O dia da caça
capítulo 22
– QUERO FALAR COM AS TESTEMUNHAS prim eiro. Com o m aior núm ero que puder. Ninguém vai em bora.
A Bubble Lounge tinha estado bem anim ada, m as, quando cheguei, parecia m ais um ferro-velho. Havia m esas viradas, cadeiras quebradas e espalhadas, cacos de vidro por todo lado. Equipes m édicas trabalhavam nos dois pisos: havia seis baleados, um pescoço quebrado e um caso de asfixia. Os param édicos ainda estavam ocupados fazendo a triagem dos feridos. Jovens gem iam e choravam e todas as pessoas pelas quais eu passava pareciam desnorteadas, até os policiais.
Os am igos de Daniel Nj oku estavam detidos na chapelaria. Eu os encontrei sentados no sofá, colados uns aos outros. Um a garota que usava um vestido preto m inúsculo e um blazer m asculino sobre os om bros estava com o pescoço e a face suj os de sangue.
Aj oelhei-m e ao seu lado.
– Sou o detetive Cross. Estou aqui para aj udar. Com o você se cham a?
– Karavi – disse ela. Tinha belos cabelos com pridos, os olhos escuros e assustados, e achei que talvez fosse do leste da Índia. Parecia ter uns vinte e poucos anos.
– Karavi, você conseguiu ver as pessoas que fizeram isso?
– Só um hom em – respondeu ela, em tom de lam ento. – Ele era enorm e.
– Desculpe, senhor – interrom peu um dos outros –, m as precisam os falar com nossos advogados antes de dar qualquer inform ação à polícia.
O rapaz tinha um ar de riqueza; aqueles j ovens estavam acostum ados a passar suas noites de sábado em cabines privativas de clubes exclusivos.
– Você pode falar com igo – insisti com a garota.
– Ainda assim , senhor... – continuou ele.
– Ou – atalhei – podem os fazer isso m ais tarde, ou am anhã. Depois que eu term inar aqui com todos os outros.
– Tudo bem , Freddy – disse Karavi, dispensando o rapaz com um gesto. – Quero aj udar o m áxim o que puder. Daniel está m orto.
Nós nos sentam os em um canto para ter um pouco de privacidade e Karavi m e contou que fazia pós-graduação em biologia celular na Georgetown. Seus pais eram diplom atas e foi por isso que conheceu Daniel Nj oku. Eram ótim os am igos, m as nunca foram um casal. A nam orada de Daniel, Bari Nederm an, tam bém tinha sido baleada, m as estava viva.
Karavi disse que o atirador era negro, devia ter no m ínim o dois m etros de altura e usava roupas pretas.
– Ele parecia sim plesm ente... forte – disse ela. – Tinha braços enorm es, m usculosos. Tudo nele dava a im pressão de ser poderoso.
– E a voz? Ele falou com alguém antes de com eçar a atirar?
Karavi assentiu.
– Eu o ouvi falar algo com o “Tenho um convite” antes de... – Ela se interrom peu, incapaz de concluir a frase.
– Com o era o sotaque? – perguntei. – Am ericano? De algum outro tipo?
Eu estava forçando a barra, pois sabia que j am ais conseguiria um relato tão preciso e sincero quanto naquele instante.
– Ele não era daqui – disse ela. – Com certeza não era am ericano.
– Nigeriano? Ele falava com o o Daniel?
– Talvez. – Ela contraiu o m axilar e conteve as lágrim as. – Não consigo pensar direito. Desculpe.
– Há m ais algum nigeriano aqui? – perguntei, virando-m e para os dem ais. – Preciso de alguém com sotaque nigeriano.
Um dos rapazes se pronunciou.
– Sinto m uito, senhor, m as não há ninguém .
Ele tinha um penteado afro estilo Jim m y Hendrix e usava um a cam isa de sm oking aberta que deixava à m ostra seu peito m agro e seus cordões.
– Eu, por exem plo, falo iorubá. Existem tam bém ibo e hauçá. E dezenas de outras línguas. Não acho que sej a adequado o senhor sugerir...
– É isso! – exclam ou Karavi, colocando sua m ão trêm ula no m eu braço. Notei que algum as outras pessoas do grupo tam bém assentiam . – Era assim que o assassino falava. Exatamente assim!