O dia da caça
capítulo 86
HAVIA POEIRA POR TODO LADO. Isso provavelm ente era um a boa coisa, pois eles eram obrigados a atirar às cegas – só que eu tam bém era. Àquela distância, o barulho de todos os fuzis disparando era ensurdecedor.
Um dos cavaleiros cruzou a nuvem de poeira e passou a toda do m eu lado. Por instinto, agarrei sua perna e a segurei firm e. O im pulso arrancou m eus pés do chão. Fui arrastado por alguns segundos, m as então o hom em desabou de cim a do cavalo.
Peguei seu fuzil e m antive a arm a aos m eus pés. Disparei e feri m ais um cavaleiro. Depois outro, na barriga. Eles tinham sido arrogantes – afinal, catadoras de lenha não costum avam contra-atacar –, m as não eram bem treinados e, apesar do que Em m anuel dissera, poucas pessoas atiravam com precisão de cim a de um cavalo.
Vi três dos cavaleiros debandarem e baterem em retirada. Isso m e deu algum a esperança – não m uita.
Corri até o cavaleiro caído e o arranquei da m ontaria. Em purrei sua cabeça contra o chão e desferi um soco forte que atingiu a cavidade do seu pescoço.
– Não se m exa! – gritei.
Ele não precisava saber inglês para entender o que eu estava dizendo. Ficou totalm ente im óvel.
– Alex! – cham ou um a voz atrás de m im .
Era Adanne.
Ela e outra m ulher estavam brandindo pedaços de lenha contra a m ontaria do últim o cavaleiro para m antê-lo afastado. Várias outras m ulheres estavam no chão, com as m ãos sobre a cabeça. Eu tinha certeza de que elas achavam que iam m orrer.
Adanne tornou a agitar seu pedaço de m adeira e o cavalo em pinou. O cavaleiro perdeu o equilíbrio e caiu.
– Corra, Alex!
Olhei na direção do som e vi que Em m anuel tinha conseguido se levantar. Ele estava com a arm a apontada para o janjawid.
Saí em disparada.
O cavaleiro caído perto das m ulheres estava acabando de se levantar. Girei m eu fuzil no ar quando cheguei até ele. O hom em olhou para m im a tem po de levar um a coronhada no rosto. Seu nariz explodiu.
– Adanne, tom e esta arm a. Você está bem ? – perguntei.
– Vou ficar.
Em m anuel estava m e cham ando, aos berros.
– Deixe que eles fuj am , Alex! Deixe que eles fuj am !
Não m e contive.
– Do que você está falando? Tem os que capturá-los.
Antes de term inar de falar, eu m e dei conta daquela situação. O mesmo jogo, com regras diferentes.
– Não adianta prender os janjawid – disse Adanne. – Eles têm negócios com o governo. Isso só traria m ais problem as para os cam pos. A ONU não pode aj udar. Ninguém pode.
Fiquei com o fuzil do janjawid e fiz um gesto indicando que ele m ontasse em seu cavalo.
Então aconteceu a coisa m ais estranha do m undo. Ele riu da m inha cara. Foi em bora às gargalhadas.