O dia da caça
capítulo 81
NA BASE EM NYALA, CONSEGUIMOS um a carona até o cam po de Kalm a em um com boio de cinco cam inhões que levava sacos de grãos e caixas de leite em pó. Adanne parecia conhecer todo m undo ali e achei interessante observá-la trabalhar. O segredo certam ente era seu sorriso sim pático, não o fato de ela ser atraente. Eu a vi ter sucesso várias vezes com pessoas que estavam sobrecarregadas de trabalho e no lim ite do estresse.
Campo não m e pareceu a palavra correta quando de fato vi Kalm a.
Sim , havia tendas, construções de m eia-água e cabanas de palha, m as elas se estendiam por quilôm etros e quilôm etros. Ali viviam 150 m il pessoas. Era uma cidade. Tom ada por sofrim ento insuportável, angústia e m orte causados por tudo, de ataques de janjawids a disenteria e partos sem m edicam entos – e geralm ente sem nem um m édico ou um a parteira.
Perto do centro do cam po, finalm ente vi alguns sinais de habitação. Um a pequena escola a céu aberto estava funcionando e era possível ver algum as construções m uradas com telhados de zinco, nas quais um a quantidade lim itada de provisões ainda estava disponível.
Adanne sabia exatam ente aonde deveríam os ir prim eiro. Ela m e levou até a tenda do Alto Com issariado das Nações Unidas para os Refugiados, onde um j ovem soldado concordou em ser nosso tradutor, em bora m uitos dos refugiados soubessem um pouco de inglês.
Seu nom e era Em m anuel e ele tinha o m esm o corpo m agro e m usculoso, a pele negra e os olhos fundos que eu j á vira em tantos dos Garotos Perdidos que haviam im igrado para Washington ao longo dos anos. Em m anuel falava inglês, árabe e dinka.
– A m aioria das pessoas aqui é da etnia fur – disse ele quando com eçam os a seguir por um a longa avenida de terra. – E 80% das m ulheres sofreram abuso sexual.
– A m aior parte dos hom ens está m orta, procurando em prego ou tentando ser reassentada – acrescentou Adanne. – Esta é a cidade m ais vulnerável do m undo, Alex. Você vai perceber isso sozinho.
Era fácil ver sobre o que Adanne e Em m anuel estavam falando. Quase todas as pessoas com quem conversam os eram m ulheres que trabalhavam em frente aos seus abrigos. Elas m e faziam lem brar de Moisés e seus am igos, pois estavam ávidas por com partilhar suas terríveis histórias com alguém de fora.
Um a m ulher, Madina, chorou enquanto tecia um a esteira de palha e nos contava sobre sua vinda para Kalm a. Os janjawid tinham destruído sua vila, m atado e esquartej ado seu m arido, sua m ãe e seu pai. A m aioria dos seus vizinhos e am igos havia sido queim ada viva em suas cabanas.
Madina chegara ali com três filhos e nada m ais. Infelizm ente, todos os três m orreram no cam po.
Havia m uita procura pelas esteiras que ela fazia porque, à noite, verm es saíam do chão e se enfiavam na pele dos refugiados. Tudo o que ela ganhava usava para com prar cebolas e grãos, m as esperava conseguir j untar o suficiente para com prar um pedaço de tecido um dia. Usava o m esm o toab desde que chegara ali.
– Quando foi isso? – perguntou Adanne.
– Três anos atrás – foi a triste resposta de Madina. – Um para cada filho m eu.