O dia da caça

James Patterson · Capítulo 89 de 165

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O dia da caça

capítulo 87

 

A ONU NÃO PODE AJUDAR. NINGUÉM pode. Era nisso que os refugiados no cam po de Kalm a acreditavam . Essa era a verdade que eles conheciam e agora eu tam bém .

Mas os sobreviventes sabiam com o dem onstrar gratidão por pequenos favores e boas intenções.

Naquela noite, várias m ulheres usaram sua preciosa lenha para preparar um a refeição para nós três, com o agradecim ento por term os aj udado. Eu não conseguia m e im aginar aceitando com ida daquelas pessoas, m as Em m anuel m e disse que era a única reação apropriada.

Ele m e surpreendeu ao aparecer para o j antar, enfaixado e sorridente, com um saco de cebolas que tinha arranj ado para a ocasião.

Todos nós dividim os kisra e cozido de legum es em volta da fogueira, usando apenas a m ão direita para pegar a com ida de um a tigela com um . Pareceu a coisa certa a fazer, quase com o um a experiência religiosa, especial em m uitos sentidos.

Aquelas eram boas pessoas, presas num a situação terrível, da qual não eram culpadas.

Por outro lado, até elas falavam sem pudores em fazer j ustiça com as próprias m ãos, do tipo que envolve violência. Um a m ulher nos contou, orgulhosa, com o o povo de sua vila lidava com os crim inosos. Todos eles vinham correndo apunhalar o transgressor, colocavam um pneu cheio de gasolina em volta do seu pescoço e então ateavam fogo. Sem j ulgam ento, sem teste de DNA e, ao que tudo indicava, sem culpa por parte dos j usticeiros.

Adanne e eu fom os tratados com o convidados de honra durante o j antar, que contou com um fluxo constante de convidados e m uita im posição de m ãos.

Quando Em m anuel não estava por perto para traduzir, eu conseguia entender o básico das palavras em dinka ou árabe pela ternura nas vozes e pela linguagem corporal das pessoas.

Várias vezes, m e pareceu ter ouvido algo que soava com o Ali no m eio das frases. Adanne tam bém ouviu.

Em determ inado m om ento, ela se inclinou para m im e disse:

– Eles acham você parecido com Muham m ad Ali.

– É isso que estão dizendo?

– É verdade, Alex. Você se parece m esm o com ele quando foi cam peão m undial. Ele ainda é adorado aqui, sabia? – Ela apontou com o queixo e sorriu para um grupo de m ulheres m ais j ovens que andava por ali. – Acho que você arranj ou algum as nam oradas.

– Está com ciúm es? – perguntei, sorrindo. Fazia m uitos dias que não m e sentia tão feliz e relaxado.

Um a garotinha subiu no colo de Adanne sem ser convidada e se enroscou ali.

– Essa palavra não faz parte do m eu vocabulário – respondeu ela. Então abriu um sorriso. – Talvez um pouco. Por esta noite, pelo m enos.

Eu com eçava a perceber que gostava m uito de Adanne. Ela era coraj osa e engenhosa e padre Bom bata tinha razão a seu respeito: era uma boa pessoa. Eu tinha acabado de vê-la arriscar sua vida pelas catadoras de lenha e, além disso, ela se sentia responsável por m im .

Ficam os acordados até tarde, enquanto a m ultidão aum entava a cada m om ento. Na verdade, os adultos iam e vinham , m as as crianças se am ontoavam à nossa volta. Nem eu nem Adanne conseguíam os resistir àquela plateia. Ela se sentia m uito livre e à vontade na presença de crianças.

Com a aj uda de Em m anuel, eu m e levantei e contei um a versão im provisada de um a das histórias de ninar favoritas de m eus filhos.

Era sobre um garotinho cuj o m aior desej o era aprender a assobiar. Dessa vez, eu o cham ei de Deng.

– E Deng tentou... – falei, inchando as bochechas e soprando.

As crianças rolavam um as por cim a das outras, com o se aquela fosse a coisa m ais engraçada que tinham ouvido na vida. Provavelm ente gostavam do fato de eu m e perm itir ser bobo e rir de m im m esm o.

– E ele tentou... – prossegui, arregalando os olhos e soprando bem na cara delas, e o fato de continuarem rindo foi m ais do que um pouco gratificante: foi com o um oásis no m eio de tudo o que havia acontecido desde que eu chegara à África.

– Você gosta de crianças, não é? – perguntou Adanne depois que term inei a história e voltei a m e sentar ao seu lado. Seus olhos estavam m arej ados de tanto rir.

– Gosto. Você tem filhos, Adanne?

Ela balançou a cabeça e m e fitou nos olhos. Alguns segundos depois, falou:

– Não posso ter filhos, Alex. Eu fui... quando era m uito j ovem ... fui violentada. Eles usaram o cabo de um a pá. Não tem im portância. Nem para m im , nem para ninguém . – Então Adanne sorriu. – Mas ainda posso gostar de crianças. E adoro a m aneira com o você lida com elas.