Terra

Eloy Moreno · Capítulo 68 de 205

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Terra

Capítulo 68

Talvez tivesse sido a emoção de estar a passar por aquela experiência que fez com que o pediatra esquecesse que se encontrava rodeado de câmaras.

— Sim, na verdade, estava bastante bem. Poderíamos dizer que tinha tudo, quase tudo. O meu único problema era sofrer de uma doença — confessou.

— O quê? — exclamou a Doutora, surpreendida. — Uma doença?

— Sim… — respondeu, quase sem levantar a voz.

— Mas o que tinhas? Já não estás doente?

— Bem, sim, estou, mas aqui não me afeta. Só era perigosa na Terra. Aqui não tem qualquer importância. Poderia até dizer que estou curado. — Tentou sorrir.

— Mas… não compreendo. Não ta detetaram no processo de seleção? Fizeram-nos exames de todo o tipo.

— É uma doença indetetável através desse tipo de exames. Não é visível a olho nu. É muito mais complicado…

E, de repente, Frank pareceu regressar à realidade e voltar a tomar consciência de que havia uma série de olhos e ouvidos em toda a volta. Dera-se conta de que as suas palavras tinham ido mais longe do que os pensamentos desejariam chegar.

A primeira coisa em que pensou foi nas redes sociais: crucificá-lo-iam com perguntas.

— Nada, esquece. É um disparate… Esquece.

— Mas estás bem? — quis saber a Doutora.

— Melhor do que nunca — respondeu Frank, sorrindo, enquanto, dentro de si, procurava um estojo de primeiros socorros para os seus sentimentos.

Quando a conversa chegou à Terra, as manifestações de apoio a Frank inundaram as redes. Aquela confissão, a doçura das suas palavras, as lágrimas que não chegaram a correr, mas que todos viram… tudo isso afetou um público que tinha demasiadas perguntas para tão poucas respostas.

Com o passar dos dias, diminuiu a pressão sobre Frank, que não sabia como sair daquela situação. Finalmente, decidiu inventar uma resposta. Uma noite, depois do jantar, no pequeno convívio que, por vezes, se realizava antes de irem dormir, comentou que se tratava de uma espécie de problema psicológico: agorafobia; ficava muito ansioso quando tinha de lidar com espaços abertos, algo que, felizmente, não lhe aconteceria em Marte.

E a mentira funcionou, acalmou os companheiros e, sobretudo, as redes sociais, que não paravam de o assediar.

 

Os dias sucederam-se, e sucederam-se as semanas. Aos poucos, o assunto foi ficando enterrado entre as declarações dos seus companheiros: afinal, todos tinham segredos.

O Mãozinhas confessou que cometera vários delitos na juventude, que tivera de roubar de vez em quando, que a família nunca se preocupara com ele, que estivera anos a viver numa casa onde ninguém lhe dava atenção. Confessou também, entre lágrimas, que, num desses assaltos sem importância, um homem morrera, que não fora ele a matá-lo, que fora um acidente… E foi perdoado, talvez por parecer arrependido, talvez por o ter dito a chorar, talvez porque o homem que morrera era demasiado velho, e ele, demasiado belo…

A Doutora não tinha muito que esconder. A maior parte da sua vida fora dedicada aos outros. Era ela quem, do lado dos justos, mais vezes vira a face negra do ser humano, aquela que vemos sempre demasiado longe.

 

*

 

Andrea mal falava. As suas conversas consistiam em unir monossílabos com gestos. «Sim, não, pois…» era o seu léxico; o computador que andava sempre consigo era o seu mundo. Ninguém sabia nada acerca do seu passado, mas não lhe fizeram perguntas.

 

Em contrapartida, a vida de Veruca fora pública desde a infância. Não poderia ter escondido um segredo, mesmo que o tivesse desejado. Toda a sua existência fora passada a caminhar pela passadeira do sucesso, não do seu, mas do que lhe fora emprestado por ter nascido naquela família. Coisas do destino.

 

Miss, apesar de participar em quase todas as conversas, evitava falar do seu passado. Se lhe perguntassem diretamente, limitava-se a dar as mesmas respostas que apresentara no concurso.

 

O militar argumentou que a sua vida passada fora, toda ela, uma missão e que, portanto, estava protegido pelo segredo profissional. Garantia que qualquer informação poderia afetar terceiros, e revelá-la seria, além de injusto, completamente ilegal.

 

A história do Jardineiro já era conhecida de todos. Ainda assim, se, de vez em quando, algum companheiro trazia o assunto à liça, ele limitava-se a permanecer em silêncio.

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