Terra
Capítulo 63
Os seis meses de viagem tornaram-se eternos, tanto para os escolhidos como para uma organização que não sabia muito bem como conseguir que as audiências não abandonassem o programa. Nos primeiros dias, tudo era novo: a comida, a forma de a consumir, a ida à casa de banho, a lavagem dos dentes, os preparativos para dormir… tudo era testemunhado com um entusiasmo extraordinário. Mas, aos poucos, esta novidade foi-se dissipando, e chegou o momento em que ver oito pessoas, praticamente sem nada que fazer, num espaço tão reduzido não era nada divertido, mesmo que essas pessoas estivessem a realizar um feito histórico.
Felizmente, o ser humano consegue gerar conflitos onde quer que vá, e, com o passar das semanas, surgiram algumas divergências. Qualquer pequena mania num espaço mínimo como o daquela nave espacial podia transformar-se num drama: alguém que não põe algo no devido lugar, um companheiro que comeu mais do que aquilo que estava definido, o facto de não se respeitar determinado turno…
Mas não há nada como o amor para gerar conflito e audiências. A organização dava como adquirido que, com quatro homens e quatro mulheres a partilhar uma área tão reduzida, em breve, o amor se manifestaria, ou, pelo menos, a atração física. E, claro, sabiam que, com o amor, surgiria o ciúme. Com esse cocktail, os conflitos estavam assegurados.
Assim aconteceu. Durante a viagem, dois dos eleitos começaram a sentir-se atraídos um pelo outro. De início, foram apenas pequenos sussurros que as câmaras captavam de vez em quando, carícias suaves quando passavam um pelo outro, um abraço inesperado sem sentido aparente, contactos visuais… algo que, talvez ali, no interior da nave espacial, podia passar despercebido, mas que as redes sociais se encarregavam de empolar.
A organização tentou aquecer o ambiente, repetindo cada imagem de afeto até à saciedade, em câmara lenta, com música, o que, claro, também foi estimulando o público e, naturalmente, os anunciantes.
Por exemplo, transmitiu-se um programa em que se explicavam as várias possibilidades de praticar sexo em órbita. Tinham-se realizado diversas experiências numa viagem anterior, concluindo-se que havia apenas quatro posições sexuais possíveis, sem que se utilizassem cintos ou algum tipo de ancoragem. Fizeram-se simulacros com bonecos que divertiam o público, e, nas redes sociais, instigavam-se os participantes a pô-las em prática.
Várias páginas porno, na Internet, aproveitaram o embalo e filmaram muitas cenas a simular relações no espaço. Uma dessas páginas, a mais consultada pelas crianças entre os nove e os doze anos, realizou um filme porno completo com oito adolescentes muito parecidos com os candidatos.
E eis que teve lugar o primeiro beijo.
Como se constituíssem um ser com vida própria, as redes sociais conseguiram que as imagens corressem mundo em apenas alguns segundos.
Foi um beijo breve, quase involuntário, daqueles que se dão por acaso, dos que conseguem arrastar o sabor da incerteza, mas, mesmo assim, um beijo.
As imagens passaram rapidamente de dispositivo em dispositivo, e, em apenas alguns segundos, havia muito pouca gente na Terra que não soubesse o que se passara.
As redes sociais encheram-se de vídeos de felicitações, de palavras bonitas, de corações, de flores… Encheram-se de açúcar e de mel… davam os parabéns aos dois protagonistas do primeiro beijo em órbita.
«Esperemos que seja o início de algo maravilhoso», «Que lindo», «Que bonito», «É amor», «Felicidades», «Ohhh», «Adoro», «O casal perfeito»… O problema sobreveio quando, passados poucos dias, a mesma cena se repetiu, mas com um protagonista masculino diferente.
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