Terra
Capítulo 30
— Obrigado… sim, obrigado, obrigado, obrigado! — gritou o apresentador. — A Humanidade deve-vos imenso, Centinel. Obrigado pelo muito que trabalharam para que, em alguns meses, os oito escolhidos possam aí viver. Obrigado também às empresas que o tornaram possível e aos países que colaboraram para que este projeto alcance uma escala mundial. Obrigado, do fundo do coração.
Mais um aplauso extraordinário.
— Pois é, Steven. Graças ao seu trabalho, podemos continuar com este projeto maravilhoso. É admirável tudo o que fizeram em quase dois anos. Dois anos!
— Incrível, Alison! Já se passaram dois anos, e estamos finalmente aqui e… Querem saber quem são os escolhidos?! — gritou de novo o apresentador.
— Siiim! — rugiu o público.
— Claro que sim! Bem-vindos e bem-vindas a esta viagem só para corajosos, uma viagem apenas de ida!
Mais aplausos.
— Sim, Steven. Hoje, finalmente, vamos saber quem são esses oito audazes. Hoje, vamos conhecer os novos habitantes de Marte. Quatro homens e quatro mulheres.
— Será a primeira colónia de civis a viver de forma permanente noutro planeta. É mesmo incrível… Mas passemos àquilo por que aguardamos há tanto tempo.
— Sim, mas, antes de revelar os nomes, vamos entrar em contacto com o centro onde se prepararam durante estes últimos meses.
No grande ecrã, apareceram os trinta candidatos: quinze homens e quinze mulheres. Todos eles sentados nuns estranhos bancos em forma de semicírculo.
— Olá! — exclamou a apresentadora.
— Olá! — gritaram todos, a sorrir.
— Que prazer ver-vos aí! Nervosos? Chegou o dia por que todos esperavam… suponho que sabem o que tenho nas mãos — comentou, com um sorriso. — Tenho aqui os envelopes com os nomes dos oito escolhidos, nem mais nem menos!
Na realidade, ninguém conhecia muito bem o processo pelo qual os vencedores seriam selecionados. Dera-se a entender que, depois de ultrapassados os testes psicológicos, de atitude e de convivência, seriam os espectadores que, com os seus votos, escolheriam os oito vencedores. Mas, na verdade, não era assim. A ideia das votações era apenas um mecanismo para obter mais dinheiro para o projeto.
Durante os últimos meses, uma equipa de hackers manipulara as redes sociais com milhares de perfis falsos, para que as pessoas sentissem mais empatia por determinados candidatos, os preferidos da organização. Tal como se fizera em algumas eleições norte-americanas, no Brexit ou em determinadas ações relativas à Amazónia ou à Gronelândia… todo o processo estava adulterado.
Levara-se as pessoas a acreditar que o seu voto teria grande importância, pelo que milhares, milhões, de pessoas tinham enviado a sua mensagem — mediante pagamento — para o programa, apoiando o seu candidato preferido.
— Como todos sabem — continuou a apresentadora —, a participação inicial no concurso foi extraordinária. Tenho aqui os números: 1 300 454 participantes. E, entre todos eles, vocês, os espectadores, através das vossas votações, selecionaram os trinta que aqui se encontram.
Estas palavras fizeram o público rebentar numa salva de palmas.
— Mas lamento, malta. Nem toda a gente pode ir para Marte. Por enquanto, apenas oito o conseguirão. Futuramente, alargaremos a colónia e… quem sabe, talvez um dia consigamos que ali nasça um ser humano.
Na verdade, esse assunto, o dos nascimentos em Marte, suscitara grande polémica… e uma ou outra morte.
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