Terra

Eloy Moreno · Capítulo 119 de 205

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Terra

Capítulo 119

— O Marcus Z. N. — respondeu-me o meu irmão.

— Mas não foi esse o astronauta que violou a Miss?

— Sim, ele mesmo.

— Que sentido faz tudo isto?

— Nenhum. Mas há um pormenor que nos conduz a um padrão.

— Qual?

— Bem, «os meus amigos» enviaram-me um documento com a biografia completa do Marcus. Como podes imaginar, para ser uma das três primeiras pessoas a ir para Marte numa missão científica, é preciso ser-se esperto, muito, muito esperto.

— Uma pessoa muito inteligente… excecional.

— Exato — respondeu o meu irmão, entusiasmado. — Mas ainda há mais: não tinha pais nem irmãos. Não tinham família conhecida.

— Órfão! — exclamei. — Tal como a Andrea, exatamente como a Andrea. Temos apenas de saber em que sítio o menino foi criado, para podermos utilizar a chave. Por isso, esta chave é igual à da Andrea, porque também corresponde a uma dessas caixas… — disse, entusiasmada.

— Estou a pesquisar isso agora mesmo, a procurar onde o miúdo cresceu. Enfim, são eles que estão a pesquisar…

— Tão fácil como isso.

— Não, tão caro como isso. Mas, se houver algum dado na rede, vão encontrá-lo, e de certeza que há; o tipo tornou-se um homem muito famoso.

— Adorava ter uma equipa de investigação dessas… — murmurei para comigo, enquanto me dirigia para a porta.

— Basta ter dinheiro, muito dinheiro, mais dinheiro do que algum jornal conseguirá ter, por isso, é sempre mais fácil ocultar a informação do que encontrá-la.

Decidimos que estava na hora de ir dormir. Fora um dia muito intenso.

— Boa noite — disse.

— Boa noite — respondeu.

Regressei ao meu quarto.

Deitei-me, mas, apesar de estar esgotada, não conseguia dormir. Tinha a cabeça a mil à hora. Comecei a pensar noutros padrões, noutras hipóteses, em lugares…

Depois de vários minutos de ideias que não chegavam a lado nenhum, apaguei a luz. No meio da escuridão, comecei a pensar que o meu irmão estava ali, do lado de lá do quarto, como na nossa infância. Como quando batíamos na parede, para dizer um ao outro que estávamos acordados. Como quando aprendemos o código morse, para comunicar no interior da noite. Estive prestes a bater na parede, mas não o fiz.

 

Do outro lado, um homem também permanece deitado na cama, tentando unir fios, resolver quebra-cabeças…

Finalmente, abraça-se à almofada, põe-se de lado e fica a olhar para a parede, para o outro lado do quarto: o sítio onde se encontra a irmã. Sente-se feliz, porque é o mais perto que a tem desde há muito tempo.

Levanta a mão e, no silêncio da noite, na fronteira exata entre o arrependimento e o amor, ouvem-se várias pancadas.

Uma pancada suave e uma pancada forte.

Uma pancada forte e duas suaves.

Três pancadas fortes.

Uma pancada suave, uma forte e uma suave.

Três pancadas fortes.

Silêncio.

Uma pancada forte.

Uma pancada suave.

 

E caem as lágrimas dos dois lados de uma parede que, agora, apesar de ser física, é muito mais frágil do que a anterior, a que ambos construíram com o esquecimento.

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