Terra

Eloy Moreno · Capítulo 120 de 205

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Terra

Capítulo 120

Depois da violação, nada voltou a ser igual: era como se a pequena família constituída pelos oito escolhidos tivesse perdido a inocência. Acabaram-se as portas abertas de noite, as pequenas partidas que, de vez em quando, faziam uns aos outros, a alegria que polvilhava muitos momentos… Tudo isso foi desaparecendo à medida que a rotina se instalou.

Perceberam que o passar dos dias não garantia a existência de um futuro. O mesmo espaço reduzido de sempre, os mesmos horários, as mesmas tarefas repetitivas, os mesmos limites e, sobretudo, os mesmos rostos, as mesmas pessoas…

No entanto, se havia algo pior do que a rotina, era, sem dúvida, a ausência de possibilidades. Podemos habituar-nos a repetir as mesmas ações, a que cada dia seja igual ao de ontem e venha a ser igual ao de amanhã — com efeito, na Terra, a maioria das pessoas vive assim —, mas toda a gente precisa de possibilidades. Mesmo que não façam uso delas, mesmo que nunca saiam da roda de hámster que elas próprias criaram, mesmo que baseiem a sua existência e a sua esperança na frase «Um dia, faço isso», as pessoas têm de saber que existe hipótese de sair da jaula.

Mas ali não existia chance de conhecer novas pessoas, de sair para tomar um copo e dançar com um desconhecido, de ir a uma discoteca para fazer amigos, de encontrar a mulher da nossa vida numa festa… Não havia cidades para visitar, restaurantes para descobrir, parques onde passear, mares a navegar… Nada.

Foi também essa ausência de possibilidades que começou a aborrecer um público que, passada a novidade, se foi desinteressando do programa como uma criança se desinteressa de um brinquedo. Um público que foi substituindo a curiosidade por Marte pelas últimas coscuvilhices dos novos influencers na Terra.

E, finalmente, foi essa rotina a injetar na mente dos concorrentes a ideia de que tinham escolhido a opção errada: talvez se estivesse melhor na Terra.

Depois da violação, tudo mudou.

Frank não voltou a ser o mesmo. Apesar de ter perdoado publicamente ao Mãozinhas, a raiva não sairia de dentro de si; tentava controlá-la e dissimulá-la, mas, quando se via ao espelho, contava um dente a menos.

O Mãozinhas, por seu lado, estava sempre aborrecido. Era um homem nervoso, ativo, habituado a calcorrear as ruas da sua cidade, acostumado a andar de bar em bar, de lugar em lugar; já não suportava a rotina daquele sítio. Durante as primeiras semanas depois do incidente, tentara, mais de uma vez, sair dali sem autorização, para poder alargar os limites da sua existência. Por esse motivo, dera origem a várias altercações. Discutira com a organização e com John, mas, ultimamente, já nem sequer tinha vontade de irritar fosse quem fosse.

John arrependera-se muitas vezes de ter mostrado a pistola.

Agora, todos sabiam que existia, pelo menos, uma arma e que ele era o único a ter conhecimento da sua localização. O facto deixava-o numa posição de poder em relação aos outros, e John sabia que as desigualdades conduzem quase sempre ao conflito. Vira-o acontecer demasiadas vezes ao longo da vida.

Miss perdeu o interesse pelo contacto físico. Depois do ocorrido, tornou-se mais reservada, isolou-se do grupo. As suas noites não voltaram a ser as mesmas. Passou muito tempo até alguém voltar a visitá-la no quarto. Todos os dias, quando ia deitar-se, tentava bloquear a porta com algum objeto, e o mais pequeno som, de madrugada, era suficiente para que acordasse a chorar.

O que ainda não sabia era que, numa questão de semanas, a sua vida mudaria por completo.

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