Terra

Eloy Moreno · Capítulo 82 de 205

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Terra

Capítulo 82

Peguei na única coisa que se encontrava dentro do cofre: uma chave com o número 010 impresso e presa a um porta-chaves.

— Este porta-chaves faz-te lembrar qualquer coisa, certo? — perguntou-me o meu irmão.

— Sim, claro, é da Universidade Thoth — respondi.

Era uma das universidades mais prestigiadas do país, no ramo das Ciências. Tinha acolhido três prémios Nobel.

Mas o que chamou a minha atenção não foi o porta-chaves, mas a forma da chave na parte mais larga: era um trevo. Exatamente igual ao que estava tatuado no meu pulso direito. Um trevo que nasceu na minha pele quando o meu pai morreu, num momento em que o mundo se desfazia em pedaços e eu não sabia por onde começar a juntá-los. Um trevo preto, pequeno, com três folhas. Com quatro, teria sido mentir a mim mesma, porque há muito que o meu pai não fazia parte da minha vida. Naquele momento, não disse nada ao meu irmão sobre o assunto.

O jogo, em traços largos, consistia em ir encontrando chaves, que, associadas a pistas, iam abrindo caixas, portas, ferrolhos, que, por sua vez, escondiam outras chaves. A última era sempre dourada, e o jogo terminava quando o concorrente conseguia encontrar o objeto que essa última chave abria. E ali estaria o prémio, neste caso, o meu desejo.

O segredo para se conseguir chegar ao fim do jogo era encontrar padrões nas pistas e ir escolhendo os que estavam certos. Alguns não levavam a lado nenhum, outros faziam com que se vencesse.

— Bem… parece que já temos um padrão — disse o meu irmão. — Se tivermos em conta a história do Frank e este porta-chaves…

— Andrea, certo? — interrompi, sem o deixar terminar a frase.

O meu irmão olhou para mim, surpreendido.

— Exato! E eu a pensar que não seguias o programa.

— Bem, afinal de contas, sou jornalista. Era impossível permanecer aquém de tudo aquilo. A informação acerca do concurso estava por todo o lado: as caras deles, as suas histórias, as suas vivências… Mas sei um pouco mais acerca da Andrea, porque, no jornal, investigámos o seu passado.

»Se bem me lembro, dizia-se que era um verdadeiro crânio e que tinha estudado precisamente nesta universidade. Na verdade, segundo li no artigo, dizia-se que acabara o curso dois anos antes do habitual, algo que não acontecia desde que ali se licenciara o último prémio Nobel.

— Sim, é isso mesmo. Está certo.

— Para mim, a Andrea sempre foi um mistério. Era como se não encaixasse no concurso. Sempre com o seu computador. Ninguém sabia o que andava a fazer.

— Talvez estivesse apenas a investigar, a procurar informação.

— Sim, mas sobre quê e para quem? Nunca percebi as razões pelas quais chegou à final. Era, sem dúvida, a candidata mais inteligente, embora também a menos sociável: não se relacionava com ninguém, praticamente não falava… Sempre pensei que tinha todas as características para não ser escolhida.

— E talvez tenha sido por isso mesmo que a escolheram — sugeriu o meu irmão. — Por ser diferente, uma pessoa rara. Afinal, o concurso não passava de uma experiência social para estudar o comportamento dos seres humanos numa colónia isolada do resto da civilização. E… quem sabe? Talvez ela fosse a que melhor se poderia adaptar a um ambiente de isolamento.

— Talvez… — respondi. Vistas as coisas por este prisma, era possível que tivesse razão, mas sempre suspeitei de que, por detrás da escolha da Andrea, houvesse mais qualquer coisa.

— Além disso — continuou—, era especialista em matemática e informática. E uma pessoa assim pode ser muito útil se surgir um problema com as comunicações e com os computadores.

Nesse momento, fitei o meu irmão nos olhos.

— Não sei… também acho que era a pessoa ideal para, de alguma forma, conseguir controlar as coisas — disse.

— Controlar as coisas? Como? Porquê? — respondeu-me, a sorrir. — Andas sempre atrás de conspirações.

— Bem, é o meu trabalho, e talvez por isso tenhamos agora este porta-chaves na mão.

Entrámos os dois no carro e começámos uma nova viagem, que nos conduziria a uma universidade que ficava a mais de oito horas de distância dali.

Em fundo, ouvia-se a canção Come Tomorrow, de Peter Bradley Adams.

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