O dia da caça
capítulo 88
O MINUTO SEGUINTE PARECEU QUE NÃO podia ser verdade. Não naquela noite. Nem em nenhum a outra.
Os janjawid tinham voltado. Surgiram do nada, com o fantasm as na escuridão. A em boscada foi im petuosa e repentina; eles foram direto para o cam po.
Era difícil dizer quantos deles havia, m as deviam ser uns 20 ou m ais. Tive a im pressão de reconhecer um deles, o homem que eu havia soltado, o que tinha rido da minha cara.
Aqueles janjawid estavam a pé – não tinham cavalos ou cam elos. Carregavam arm as de fogo, além de facas e chicotes; dois deles em punhavam lanças.
Um hom em brandia a bandeira do Sudão, com o se eles estivessem ali a serviço do Estado, o que possivelm ente era verdade. Outro carregava um a bandeira com um cavaleiro branco am eaçador sobre um fundo azul-escuro, o sím bolo dos janjawid.
As m ulheres e crianças do cam po, que um m inuto antes estavam rindo e brincando, agora gritavam e tentavam salvar a própria vida.
O ataque foi de um a crueldade satânica; um exem plo do m al em estado puro, com o as cenas de assassinato que eu tinha visto em Washington. Hom ens adultos retalhavam refugiados indefesos ou os abatiam a tiros. Os telhados de palha das cabanas foram incendiados a m enos de seis m etros de onde eu estava. Um idoso foi queim ado vivo.
Então chegaram m ais janjawid, com cam elos, cavalos e dois Land Cruisers com m etralhadoras m ontadas na traseira. Não havia nada além de m atança, facadas, carnificina, gritos – nenhum m otivo para aquele ataque.
Com bati alguns daqueles desgraçados, m as não havia nada que eu pudesse fazer contra tantos. Com preendi a situação da m aneira com o as pessoas daquele cam po, daquele país, a com preendiam : Ninguém pode nos ajudar.
Mas, naquela noite, alguém aj udou. Por fim , soldados do Exército sudanês e das tropas da ONU chegaram em j ipes e vans. Os janjawid com eçaram a ir em bora, levando com eles algum as m ulheres e alguns anim ais.
Antes, com eteram um últim o ato insensato e vingativo: queim aram um galpão de grãos usado para arm azenar painço.
Finalm ente encontrei Adanne. Ela estava em balando um a criança que tinha visto a m ãe m orrer.
Então tudo ficou estranham ente silencioso, exceto pelos soluços das pessoas e pelo ruído discreto do vento harm atão.