Terra

Eloy Moreno · Capítulo 47 de 205

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Terra

Capítulo 46

Experimentámos as nossas chaves, e foi a do meu irmão que conseguiu abrir a porta do veículo. Arrancámos e começámos uma viagem sem palavras. Limitámo-nos a olhar em frente, como se ali, diante do limpa-pára-brisas, fôssemos encontrar tudo o que havíamos perdido com os anos. A estrada avançava na nossa direção à mesma velocidade que eu regressava ao passado.

Continuámos em silêncio, até vermos o velho hotel, agora em ruínas. Poucos metros adiante, à nossa direita, aparecia um pequeno caminho. Metemos por aí.

Estava tudo praticamente inalterado: as mesmas árvores, a mesma lama, o mesmo medo… e as mesmas chaves, embora, desta vez, não as levássemos penduradas ao pescoço.

O caminho degradara-se bastante, avançar era complicado: uma bifurcação à direita; outra, desta vez à esquerda; mais uma, também à esquerda…

Finalmente, chegámos.

Um arrepio percorreu-me o corpo. Ali estava, a mesma cabana, muito mais pequena do que me lembrava. E também nós estávamos naquele lugar, os dois irmãos, como Hansel e Gretel, a observar a casa onde um dia deparei com uma bruxa sob a forma de medo.

Desligou o motor, e ficámos a olhar em volta, de dentro do habitáculo. Foi o meu irmão que, sem dizer nada, contornou o veículo e me abriu a porta.

— O que esperas encontrar? — perguntou-me.

— Tudo o que houver para encontrar — respondi.

E, mais uma vez, entrámos juntos naquela cabana.

Acendemos a luz. Silêncio.

— E agora?

— Agora, já não tenho dez anos — afirmei.

Olhámos um para o outro. Ambos nos lembrávamos perfeitamente da ordem das pistas da vez anterior. A primeira estava na cozinha; na terceira gaveta, havia um cofre que se abria com a chave do meu irmão. Dentro daquele cofre encontrava-se uma pista que nos conduzia à lareira.

Dirigimo-nos para a cozinha. Abrimos a gaveta, mas não havia lá nada. O cofrezinho não se encontrava lá. O meu irmão pôs-se a espreitar nas outras gavetas: nada.

— Não compreendo. O que se passa? Onde está o cofre? — perguntou.

— Não está aí. Não o vais encontrar — respondi.

— Porquê? — questionou, surpreendido.

— Porque acho que não viemos para começar o jogo, viemos para o continuar.

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