Terra
Capítulo 5
Sim, o meu pai, um homem que começou a trabalhar tanto, que, um dia, se esqueceu de que, algures, à sua volta, existia uma família. Um homem que, mais depressa do que qualquer filha teria desejado, começou a trocar beijos por moedas, abraços por presentes e amor por promessas.
E eu estava ali por um único motivo: Nellyne.
Era o que estava escrito no envelope que chegara a minha casa. Se tivesse escrito Nel ou Nelly, como das outras vezes em que recebera o mesmo convite, certamente, não teria ido. Mas, desta vez, pela primeira vez, estava escrito Nellyne.
Nessa noite, cheguei sozinha, entrei por uma porta traseira, mostrei as minhas credenciais, e o meu apelido fez o resto. Apesar de ter recusado, o pessoal de segurança privada da empresa acompanhou-me até ao palco presidencial, algo que, tendo em conta o que se passou depois, me salvou a vida. Reservara-me o melhor lugar, na primeira fila, a poucos metros dele.
Por isso, quando subiu ao palco, foi inevitável que os nossos olhares se cruzassem. E, ali, entre o barulho dos aplausos, a chuva de flashes e a grande distância afetiva que nos separavam… olhámo-nos. Vi os seus lábios desenharem uma palavra no ar: Nellyne.
Apenas três pessoas me chamaram por esse nome: uma delas estava morta, a outra desaparecera da minha vida havia muitos anos, e tinha a terceira à minha frente nesse instante.
Nellyne. Uma palavra que começou a esbater-se na minha mente, que me conduziu a um passado que, para mim, sempre esteve demasiado distante. Talvez tenha sido isso — a esperança de voltar ao lugar em que fui feliz — a convencer-me a estar ali presente, naquela noite. Nellyne. Era assim que me chamava na única altura em que se comportou como um pai.
Vivíamos numa pequena aldeia rodeada por um bosque magnífico, que percorríamos juntos aos fins de semana. A dez minutos de distância, havia também um rio onde tomávamos banho no verão e pescávamos no inverno. Quase não tínhamos dinheiro, mas tínhamo-lo a ele. Foram anos felizes. Até que tudo começou a mudar, no dia em que apareceu com aquela maldita câmara.
Ao início, adorámos a ideia, um brinquedo novo com que podíamos fazer os nossos próprios filmes. No entanto, aquilo que começou por ser um passatempo transformou-se, aos poucos, numa obsessão e, por fim, numa profissão que nos expulsou a todos da sua presença; bem, quase todos. Sempre pensei que, se aquela câmara não tivesse aparecido, tudo teria sido muito diferente… as nossas vidas, a relação que tínhamos uns com os outros, nós próprios…
Mas começou a ficar obcecado. Gravava sem parar e, depois, de noite, víamos os filmes. A minha mãe morria de vergonha, mas eu e o meu irmão, de início, adorávamos. Lembro-me de ele fazer testes comigo, de nos rirmos juntos por determinada cena ficar tão má; de, a meio de uma filmagem, nos dar um ataque de riso e termos de interromper…
No entanto, com o passar do tempo, foi-se esquecendo de me chamar Nellyne… os seus sonhos começaram a ser tão grandes, que tudo o resto — e nesse tudo o resto estávamos nós — à sua volta desapareceu.
Demorou alguns segundos a recomeçar a falar, em voz baixa, como se, na realidade, não quisesse dizer nada, como se as palavras, em vez de lhe nascerem da garganta, saíssem da sua consciência, na hipótese de ainda restar algo dela.
— Boa noite… — E fez-se novo silêncio. — Quem me viu e quem me vê? Mas, enfim, cheguei aqui, o que não é coisa pouca.
Ouviram-se risos e um aplauso que se prolongou durante vários minutos, enquanto ele erguia as mãos lentamente, para pedir que parassem.
— Esta será a minha última aparição pública. Esta noite, despeço-me do mundo da televisão, um mundo que me deu várias alegrias, que me fez viver muito… Mas tudo chega ao fim, tenho de dar lugar às novas gerações. O meu corpo disse-me que chega…
Nesse momento, a sala emudeceu.
O meu pai fechou os olhos e engoliu a saliva.
Devido à sua magreza extrema, quase conseguimos ver essa saliva atravessar-lhe a boca, percorrer-lhe a garganta e cair num corpo que se perdia no interior do smoking. Aproximou-se devagar do microfone e disse aquilo que toda a gente já sabia.
OceanofPDF.com