Terra
Capítulo 46
Experimentámos as nossas chaves, e foi a do meu irmão que conseguiu abrir a porta do veículo. Arrancámos e começámos uma viagem sem palavras. Limitámo-nos a olhar em frente, como se ali, diante do limpa-pára-brisas, fôssemos encontrar tudo o que havíamos perdido com os anos. A estrada avançava na nossa direção à mesma velocidade que eu regressava ao passado.
Continuámos em silêncio, até vermos o velho hotel, agora em ruínas. Poucos metros adiante, à nossa direita, aparecia um pequeno caminho. Metemos por aí.
Estava tudo praticamente inalterado: as mesmas árvores, a mesma lama, o mesmo medo… e as mesmas chaves, embora, desta vez, não as levássemos penduradas ao pescoço.
O caminho degradara-se bastante, avançar era complicado: uma bifurcação à direita; outra, desta vez à esquerda; mais uma, também à esquerda…
Finalmente, chegámos.
Um arrepio percorreu-me o corpo. Ali estava, a mesma cabana, muito mais pequena do que me lembrava. E também nós estávamos naquele lugar, os dois irmãos, como Hansel e Gretel, a observar a casa onde um dia deparei com uma bruxa sob a forma de medo.
Desligou o motor, e ficámos a olhar em volta, de dentro do habitáculo. Foi o meu irmão que, sem dizer nada, contornou o veículo e me abriu a porta.
— O que esperas encontrar? — perguntou-me.
— Tudo o que houver para encontrar — respondi.
E, mais uma vez, entrámos juntos naquela cabana.
Acendemos a luz. Silêncio.
— E agora?
— Agora, já não tenho dez anos — afirmei.
Olhámos um para o outro. Ambos nos lembrávamos perfeitamente da ordem das pistas da vez anterior. A primeira estava na cozinha; na terceira gaveta, havia um cofre que se abria com a chave do meu irmão. Dentro daquele cofre encontrava-se uma pista que nos conduzia à lareira.
Dirigimo-nos para a cozinha. Abrimos a gaveta, mas não havia lá nada. O cofrezinho não se encontrava lá. O meu irmão pôs-se a espreitar nas outras gavetas: nada.
— Não compreendo. O que se passa? Onde está o cofre? — perguntou.
— Não está aí. Não o vais encontrar — respondi.
— Porquê? — questionou, surpreendido.
— Porque acho que não viemos para começar o jogo, viemos para o continuar.
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