Terra

Eloy Moreno · Capítulo 109 de 205

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Terra

Capítulo 109

— O que é o programa dos parecidos? — perguntei ao meu irmão.

— Bem, era uma espécie de casting em que selecionávamos pessoas que se pareciam muito com alguém. O processo era simples: um candidato sentava-se num quarto, e fazíamos-lhe algumas perguntas. Durante o interrogatório, havia câmaras que captavam cada um dos seus gestos: o seu sorriso, o movimento dos olhos, se cerrava os dentes ou relaxava os maxilares face a determinada pergunta… Desta forma, conseguíamos que um software especializado nos dissesse se o seu rosto, em certa medida, se parecia com o de outra pessoa.

— E para quê? — perguntou a mulher.

— Havia muitos motivos: para o caso de termos de inventar um exclusivo, de fabricar um álibi ou de ser preciso um duplo para proteger alguém… Por vezes, eram os próprios interessados a pedi-lo, outras, eram trabalhos que iniciávamos por conta própria.

— Mas o meu marido não se parecia com nenhuma celebridade.

— Nem sempre era fácil perceber à vista desarmada, por isso, utilizávamos o software. O programa selecionava um candidato se este tivesse oitenta por cento, ou mais, de semelhança com outra pessoa. À vista desarmada, havia parecenças que não detetávamos, mas o software conseguia fazê-lo. A aplicação conseguia saber se, realizando pequenos retoques de maquilhagem, cabelo, pestanas, ou mesmo cirurgia, um candidato poderia parecer-se com outra pessoa.

— Então, temos de procurar alguém que se parecesse com o seu marido — intervim. — Talvez a solução resida aí, talvez, desta vez, não tenhamos de procurar uma chave, mas uma pessoa.

Ficámos mais alguns minutos a falar com a mulher, a agradecer-lhe pela ajuda, pela paciência.

Levantámo-nos e despedimo-nos.

Quando já nos tínhamos afastado alguns metros, o meu irmão deu a volta e dirigiu-se de novo a ela.

— Temos de corrigir esta situação. Vamos fazer alguma coisa, dou-lhe a minha palavra — disse, enquanto lhe dava um abraço.

Tentei conter as lágrimas, porque, pela primeira vez em muitos anos, voltava a ver o meu irmão, aquele que sempre fora o meu herói.

— Obrigada — disse-lhe, quando chegou junto a mim.

— Por…

— Porque sei que vais ajudar esta mulher.

— Sim, mas não lhe vou dar dinheiro. Ia gastá-lo e voltar ao mesmo. Há pessoas a quem nunca se pode dar dinheiro.

Dirigimo-nos ao carro.

— Bem, e agora? — perguntei.

— Agora, vamos precisar de pedir ajuda a alguém. Sei onde estão guardados todos estes dados, mas não tenho acesso a eles.

— Pedir ajuda a quem?

— A pessoas que nem sequer conheço.

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