O dia da caça
capítulo 5
– EU ESTOU VENDO... UM JORNAL cor-de-rosa – disse Bree.
– Achei! – Ali o encontrou na m esm a hora. – É rosa mesmo. Que raio de j ornal é esse?
Para surpresa e felicidade de m inha fam ília, não saí para o trabalho num horário indecente na m anhã seguinte ao assassinato de Ellie, seu m arido e seus filhos. Eu havia acordado com vontade de levar as crianças a pé para a escola. Na verdade, tinha vontade de fazer isso quase todos os dias, m as às vezes não podia e às vezes sim plesm ente não as levava. Mas, dessa vez, precisava de m uito ar fresco. E de sorrisos. E das risadinhas de Ali.
Jannie estava cursando o últim o ano do ensino fundam ental na Soj ourner Truth, pronta para ingressar no ensino m édio, ao passo que Ali apenas com eçava sua vida escolar. Naquela m anhã, eu tinha um a consciência m uito forte do “ciclo da vida”; a fam ília de Ellie fora dizim ada num piscar de olhos enquanto m eus filhos cresciam fortes e saudáveis.
Coloquei no rosto m inha m elhor expressão de pai alegre e tentei afastar da m ente as im agens terríveis da noite anterior.
– Quem é o próxim o? – perguntei.
– Eu! – gritou Jannie, dando um sorriso m alicioso para Bree e para m im . – Eu estou vendo... duas PSOMJ.
– O que é psomj? – quis saber Ali.
Ele j á estava olhando de um lado para outro, parecendo um desses bonecos que ficam balançando a cabeça, tentando encontrar as psomj, independentem ente do que fossem .
Jannie praticam ente cantou a resposta:
– P, S, O, M, J. Pessoas de Sexos Opostos que Moram Juntas.
Ela sussurrou a palavra sexo na nossa direção, talvez para proteger a inocência do irm ão caçula. De qualquer form a, senti que estava ficando um pouco verm elho.
Bree cutucou o om bro de Jannie.
– Posso saber de onde você tirou isso?
– Cherise J. Ela falou que a m ãe dela diz que vocês estão... bem ... vivendo em pecado.
Troquei um olhar com Bree por cim a da cabeça de Jannie. Esperava que isso fosse acontecer m ais cedo ou m ais tarde. Bree e eu estávam os j untos havia m ais de um ano e ela passava bastante tem po na m inha casa. Em parte, porque as crianças gostavam de tê-la por perto e, em parte, porque eu tam bém adorava isso.
– Acho que você e Cherise J. precisam encontrar outros assuntos sobre os quais conversar – falei. – Não é?
– Ah, tudo bem , pai. Eu disse a Cherise que a m ãe dela precisa deixar isso pra lá. Até Nana Mam a j á se acostum ou e, se você abrir um dicionário, vai ver a foto dela abaixo da palavra “antiquado”, né?
– Com o se você soubesse o que um dicionário tem dentro dele – provoquei.
Mas Bree e eu tínham os parado de tentar ser politicam ente corretos com Jannie, então apenas nos perm itim os rir. Minha filha estava naquela fase de “transição”; no m eio do cam inho entre m enina e m ulher.
– Qual é a graça? – perguntou Ali. – Me contem . O que foi?
Eu o levantei e o sentei nos m eus om bros pelo últim o m eio quarteirão de nossa cam inhada até a escola.
– Daqui a m ais ou m enos cinco anos eu conto.
– Eu j á sei m esm o – disse ele. – Você e Bree se am am . Todo m undo sabe disso. Não tem o m enor problem a. É um a coisa boa.
– É, sim – concordei, virando o rosto e dando um beij o em seu j oelho.
Nós o deixam os na entrada lateral da escola, onde sua turm a j á estava fazendo fila do lado de fora.
– Tchau! Eu te am o – gritou Jannie para ele através da grade.
– Tchau! Eu tam bém .
Desde que Dam on, o irm ão m ais velho deles, fora fazer um curso preparatório em Massachusetts, os dois ficaram cada vez m ais unidos. Nas noites de fim de sem ana, Ali geralm ente dorm ia ao pé da cam a da irm ã, num colchão inflável que ele cham a de seu “ninho”.
Deixam os Jannie do outro lado do prédio, onde todas as outras crianças m ais velhas entravam de m odo desorganizado. Ela nos abraçou para se despedir e eu a segurei um pouco m ais do que o norm al.
– Eu te am o, querida. Você e seus irm ãos são a coisa m ais especial da m inha vida.
Jannie não pôde deixar de olhar à sua volta para garantir que ninguém tinha escutado.
– Eu tam bém , papai – respondeu. Então, sem nem respirar, em endou: – Cherise! Espere!
Assim que Jannie sum iu de vista, Bree enlaçou m eu braço.
– O que foi aquilo? – perguntou. – “Você e Bree se am am . Todo m undo sabe disso”?
Dei de om bros e sorri.
– Com o é que vou saber? Parece que há um boato correndo por aí.
Eu a beij ei.
E, com o o prim eiro beij o tinha dado tão certo, aproveitei para dar outro.