O dia da caça
capítulo 55
EU ESTAVA DE VOLTA À ativa agora, definitivam ente trabalhando no caso que tinha vindo solucionar.
A cam inhada até a cidade levou cerca de um a hora. Moisés m e contou m uitas coisas no traj eto, em bora tenha dito que nunca ouvira falar de Tiger. Será que eu poderia acreditar nele? Era im possível ter certeza.
Troca de diam antes por petróleo, gás natural, arm as, drogas e todo tipo de m ercadorias ilícitas não era segredo por ali. Moisés, com o todo m undo, sabia que aquilo acontecia. Ele próprio havia trabalhado nas m inas de diam antes da adolescência aos vinte e poucos anos. Até a guerra civil com eçar.
– Agora, eles nos cham am de san-san boys – disse ele.
Im aginei que estivesse se referindo aos que j á não podiam m ais trabalhar, com o ele.
A princípio, fiquei surpreso com a aparente abertura daquele hom em . Algum as de suas histórias pareciam pessoais dem ais para serem com partilhadas com um estranho, especialm ente com alguém que poderia ser um j ornalista am ericano ou m esm o um agente da CIA. Porém , quanto m ais ele falava, m ais eu percebia que contar o que havia acontecido com ele talvez fosse a única coisa que lhe restava.
– Nós m orávam os ali do outro lado – falou, apontando vagam ente para um a direção, sem olhar.
– Minha m ulher vendia óleo de palm a no m ercado. Eu tinha dois filhos lindos. Quando os soldados da FRU chegaram a Kono, vieram nos pegar, com o todos os outros. Era de noite e estava chovendo, então não havia tochas. Eles m e disseram que, se eu assistisse a execução de m eus filhos, poupariam m inha m ulher. Eu obedeci, m as eles a m ataram m esm o assim .
A FRU era a força revolucionária responsável pela m orte de m ilhares de pessoas. Ele falava de um m odo tristem ente natural sobre aquele assunto – o terrível m assacre de um a fam ília inteira, não m uito diferente dos que tinham acontecido em Washington, pensei.
– E você sobreviveu – falei.
– Sim . Eles m e colocaram em cim a de um a m esa e m e seguraram firm e. Perguntaram se eu queria usar cam isas de m angas curtas ou longas depois da guerra. Então cortaram m eu braço, aqui.
Ele apontou, por m ais óbvio que fosse o que tinha acontecido.
– Eles iam cortar o outro, m as então houve um a explosão na casa ao lado. Não sei o que aconteceu depois disso. Desm aiei e, quando recobrei os sentidos, os soldados da FRU tinham desaparecido. E m inha m ulher tam bém . Eles deixaram m eus filhos m ortos. Eu queria m orrer, m as não m orri. Ainda não era a m inha hora.
– Moisés, por que você continua aqui? Não tem para onde ir?
– Não há nenhum outro lugar para m im . Aqui, pelo m enos, tenho trabalho de vez em quando. E tenho m eus am igos, outros san-san boys. – Por algum m otivo, essa revelação o fez sorrir. – Aqui é m eu lar.
Já tínham os feito todo o percurso até a cidade. Koidu era um a vila de ruas de terra e construções baixas, que se expandia desordenadam ente e ainda se recuperava da “guerra” de seis anos antes.
Enquanto passávam os, vi um hospital não term inado e um a m esquita em bom estado, m as, fora isso, para onde quer que eu olhasse, só havia edifícios abandonados, estruturas calcinadas de casas pequenas.
Quando ofereci dinheiro a Moisés por ter m e levado até ali, ele disse que não queria. E entendi que não deveria forçá-lo a aceitar.
– Repita a história que contei para o senhor – pediu ele. – Conte para todos os am ericanos. Ainda existem rebeldes que gostariam de m atar todos nós da época da guerra. Não querem que ninguém vej a o que fizeram . – Ele ergueu o que restava de seu braço. – Então talvez o senhor possa contar aos am ericanos. E eles podem contar às pessoas. Para que elas fiquem sabendo.
– Vou contar, Moisés – prom eti. – Vou contar às pessoas nos Estados Unidos e ver o que acontece.