Terra
Capítulo 192
— Mas porquê? Não compreendo.
— Agora, já não podemos dizer nada. Fazê-lo significaria o colapso da sociedade tal como a conhecemos. Se disséssemos a verdade, o que acha que aconteceria à economia global? Às bolsas? Que valor teria para si o dinheiro, se soubesse que dali a alguns anos tudo o que a rodeava ia desaparecer? Seria o salve-se-quem-puder, o caos, nada teria valor e nada distinguiria o rico do pobre.
Silêncio.
— Temos de aguentar o sistema, para que, pelo menos, os ricos se consigam salvar, caso contrário, não sobreviverá ninguém.
Confesso que aquela resposta me deixou indignada, mas, no fundo, aquele homem tinha razão.
— Quantas pessoas é possível salvar? — perguntou o meu irmão.
— Em princípio, segundo vários estudos, para criar uma população biológica mínima, que seja viável, e, assim, conseguir conservar a nossa espécie, precisaríamos de oitenta a cento e sessenta indivíduos. Seja como for, aspiramos poder levar quatrocentos a quinhentos seres humanos para a colónia. Desta forma, minimizar-se-iam os problemas resultantes da endogamia. A ideia é enviar cerca de trinta de dois em dois anos, e assim sucessivamente até que a Terra diga chega.
— Ou que alguém perceba o que está a acontecer.
— Sim, é essa a razão por que estamos a fazer os possíveis para que isso não aconteça. Se conseguimos até agora… — disse Jónas, olhando-me fixamente.
Silêncio.
— O grande problema de todo este projeto — continuou — é o facto de serem necessárias quantias obscenas para o levar a bom porto, daí, a questão dos anéis.
— Cem milhões, cem milhões é o valor de uma vida. E quem decide quem se salva e quem não se salva? Apenas o dinheiro? — recriminei.
— Em parte, sim, embora receie que sempre tenha sido assim. Em toda a nossa História, o rico sempre teve mais possibilidades de se salvar do que o pobre.
— Mas… não é justo… — sussurrei, derrotada.
— Não, a vida não é justa. Nesse ponto, estamos de acordo.
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