Terra
Capítulo 9
Ele, o meu irmão.
Ele, que se foi afastando de mim à mesma velocidade a que se aproximava do meu pai, sobretudo quando a única coisa que ainda nos unia, a minha mãe, morreu.
Acho que foi aí, nesse funeral, em que houve tanto dinheiro de sobra quanto falta de carinho, que percebemos que, ao mesmo tempo que nos abraçávamos, também nos despedíamos.
Porque, quando a nossa mãe morreu, desapareceu com ela aquilo que nos mantinha unidos: todas as visitas que fizemos ao lar, as chamadas para nos perguntar como estava, para saber se a tínhamos achado melhor, se parecia mais animada, se tínhamos notado algum progresso nos últimos dias…
Assim permanecemos durante muitos meses: a partilhar momentos na sala de espera, a sussurrar tristezas à volta de um café, a passear pelo jardim daquela prisão vestida de branco, enquanto ela era sujeita a algum tratamento… em suma, a ver a nossa mãe escapar-nos por entre os dedos, enquanto a vida se lhe ia a cada sopro…
Com a sua morte, os nossos caminhos foram-se afastando lentamente. As chamadas tardavam cada vez mais, as mensagens eram mais curtas, os silêncios, mais prolongados. Até chegar o dia em que não houve contacto; deixámos simplesmente de falar. Não aconteceu nada de especial, e talvez isso, a ausência de motivo, tenha sido o mais triste de tudo.
E agora ali estava ele, a apanhar o copo que o meu pai, que o nosso pai, não conseguira segurar.
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