Terra

Eloy Moreno · Capítulo 71 de 205

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Terra

Capítulo 71

Foi uma viagem longa, feita, sobretudo, de silêncios. Ali estávamos nós, dois irmãos que, no passado, tinham sido tudo um para o outro e, agora, mal sabiam de que falar.

Depois de mais de seis horas em que nos fomos revezando ao volante, chegámos à pequena povoação. Parámos no primeiro café que encontrámos, para perguntar pelo nome acerca do qual tão pouco sabíamos.

— Os Wokz? Sim, claro, é muito fácil — respondeu o empregado. — Basta seguirem a rua principal até ao fundo da povoação. Aí encontrarão um parque e várias casas em volta. A que mais se destaca é a deles.

— A que mais se destaca? — perguntei.

— Uma branca, com ares de mansão. Vão reconhecê-la, porque tem duas colunas douradas à entrada — disse, a sorrir.

Estávamos a beber um café ao balcão, quando, passados poucos minutos, se aproximou um homem que se encontrava a alguns metros, com uma cerveja na mão.

— Ninguém sabe muito bem onde aquela bruxa vai buscar o dinheiro — sussurrou, o hálito tresandando a álcool.

— Quem é a bruxa? — perguntei.

— A mãe, a mãe… — E bebeu um gole. — De repente, de um dia para o outro, mudou de casa. Éramos vizinhos, vivia mesmo ao meu lado… Também comprou um carro, dos caros…

Voltou a pegar no copo e bebeu-o de uma assentada. Deixou-o vazio em cima do balcão e continuou:

— Ninguém sabe muito bem de onde veio o dinheiro. Ela diz que é de uma herança, mas não acredito. Há ali mais. Aquela cabra está a esconder alguma coisa.

— Já chega — disse-lhe o empregado de mesa, enquanto limpava o líquido que tinha entornado. — Não lhe liguem. Está com os copos, como quase todos os dias.

O homem afastou-se e instalou-se ao fundo do balcão, sem parar de olhar para nós. Não voltou a falar.

Pagámos o café e saímos.

— A que propósito veio aquilo? — perguntou-me o meu irmão.

— Parece que a mulher não tem muito boa fama…

Entrámos no carro e continuámos até ao fim da rua.

Tal como o empregado do café dissera, a casa distinguia-se perfeitamente: grande, branca, com duas colunas douradas, mesmo ao lado do parque. Uma pequena mansão, comparada com o resto das residências da terra, embora, numa zona chique de qualquer grande cidade, fosse certamente a casa mais pequena.

— Muito bem. E agora? — perguntou-me o meu irmão.

— Vamos à procura da chave seguinte. É disso que se trata, certo?

Aproximámo-nos da entrada e tocámos à campainha.

Poucos segundos depois, uma mulher veio abrir.

— Bom dia, em que posso ajudá-los?

— Bom dia — respondi. — Procuramos a senhora Wokz.

— Lamento, mas a senhora não recebe visitas a esta hora. Se quiserem deixar-me o vosso cartão, ela liga-vos mais tarde.

— Diga-lhe que viemos de muito longe para falar com ela. Serão apenas alguns minutos — insisti.

— Lamento. Já lhes disse que não os pode receber.

— Muito bem — interrompi. — Diga-lhe então que viemos cancelar as suas transferências periódicas, as que pagam esta casa, as suas despesas e, suponho, o seu ordenado também.

Nesse momento, o meu irmão ficou a olhar para mim, surpreendido.

A mulher fechou-nos a porta na cara, e descemos a escadaria em direção à rua.

Antes de chegarmos ao carro, ouvimos a porta abrir-se de novo.

— Desculpem, desculpem! — gritou da entrada. — Lamento imenso, mas, às vezes, os vizinhos são muito incómodos, e a minha senhora prefere não ter de falar diretamente com eles.

Olhámos um para o outro e sorrimos. Foi o primeiro grande sorriso que trocámos desde há demasiados anos. Entrámos no salão principal e, dali, passámos para uma pequena sala.

— Olá — cumprimentou-nos uma mulher de meia-idade, do sofá, sem esconder o ar de surpresa. — Vocês… vocês são os filhos dele, não é?

— Sim, é verdade — respondeu o meu irmão.

— É um prazer tê-los aqui. Lamento imenso o que se passou, mas há tantas visitas desagradáveis, pessoas a vender coisas, outras a pedir dinheiro, pessoas que incomodam…

Sentámo-nos à sua frente.

— Também lamento imenso pelo vosso pai. Muito difícil…

— Obrigado — respondeu o meu irmão. — Viemos precisamente por isso. Fiquei agora à frente de todas as contas — mentiu — e estou a rever os pagamentos, os contratos… Não se sei se me entende. Verifiquei que há umas transferências mensais em nome de Oliver Wokz.

— Sim, é o meu filho, o meu menino.

— Como lhe dizia, estou a rever as despesas, e gostava de saber a que se devem estes pagamentos.

A mulher ficou um pouco nervosa.

— Bem… assinei um contrato com o seu pai, na eventualidade de um dia precisar de um rapazinho como ele para um anúncio, para um programa… Mas já tive muitas vezes auditorias das finanças, e está tudo certo. Pago os meus impostos, é tudo legal, tenho a papelada toda…

— Sim, sim, não temos qualquer dúvida acerca disso. Mas, ao que consta, o seu filho nunca apareceu em nenhum programa. Continuo sem perceber porque continua a receber esse dinheiro.

— Não sei. O seu pai sugeriu-nos este acordo. Na verdade, foi ele que veio aqui pessoalmente para assinar o contrato.

— O meu pai? O meu pai veio cá? — perguntou o meu irmão, surpreendido.

Olhámos um para o outro e percebemos que havia ali algo estranho. O nosso pai não era pessoa de andar a visitar casas particulares. Aquele rapaz devia ser muito mais importante do que pensávamos.

— Sim, o seu pai veio cá, e assinámos o contrato. E fez-me prometer que a coisa ficaria entre nós, que nunca revelaria nada acerca do mesmo — insistia a mulher.

— O meu pai pode ter combinado isso consigo, mas eu preciso de saber a verdade, caso contrário, terei de anular tudo.

Vimos uma das pálpebras da mulher começar a tremer.

— Está bem, mas aquilo que vos vou contar não é fácil.

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