Terra

Eloy Moreno · Capítulo 199 de 205

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Terra

Capítulo 202

O veículo estacionou na entrada, mesmo ao lado das portas exteriores. O silêncio que nos rodeava foi quebrado: várias crianças saíram do pequeno autocarro, a maioria a saltar, a maioria a gritar, a maioria a correr, como se a vida não lhes bastasse em cada momento.

Aproximaram-se e sentaram-se às duas mesas que havia ao lado da nossa, e a rapariga apareceu com uma bandeja cheia de gelados. Nenhuma das crianças reparou em nós. Eram simplesmente felizes.

Nesse momento, voltei a desviar o olhar para o autocarro e observei o condutor a descer devagar. Era um homem grande, muito grande, e trazia um boné e uns óculos enormes; a barba cobria-lhe o resto da cara.

Devagar, a coxear ligeiramente, aproximou-se de nós. Levantámo-nos.

— Finalmente, chegaram — disse-nos, enquanto se sentava ao nosso lado. Nem sequer nos estendeu a mão. Reparei que usava luvas.

Deixou passar alguns minutos antes de falar.

— Ora bem, cada caixa tem uma vida lá dentro. Abri-la significa assumir uma responsabilidade — começou a explicar, olhando para o vazio. — Até agora, as caixas que encontraram já tinham dono, por isso, puderam abri-las sem mais, mas esta é diferente.

Virou a cabeça na minha direção e tirou os óculos. Vi que tinha parte do rosto queimado.

— Não estou a compreender — disse-lhe, tentando não olhar diretamente para as cicatrizes.

— Quero dizer que, ao abrir a caixa, torna-se responsável pelo que estiver lá dentro… — Ficou em silêncio durante alguns segundos. — Dentro de cada caixa, há uma vida, a vida de cada uma destas crianças. Se a abrir, compromete-se a tornar-se responsável…

Voltou a olhar para o vazio, para o autocarro, para a paisagem que se encontrava atrás do veículo.

Na nossa mesa, havia apenas silêncio. Nas duas mesas ao lado, gargalhadas, gritos, vida.

— Pense nisso — disse-me, voltando a pôr os óculos. — É esse o acordo. Agora, deixo-vos em paz.

E, com estas palavras, foi-se embora.

Eu e o meu irmão olhámos um para o outro.

— Era isto? Era este o teu desejo? Ser mãe? — perguntou-me o meu irmão, surpreendido.

— Não, não! Não foi isso! — protestei. — Não estou a perceber, não percebo nada…

Levantei-me, nervosa, dei umas voltas por ali e, por fim, dirigi-me às vedações exteriores, longe das crianças, longe do barulho, das gargalhadas, de tudo. Atravessei a estrada e comecei a caminhar em direção ao vazio.

Ser mãe? Sim, é verdade. Queria, queria muito, e suponho que, de alguma forma, o meu pai soubera que, no passado, eu recorrera a várias clínicas de fertilização assistida, que me tinham feito exames, que tentara durante vários anos e que o meu corpo se recusara. Devia ter tomado conhecimento, e agora… Agora, apresentava-me um mostruário de crianças abandonadas, sem família… Observei-as de longe.

Quando acabaram os gelados, foram a correr para o parque que ficava ao lado. Algumas subiram para os baloiços, outras, para aquela espécie de insuflável; todas se mexiam, todas brincavam… muitas eram crianças que ninguém desejara… Pensei em Jónas, pensei em todas as pequenas vidas que, sem culpa, vêm ao mundo para sobreviver… em todas as pequenas vidas que não têm sorte e que começam a morrer no instante em que nascem. Pequenas vidas que os adultos utilizam para aliviar os seus desejos sexuais, as suas frustrações, a sua raiva. Pequenas vidas sem culpa.

Sentei-me no chão e desatei a chorar.

Olhei para o céu.

— O que queres, papá? O que queres de mim? — perguntei para o vazio.

 

Passados vários minutos, regressei à mesa onde o meu irmão ainda permanecia, sozinho.

Voltei em silêncio.

Abraçou-me e limpou-me as lágrimas: as que se viam e as que continuavam a escorrer dentro de mim.

— Vamos — disse-lhe.

Voltámos a entrar na geladaria, mas pela parte lateral. O homem estava ali, a tratar de uma das vacas. Viu-nos e, lentamente, pousou um balde que tinha na mão.

— Tomou uma decisão?

— Sim, vamos avançar… — respondi.

Saímos e rodeámos o edifício. Mesmo por trás, havia um pequeno alpendre. Abriu a porta e entrámos.

Vimos duas estantes com várias caixas.

O homem pegou numa delas, a que tinha o número 100 impresso em letras maiúsculas, e pô-la à minha frente.

Ficou ali, diante de nós.

— Desculpem, mas tenho de estar aqui. O que se encontra aí dentro exige-o.

Suspirei. Estava nervosa, muito nervosa. Poderia até dizer que nunca estivera tão nervosa na vida. Tremiam-me as mãos, o coração, os pés, o corpo, até me tremiam os pensamentos.

Mesmo antes de introduzir a chave na caixa, o meu irmão não conseguiu aguentar mais e fez-me a pergunta. Sabia que acabaria por acontecer, sabia que o desejara desde o início, sabia também que fizera um grande esforço para se conter.

— Nel, qual foi o teu desejo?

Na verdade, já não fazia sentido adiar mais aquilo. Guardara o segredo durante anos, cumprira a minha promessa.

— Salvar o mundo — disse-lhe. — Foi o que pedi nesse dia ao meu pai. O meu desejo foi salvar o mundo.

Introduzi a chave e abri a caixa.

 

Sim.

O meu pai cumprira a sua promessa.

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