Terra

Eloy Moreno · Capítulo 201 de 205

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Terra

Capítulo 204

Eva

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Desde esse dia, já se passaram dois anos.

Dois anos desde que encontrei Terra na Terra, à minha frente, com outro nome, mas com os mesmos olhos. Com o corpo salpicado de cicatrizes à volta do pescoço, todas as que se fixaram no espaço entre o capacete que John lhe colocou e um fato que lhe ficava grande.

John, um homem que, agora, com os seus enormes óculos de sol e a sua barba hirsuta, tenta disfarçar as queimaduras que ganhou quando, no solo, tirou o próprio capacete para o pôr na pequena Terra. Ele próprio pôde apenas utilizar uma simples máscara de oxigénio, que, pelo menos, lhe protegeu a parte central do rosto.

John, um militar com experiência de combate, um homem que participara como mediador em muitos conflitos internacionais. Uma pessoa capaz de manter a calma, mesmo nas situações mais extremas. Alguém que vira um pouco de tudo e, naturalmente, alguém que sabia calar tudo. Um dos dois únicos concorrentes que, desde o princípio, sabia a verdade acerca do que se estava a acontecer.

Desde esse dia, eu e Eva vivemos numa pequena casa perdida no Norte da Islândia, a mesma que foi usada pelo pai de Veruca para esconder a filha, quando decidiram tirá-la do concurso que a estava a matar em vida.

Uma menina caprichosa a quem explicaram como simular a própria morte, para fugir para uma ilha que, à medida que o tempo passava, se transformava numa prisão. Habituada a grande visibilidade nas redes sociais durante vinte e quatro horas por dia, agora, tinha de se esconder de forma permanente.

Uma rapariga que, no princípio, aceitou todas as condições que lhe tinham sido impostas. Sabia que não poderia sair de casa, a menos que o fizesse sem ser reconhecida, com perucas, lentes de contacto e maquilhagem, mas que, aos poucos, se foi cansando de tudo aquilo.

Uma rapariga que pediu um último desejo que lhe custou a vida: queria ver a mãe.

A mesma casa em que um idoso, sabendo que, nesse dia, o pai de Veruca tinha saído e que, teoricamente, não havia ninguém lá dentro, entrou e deparou com uma pessoa que não devia existir.

A mesma casa em que também, durante algum tempo, se esconderam John, a Doutora, Terra e Andrea, uma família comum aos olhos de qualquer vizinho: um casal com as suas duas filhas.

 

Desde então, pergunto-me o mesmo há dois anos, dia após dia: Que faço com a verdade?

Há momentos em que tenho consciência de que o melhor é esconder o que se passou, enterrar a realidade, para proteger as duas Terras… Mas há outros em que tenho vontade de gritar, de fazer uma chamada e publicar tudo.

Tenho vontade de dizer ao mundo que vivemos a maior mentira da História da televisão, que nenhum dos concorrentes viajou até Marte, que se procurou um lugar perdido na Islândia para criar um grande plateau, que o meu pai tinha razão, quando, no último discurso da sua vida, disse: «Tudo é mentira.»

E, para se perpetuar essa mentira, procurou-se um lugar fácil de proteger, fácil de esconder. Um ambiente seguro, onde nenhum homem tivesse problemas de ereção, onde as ligações fossem estáveis, onde uma menina tivesse a possibilidade de nascer em perfeitas condições, onde o cancro não fosse uma ameaça para ninguém, onde se conseguisse arranjar medicamentos, se fosse necessário… Um plano perfeito para criar um concurso demasiado arriscado, sem se correr demasiados riscos.

O único problema desse projeto foi que o meu pai não teve em conta um pormenor, que, no fim, conseguiu dar cabo de tudo: na Islândia, há muitos vulcões, e, de vez em quando, um ou outro entra em erupção.

 

Mas, claro, dizer a verdade implicaria descobrir, e talvez também destruir, o projeto eXo, o trabalho que a Centinel levava a cabo, há tanto tempo, em Marte.

Uma Centinel que a organização teve de replicar na Terra, por isso, procuraram três pessoas no programa dos parecidos: dois homens e uma mulher com traços muito semelhantes aos dos astronautas originais, os quais se encontravam realmente em Marte. Era a única maneira de tornar tudo credível, pois concorrentes e astronautas tinham de interagir no concurso. E, com os capacetes, os fatos e as imagens devidamente esbatidas quando as câmaras se aproximavam demasiado do rosto, quem conseguiria distinguir os falsos dos originais?

 

Resta-me outra verdade, a que envolve Eva. Que faço com ela? Mantenho a mentira que lhe contaram na quinta-escola? A que inclui um acidente de automóvel em que os pais morreram quando era pequena e que também explica as cicatrizes que apresenta no pescoço. Ou digo-lhe a verdade? Que o seu verdadeiro nome é Terra e que foi a menina mais famosa do mundo, que a mãe morreu enquanto fazia uma selfie, quase nua, e que tem três pais possíveis: um homem a que chamavam o Mãozinhas, porque sabia fazer um pouco de tudo; um jardineiro que, até ao último momento da sua vida, pensou na família; ou um homem que, um belo dia, chamaram para ir trabalhar para a Islândia, porque se parecia, em oitenta e quatro por cento, com o astronauta Marcus Z. N., um homem que violou a sua mãe… um homem que o meu pai certamente matou.

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