O dia da caça
capítulo 53
NUMA ESTRADA DE TERRA CASTIGADA pelo sol que serpeava pelo que j á fora um a floresta nos arredores de Koidu, um garoto de 15 anos sufocava lentam ente até a m orte.
Lentamente, porque era assim que Tiger queria que fosse.
Muito devagar, na verdade.
Era importante que seus meninos assistissem àquela morte e que ela servisse de lição para eles.
Ele apertou m ais ainda o esôfago do j ovem soldado.
– Você era m eu braço direito. Confiei em você. Eu lhe dei tudo, até o oxigênio. Está entendendo?
É claro que o garoto entendia. Ele tinha roubado um a pedra, um diam ante. Foi encontrado debaixo de sua língua. Agora ia m orrer por isso.
Mas não pelas mãos de Tiger.
– Você. – Ele apontou para o m ais j ovem dos outros recrutas. – Corte seu irm ão.
Um m enino de no m áxim o 10 anos deu um passo à frente e desem bainhou um a faca Ka-bar com a ponta curva, um presente que Tiger trouxera para ele dos Estados Unidos. Sem nenhum a hesitação, enfiou a lâm ina na coxa do irm ão, então saltou para trás a fim de evitar o esguicho de sangue.
Tiger m antinha sua própria m ão na garganta do ladrão, que, incapaz de gritar, apenas engasgou.
– Agora você – disse ele para o próxim o m enino selvagem . – No seu tem po. Não precisa ter pressa.
Um por um , todos tiveram a oportunidade de dar o golpe que quisessem , de qualquer tipo, desde que não m atassem o ladrão. Esse direito era reservado ao m ais velho – ou ao que se tornaria o m ais velho. “Rocket” era com o o cham avam , por causa da cam isa de basquete verm elha dos Houston Rockets que sem pre usava, chovesse ou fizesse sol.
Tiger se afastou para deixar Rocket dar o golpe de m isericórdia. Não havia m ais necessidade de segurar o ladrão; seu corpo estava m ole e arruinado, havia poças de sangue no chão em volta do seu rosto retalhado. Moscas negras e m osquitos estufados j á pousavam sobre as feridas.
Rocket deu a volta até parar perto da cabeça do garoto. Acariciava displicentem ente a barba rala que nem sequer tinha com eçado a raspar.
– Você é um a vergonha para todos nós – falou. – Mas, acim a de tudo, é um a vergonha para si m esm o. Você era o núm ero um . Agora não é nada! – Então fez o prim eiro disparo, com a arm a na altura do quadril, ao estilo dos gângsteres que sem pre via nos film es am ericanos. – Esse im becil não vai m ais causar problem as – disse.
– Enterrem o corpo! – gritou Tiger para os m eninos.
O im portante era que a carcaça ficasse fora de vista até eles estarem longe dali. Aquele garoto m orto não faria falta a ninguém . Além do m ais, Serra Leoa era um país de porcos e selvagens, onde corpos não reclam ados eram tão com uns quanto capim .
Ele guardou o diam ante roubado de volta com os outros num estoj o de couro preto. Aquilo era o que havia ganhado por um cam inhão de petróleo bruto – e tinha sido um bom negócio. Com o era fácil com prar ou falsificar certificados de origem , as pedras circulariam sem problem as por Londres, Nova York e Tóquio.
Ele cham ou Rocket, que estava cavando a sepultura.
– Pegue o rádio dele antes de enterrá-lo. Fique com ele à m ão o tem po todo, m esm o quando estiver dorm indo.
Rocket bateu continência e voltou para supervisionar os outros, cam inhando com m ais arrogância do que antes. Ele tinha entendido o recado. Pegue o rádio dele. Fique com ele à mão.
Ele era o novo braço direito de Tiger.