Terra
Capítulo 121
Nessa noite, mal consegui dormir. Pensei no anel, nas pancadas na parede, no desejo que pedi ao meu pai, em todo aquele jogo sem sentido.
Na manhã seguinte, tomei um duche, vesti-me e enviei uma mensagem ao meu irmão, para lhe dizer que estava lá em baixo, no bar do hotel.
Pedi um chá e fiquei ali quase uma hora, sozinha, a observar as pessoas. «Adoro-te.» O meu irmão dissera-me que gostava de mim, mesmo que o tivesse feito através de uma parede. Estava a pensar nisso quando ele apareceu. Vi-o aproximar-se da mesa, a sorrir, talvez com a intenção de me dar um beijo, que não chegou a concretizar.
— Bom dia — disse, sentando-se à minha frente.
— Bom dia. Conseguiste descobrir alguma coisa?
— Sim… não foi difícil, mas tenho de reconhecer que o mérito não é meu. Limitei-me a esperar pela resposta. Às vezes, chega, outras, não.
— Um serviço fantástico. Quem me dera tê-lo no jornal. Conheces os tipos que te passam a informação?
— Se os conheço? Não, claro. Ninguém os conhece. A única coisa que conheço são os seus nicks: gnr20, gunswagger, zerozero…
— Nomes curiosos — respondi, enquanto o empregado trazia o café com gelo que ele pedira. Mexeu-o, juntou o açúcar, voltou a mexer e engoliu-o de uma assentada.
— Vamos para o aeroporto! — disse, a sorrir.
— Para o aeroporto?
— Sim, é bastante longe.
*
O novo destino ficava praticamente do outro lado do país. Mal aterrámos, alugámos um carro e percorremos estradas solitárias, até chegarmos a uma grande casa junto a uma pequena igreja.
Como da vez anterior, quando fôramos visitar o orfanato onde Andrea estivera, também havia várias carrinhas amarelas no exterior do edifício.
Batemos à porta. Um homem idoso veio abrir e, depois de nos olhar de alto a baixo, convidou-nos a entrar. Explicámos rapidamente a nossa história e perguntámos pela caixa.
— Sim, temos aqui algumas dessas caixas, mas também é verdade que, há algum tempo, levaram outras. Que número tem a sua chave?
— Não tem número — respondi.
— Estranho… — disse o homem, surpreendido.
— Não tem número, mas achamos que é a caixa do Marcus — expliquei.
— Bem, se for a chave certa, abrirá a caixa; se não for, não vai ser possível abri-la… Venham comigo.
Percorremos um corredor estreito.
— É estranho… quase nunca vem cá ninguém. Mas, esta semana, são os segundos a perguntar-me por essa caixa.
— Como?
— Sim, há dois dias, apareceu um homem a pedir o mesmo. É raro haver duas chaves para uma só caixa. Pensava que era impossível. A dele, sim, tinha o número…
— Podemos perguntar-lhe como era esse homem? — tentei. Qualquer informação poderá ser útil.
— Era alto, forte, com barba e cara de poucos amigos. Trazia uns óculos de sol enormes. Não é que fosse antipático. Não, não era isso. Estava sério.
Chegámos a uma pequena divisão. Entrámos, olhou em volta e pegou numa caixa, a 133.
— Aqui têm, a caixa do Marcus, o astronauta — disse, enquanto a depositava em cima de uma mesa. Sabem que ele passou aqui parte da infância? Estamos tão orgulhosos dele.
— Orgulhosos? — respondi, indignada. Depois do que ele fez?
— Depois do que ele fez? E o que é que ele fez, exatamente? — respondeu-me, o semblante sério.
— Bem, o senhor sabe. Violou aquela rapariga…
O homem olhou-nos fixamente e começou a rir.
— E quem o diz? — perguntou o idoso.
— A televisão, as redes sociais, a Internet; as imagens apareceram em todos os órgãos de comunicação social.
— Ah… a televisão, as redes sociais, a Internet… — repetiu, em tom de desprezo. E, olhando-me diretamente, fez-me uma pergunta que me atingiu. — E calculo que a senhora seja jornalista?
A pergunta apanhou-me desprevenida. Ao longo da minha carreira, tivera muitos desencontros com colegas de outros meios, com empresários, com delinquentes, mas acho que nunca tinha sentido um desprezo tão absoluto.
— No meu tempo, um jornalista tinha de ter coragem, ser ousado, ter uma boa câmara, não essas porcarias de telemóveis com que vocês agora andam. Na minha altura, um bom jornalista questionava tudo, fazia os impossíveis para descobrir a verdade, mas hoje em dia…
— Oiça… — interrompi. Não estava disposta a que alguém me falasse assim, por mais idade que tivesse.
— Garanto-lhe que não foi o Marcus que violou aquela rapariga. Juro pelos meus filhos, por toda a minha família.
— Mas… — Tentei acalmar-me. — Como pode estar tão certo disso?
— Bem, porque o educámos aqui, porque ele foi uma das crianças mais carinhosas que passou por esta quinta. Porque era doce, terno, dos que choravam com qualquer filme de amor, e, acima de tudo, porque era gay, e não me parece que Marte possa mudar isso.
Fiquei sem palavras.
— Muito bem. Aqui têm a caixa. Experimentem a chave.
— E o senhor? — perguntou o meu irmão.
— Eu fico, para ver se essa chave abre a caixa. Se assim for, vou-me embora e deixo-vos em paz.
A chave abriu. E o homem saiu da divisão.
— O que significa aquela história toda do Marcus? — perguntei ao meu irmão.
— Não sei. Talvez a resposta esteja na caixa.
Quando a abrimos, vimos que lá dentro havia apenas um papel, mais nada. Lemos o nome que estava escrito no mesmo. Ambos conhecíamos aquela pessoa.
Ambos sabíamos que seria um encontro difícil.
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