O dia da caça

James Patterson · Capítulo 163 de 165

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O dia da caça

Leia um trecho de outro título do autor

4 DE JULHO

Série Clube das Mulheres contra o Crim e

PARTE 1

NING UÉM SE IMPORTA

capítulo 1

 

FALTAVA POUCO PARA AS QUATRO da m adrugada de um dia de sem ana. Minha cabeça estava a m il quando Jacobi encostou nosso carro em frente ao Lorenzo, um pulgueiro que cobrava por hora apesar de ter a palavra hotel pintada na porta. Estávam os no Tenderloin District de São Francisco, um a área da cidade tão sinistra que nem o sol tinha coragem de atravessar a rua.

Três viaturas da polícia j á estavam estacionadas perto da calçada e Conklin, o prim eiro oficial a chegar, fazia o isolam ento do local j unto com Les Arou, outro policial.

– O que tem os aqui? – perguntei aos dois.

– Um rapaz, tenente – respondeu Conklin. – Branco, m enos de 20 anos, com os olhos esbugalhados. Torradinho da silva. Quarto 21. Nenhum sinal de arrom bam ento. A vítim a está na banheira, com o na últim a vez.

Jacobi e eu sentim os o fedor de m ij o e vôm ito assim que entram os no hotel. Não havia porteiro, elevador ou serviço de quarto. Os hóspedes se escondiam nas som bras, com exceção de um a prostituta de pele cinzenta que puxou Jacobi pelo braço.

– Vinte pratas e dou o núm ero da placa – ouvi a m ulher dizer.

Jacobi lhe entregou um a nota de 10 e recebeu em troca três núm eros num pedaço de papel. Em seguida foi até o recepcionista e fez algum as perguntas sobre a vítim a: se ele dividia o quarto com alguém , se tinha cartão de crédito ou algum hábito que cham asse a atenção.

Desviei de um cara drogado na escada e subi até o segundo andar. A porta do quarto 21 estava aberta e um policial novato vigiava o local.

– Boa noite, tenente Boxer.

– Já é de m anhã, Keresty.

– Sim , senhora – respondeu ele, anotando o horário da m inha chegada e entregando-m e a prancheta para que eu assinasse.

A escuridão do quarto era ainda m aior do que a do corredor. Não havia luz devido a um curto-circuito na caixa de força. Cortinas finas pendiam com o fantasm as à luz da rua. Eu analisava o quebra-cabeça, tentando identificar o que poderia servir com o prova, procurando não pisar em nada im portante. Havia m uitos obj etos e quase nenhum a ilum inação.

Acendi a lanterna e vi os cachim bos de crack j ogados pelo carpete, o colchão m anchado de sangue seco, as pilhas de lixo azedo e as roupas espalhadas. Havia um a copa-cozinha num dos cantos: a boca do fogão ainda estava quente e a pia, entulhada com apetrechos para o consum o da droga.

O ar do banheiro era pegaj oso. Corri a luz da lanterna pelo fio que saía da tom ada da pia, passava pelo vaso sanitário entupido e seguia até a banheira.

Meu estôm ago revirou assim que vi o garoto m orto. Era louro, m agro e quase não tinha pelos. Sentado na banheira, o m enino estava com os olhos esbugalhados e com espum a saindo da boca e do nariz. O fio estava ligado a um a velha torradeira que brilhava sob a superfície da água.

– Merda – com entei com Jacobi assim que ele entrou no banheiro. – Lá vam os nós outra vez.

– É... Torrado ele está – disse Jacobi.

Na qualidade de chefe do Departam ento de Hom icídios, não cabia a m im fazer o trabalho de perícia. Porém , em situações com o aquela, era im possível ficar de braços cruzados.

Outro garoto havia sido eletrocutado, m as por quê? Seria m ais um a vítim a aleatória da violência ou haveria algum m otivo pessoal? Im aginei o pobrezinho se retorcendo de dor enquanto a corrente elétrica passava pelas suas veias até desligar o coração.

A água em poçada no piso encharcava a barra da m inha calça. Em purrei devagar a porta do banheiro com o pé, sabendo m uito bem o que encontraria. As dobradiças, que certam ente nunca haviam sido lubrificadas, rangeram até a porta se fechar por com pleto.

As palavras estavam pintadas com tinta em spray. Pela segunda vez em poucas sem anas perguntei a m im m esm a que diabos elas poderiam significar:

 

NINGUÉM SE IMPORTA

capítulo 2

 

PODERIA PARECER UM terrível suicídio, não fosse o fato de não haver qualquer sinal da lata de tinta. Ouvi Charlie Clapper chegar ao quarto com sua equipe de peritos. Afastei-m e para que pudessem fotografar a vítim a e depois puxei o fio da torradeira da tom ada.

Charlie trocou o fusível da caixa.

– Finalm ente – disse ele assim que a luz voltou a banhar aquele cenário m acabro.

Eu vasculhava as roupas da vítim a sem encontrar um único docum ento que pudesse identificá-la quando Claire Washburn, um a das m inhas m elhores am igas e legista-chefe de São Francisco, atravessou a porta.

– Um horror – alertei-a, acom panhando-a até o banheiro. Claire é um a pessoa m uito im portante para m im e a considero m ais irm ã do que m inha irm ã de sangue. – Minha vontade era...

– O quê? – perguntou ela, calm a.

Tive de engolir o enj oo que subia pela garganta. Estava acostum ada a m uita coisa, m as não ao assassinato de um garoto.

– Meter a m ão na água e puxar o tam pão da banheira.

O corpo parecia ainda m ais castigado sob a luz dos flashes. Claire se agachou j unto à banheira, esprem endo-se naquele espaço m inúsculo.

– Edem a pulm onar – deduziu ao exam inar a espum a rosada que saía da boca e do nariz do garoto. Correndo os dedos pelo roxo dos lábios e das olheiras, em endou: – Ele j á estava m eio alto quando foi eletrocutado.

Apontei para o talho vertical num a das faces.

– E isso aí, o que você acha?

– Bem , tudo indica que o golpearam com a torradeira antes de j ogá-la na água.

Um a das m ãos do rapaz repousava na borda da banheira. Claire a levantou com cuidado e a virou para exam inar a palm a.

– Nenhum a rigidez. O corpo ainda está quente e sem sinal de lividez. Ele com certeza m orreu há m enos de 12 horas, provavelm ente m enos de seis. Nenhum indício de que tenha se picado. – Ela passou a m ão pelos cabelos desgrenhados do garoto e ergueu o lábio superior dele. – Fazia tem po que não ia ao dentista. Provavelm ente fugiu de casa.

– É... – concordei eu, e devo ter ficado calada por alguns segundos.

– E aí, am iga, no que está pensando?

– Acho que tenho nas m ãos m ais um caso sem solução.

Eu m e referia especificam ente a outro adolescente, m orador de rua, assassinado em circunstâncias sem elhantes logo nos m eus prim eiros dias com o chefe do Departam ento de Hom icídios. Um dos piores casos da m inha vida e que ainda m e assom brava, apesar dos 10 anos transcorridos.

– Mais inform ações, só depois que exam iná-lo na m inha m esa – Claire dizia quando Jacobi m ais um a vez enfiou a cabeça pela fresta da porta.

– Fom os inform ados de que o núm ero da placa é de um Mercedes – disse ele. – Um Mercedes preto.

Um m odelo da m esm a cor tam bém havia sido visto na cena do crim e do outro garoto eletrocutado. Abri um sorriso discreto, sentindo a esperança crescer no m eu peito. Tinha de adm itir: estava levando a coisa para o lado pessoal. Encontraria a qualquer custo o canalha que havia m atado aquelas duas crianças e o tiraria de circulação antes que ele pudesse agir novam ente.