Terra
Capítulo 51
Dentro daquela caixa, havia uma carta do meu pai. Uma carta que não soube compreender nesse momento.
Quem vive? Quem morre? Quem decide? Podias ser tu, Nelly? Serias capaz de dizer algo
semelhante?
Imagina que amanhã tens à tua frente mil pessoas, mas que só podem viver cem, não existe
outra opção. Imagina que és tu a decidir quem morre e quem vive… Que farias, como decidirias?
Sim, Nelly, sei a tua resposta: tentarias salvá-las todas. Mas… e se fosse impossível? Se só
pudesses salvar cem? Far-me-ias um discurso para me convenceres de que todas elas têm o mesmo direito a viver. Mas terias de decidir.
Para mim, em contrapartida, seria mais fácil, porque me apercebi de que nem todas as
pessoas são iguais. O ladrão não é igual ao polícia, o assassino não é igual ao médico, aquele que investe mil horas a construir a sua empresa é diferente de quem passa o dia no bar sem fazer nada, a criança que estuda não é igual à criança que importuna… E, se quiseres um exemplo definitivo, olha para nós, Nelly, para ti e para mim. Eu e tu não somos iguais.
Odeias-me há anos, e eu, pelo contrário, não deixei de te amar, um só dia que fosse, desde o
primeiro instante em que te tive nos braços. É verdade que te amei à minha maneira, que talvez não tenha sido aquela de que precisavas… Mas amei-te da mesma forma quando não medias nem um palmo e me davas a mão para conseguires andar, como quando, num tribunal, cara a cara, tentavas fazer com que me metessem na prisão.
Sabia que não querias voltar a esta cabana apenas por causa de um jogo, mas a coisa muda
quando há um anel, não é verdade? Há quantos anos andas a tentar encontrar uma pista fiável que te conduza à lista? Uma lista que existe. Imagino que, por esta altura, já tenhas confirmado que fazes parte dela.
Também sei que vais continuar a pensar que essa marca que tens no pulso foi culpa minha, e
talvez, em parte, seja verdade, talvez tenha sido eu o responsável… Mas há outro lado, sabes? O nosso, aquele que não nos agrada, o que não queremos ver: tudo o que nos acontece é culpa nossa também. Sim, fechei-vos nesta cabana, mas a decisão de introduzir a mão no guarda-fogo foi tua. Havia mais opções, muitas mais. Podias tê-lo levantado de outra forma ou ter pedido ajuda ao teu irmão… Sim, estou a imaginar a tua cara neste instante e a tentar adivinhar o que me dirias se estivesse à tua frente. Dir-me-ias que tinhas apenas dez anos…
Depois do que se passou na cabana, fomo-nos afastando: ambos pusemos um preço
demasiado alto na nossa relação. Mas também é verdade que o teu ódio não começou ali, sei que já vinha de trás. Talvez tenha tido origem na minha maneira de te educar, na minha autoridade, nas minhas exigências. Na verdade, fi-lo porque foste sempre muito madura para a tua idade e porque pensei que, ao exigir-te cada vez mais, poderia conseguir o melhor de ti. Vejo que me enganei. Ou talvez também me tenhas culpado por me ter afastado da mãe. Mas, às vezes, não se pode forçar o amor, e entre mim e a tua mãe… Poderia dizer-se que tínhamos visões muito diferentes da vida. Sei que todas estas palavras não vão melhorar nada, mas que importa isso neste momento? Terá valido realmente a pena, terá valido a pena estar tanto tempo sem falar?
Suponho que muita gente, tal como tu, irá pensar que vou para o único lugar em que poderia
estar: o Inferno. Um lugar que os seres humanos inventaram para aterrorizar os próprios seres humanos.
Também sei que muitos se alegrarão com a minha morte. Não quero saber. Tomei uma
decisão, e, na verdade, foi uma decisão fácil, sobretudo, porque já não tenho opção.
É isso ou continuar a sobreviver à morte. Não sabes o que é urinar todas as noites na cama,
não conseguir estar de pé mais de dez minutos sem ter de me apoiar em alguma coisa, depender de outras pessoas… Não imaginas como dói terem de me levar à casa de banho, despir-me diante de uma estranha para que me lave…
Isto já não é viver, menos ainda para alguém que viveu como eu. Quando se esteve tão
próximo de ser um deus, não se pode viver assim…
Mas, claro, não quero partir como um simples velho, na cama de um hospital caro. Seria
demasiado comum. Não posso partir sem aparecer numa última capa.
No entanto, antes de me despedir, queria deixar algumas coisas tratadas, e isso incluía-te a
ti, Nelly.
Há muitos anos, nesta mesma cabana em que se encontram, prometi-vos que, se acabassem o
jogo, vos concederia o desejo que quisessem ver concretizado. Na altura, o jogo foi interrompido, por isso, sinto-me na obrigação de te dar uma nova oportunidade de o continuares, para realizares esse teu desejo.
O Alan já conseguiu, mas tu ainda não. Sei que a tua resposta não foi frívola. Como te disse,
foste sempre muito madura para a tua idade. Naquele momento, soube que estavas a pôr-me à prova. Procuraste mentalmente um desejo que não te pudesse conceder, que não conseguisse satisfazer, mas impossível é apenas aquilo que não se tenta.
E, sim, posso dizer que, desde esse dia, tenho andado a construir esse teu desejo, procurei
forma de o satisfazer, de te mostrar que não há impossíveis.
Finalmente, consegui, mas tens de o conquistar. Tens de terminar o jogo.
OceanofPDF.com