Terra
Capítulo 111
— Temos um problema, um problema tremendo.
— Mas como foi possível passar-se uma coisa destas, raios?
Duas horas depois da confissão de Miss, três aviões saíram de três lugares diferentes em direção a um pequeno hotel perdido no nada. Os três fundadores do projeto reuniram-se de urgência num local afastado de tudo. Tinham de tomar uma decisão. E depressa.
As redes sociais pediam, mais do que justiça, vingança. Tinham encontrado um culpado, tinham ditado a sentença… esperavam que a organização a executasse.
— Se Frank for culpabilizado, acaba-se vinte por cento do nosso patrocínio. É muito dinheiro.
— Demasiado. Temos de arranjar outra solução.
— Mas como é que ele fez aquilo? Como foi capaz? Não há ninguém a vigiar?
— Manipulou as câmaras exteriores, por isso, ninguém se apercebeu, até a Miss ter contado. Por isso, ninguém o viu quando se aproximou.
— Mas está gravado?
— Sim, está gravado, mas arquitetou tudo para que as imagens não nos chegassem. Sabe que não conseguiremos transmitir as imagens, o filho da mãe! Vejam!
Os três homens veem o que realmente aconteceu. Sabem que aquelas imagens nunca poderão tornar-se públicas, têm de as apagar imediatamente, caso contrário…
— Podemos modificá-las — diz um deles.
— Como?
— Bem, basta procurar pessoas das que constam como suplentes, alterar algumas sequências, e pronto. Não será a primeira vez que criamos a mentira e a cruzamos com a realidade. São apenas alguns segundos… Temos de o fazer, ou, então, o ambiente na colónia ficará insustentável.
— Bom… Se calhar, é melhor, sim, pois haverá alguns efeitos secundários.
— E esses efeitos secundários podem ser resolvidos com dinheiro?
— Sim, acho que sim.
Os três homens ficam a pensar.
— Então, está combinado, mas isto vai levar algum tempo, umas quantas horas. Enquanto resolvemos tudo, temos de dizer qualquer coisa.
Muito poucos minutos volvidos, foi emitido o comunicado seguinte:
Caros espectadores:
A organização lamenta imenso o ocorrido. Nunca pensámos que algo semelhante pudesse
acontecer, e menos ainda agora, que estamos a tentar criar uma nova civilização num novo planeta, uma Humanidade diferente e mais justa. Vamos rever minuciosamente todas as câmaras e, logo que possível, transmitiremos o ocorrido.
Estamos completamente destroçados.
Por favor, pedimos que se mantenha a presunção de inocência. Não podemos cometer os
mesmos erros que as civilizações anteriores.
Obrigado.
Depois do comunicado oficial da organização, as ruas das principais cidades do mundo encheram-se de manifestações pacíficas que pediam a pena de morte para Frank. Reclamava-se também uma prisão em Marte, havendo, inclusive, quem exigisse a criação de uma cadeira elétrica nesse planeta.
O hashtag mais partilhado a nível mundial foi #morteaoFrank. Matem-no, prendam-no, expulsem-no… As redes sociais transmitiam o ódio de aparelho para aparelho, de pessoa para pessoa. Redes sociais que, nesse momento, já ninguém conseguia travar, talvez nem mesmo a verdade.
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