um a repetição de Ruanda. Na verdade, pior. Dessa vez, o m undo inteiro estava assistindo e não fazia quase nada para aj udar.
Olhei pela j anela a paisagem do Sahel, cerca de 3.500 m etros abaixo.
A região parecia m uito bonita lá de cim a: nada de guerra civil, genocídio, corrupção. Apenas um a extensão interm inável, pacífica, de terra castanha e esculpida.
Só que isso, claro, era m entira.
Um a bela m entira, m uito diabólica.
Pois estávam os prestes a aterrissar no inferno.