Terra
Capítulo 89
A noite avança sobre um homem que foi passando pelas várias fases do programa sem ajuda de ninguém, pelos trâmites normais. É apaixonado por plantas, mas não se trata apenas de um hobby; na realidade, elas são o seu refúgio. Quando ele, num acidente de automóvel, acabou com toda a vida que existia à sua volta, decidiu que, a partir desse momento, deveria dedicar-se ao oposto: a criá-la.
Assume também que ganhou o carinho do público graças àquilo que ocorreu no passado, graças a uma história que não quis esconder, por isso, mal entrou no concurso, decidiu contá-la.
Essa confissão, aliada ao seu atraente físico, criou um cocktail que fez com que se posicionasse rapidamente entre os favoritos.
Senta-se na cama, mas não tem sono. Lembra-se de pegar no portátil para ver o que se passa nas redes sociais, mas há algum tempo que o aborrecem, e acaba por abandonar a ideia. Embora ainda não saiba, se se tivesse ligado nessa noite, teria descoberto o que se ia passar a apenas alguns metros do seu quarto. E talvez isso o tivesse feito mudar de planos.
Por último, a noite envolve uma rapariga que não sabe onde se encontra o botão para voltar atrás num capricho. Acaba de perceber que vai viver num quarto mais pequeno do que a casota do cão. Agora, que a realidade a atingiu, tem a esperança de dormir e de, no dia seguinte, tudo não ter passado de um pesadelo. E de assim voltar a acordar na bonita cama da sua mansão; pedir que lhe façam o pequeno-almoço e, depois de um duche quente, pegar num dos seus carros, o desportivo vermelho, por exemplo, e voar com ele para casa das amigas, para, todas juntas, irem apanhar sol na praia privada que é propriedade do pai.
Tem esperança de acordar, para poder contar aos seus seguidores que esteve em Marte, que a viagem foi agitada, que o quarto era pequeno e o pôr do sol, magnífico; para lhes dizer que passeou pelo planeta com os seus ténis novos, que vestiu um fato muito giro, que a comida era asquerosa e que a água não sabia a água. Gostava de lhes poder contar tudo isso da esplanada do hotel mais na berra, a dançar ao ritmo da música e com um copo na mão.
Fecha os olhos, cerra-os com força, para conseguir que lhe doam mais do que os pensamentos. Passam os minutos, as horas… e não consegue dormir. Não consegue, porque sabe que, desta vez, o problema não se vai resolver ligando para casa.
E, de repente, dentro do silêncio que cobre toda a colónia, uma das câmaras do corredor deteta movimento e ativa-se.
Uma sombra começa a andar pelo corredor.
Imediatamente, como um organismo vivo que nunca descansa, as redes sociais entram em movimento, intuindo que algo estranho se passa.
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