Terra
Capítulo 88
— O pai deu-mos no dia em que saí da empresa. Segundo ele, eram um presente por todos os anos em que estive ao seu lado.
— Deu-te dois?
— Sim, um para mim e o outro para a pessoa que o merecesse.
— Mas como? Como se codificam esses anéis de maneira a pertencerem à lista?
— Não faço a menor ideia. Disse-me que a minha única responsabilidade era encontrar uma pessoa que merecesse usá-lo.
— E encontraste-a? — quis saber.
— Sim, mas acaba de me dizer que já tem um.
Fiquei em silêncio.
Vi o irmão da minha infância, o irmão que, depois de nos zangarmos, vinha até à minha cama com aqueles mesmos olhos: olhos que tremiam, só de olhar para mim.
— Sabes alguma coisa acerca da lista? — perguntei, desviando o assunto.
— Quando me deu os dois anéis, fui falar com os responsáveis pela empresa eXo… e já sabes…
— A mesma coisa de sempre. Dizem que só fazem joias, mais nada. Que o preço é definido pelo comprador e que, enquanto houver pessoas a gastar cem milhões num anel, irão continuar a vendê-los.
— Essa é a versão oficial.
— Bem, ando há anos a tentar investigar a outra versão.
Nesse momento, levantei-me do capô do carro. Fui até ao lugar do condutor: estava na altura de trocar com o meu irmão.
Voltámos a fazer-nos à estrada. Ele pegou de novo no portátil e manteve-se absorto durante quase uma hora, até que, de repente…
— Nel, há aqui algo muito curioso: esta universidade recebeu muito dinheiro da fundação do pai, mas não são valores genéricos para colaborações ou patrocínios de determinado evento. São montantes associados a pessoas concretas.
— É o caso da Andrea? — perguntei, sem me virar.
— Sim. Há várias transferências em nome dela. O dinheiro passou para uma conta cujos titulares eram a Andrea e o pai. E sabes o mais curioso? A conta tinha imenso dinheiro, mais do que uma pessoa normal pode gastar numa vida inteira, mas a Andrea não gastou nada.
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