Terra
Capítulo 197
— Quem é o senhor? — perguntou o meu irmão a um idoso que se encontrava à porta.
Tinha um rosto com feições duras, o corpo magro como um bambu e uns olhos que pareciam querer descobrir todas as verdades. Vestia de forma descuidada: umas calças velhas, uma camisola de malha rota e um casaco que não permitia identificar a cor original. Reparei nas suas botas: estavam cheias de lama, como se tivesse andado pelo exterior da casa antes de chegar à porta.
— Olá, bom dia. Sou um vizinho. Vivo ali — disse-nos, com uma voz pausada, enquanto apontava para uma casa que ficava a cerca de duzentos metros. — E os senhores? Quem são?
Eu e o meu irmão olhámos um para o outro, talvez para decidir qual dos dois falava primeiro ou o que haveríamos de dizer: a verdade ou uma mentira acabada de engendrar.
— Somos os filhos de William Miller — disse eu, tomando a iniciativa.
De imediato, sem pedir licença, o homem transpôs a porta e aproximou-se tanto de mim, que, por um momento, pensei que o seu olhar me fosse trespassar o corpo.
— Muito bem, é verdade… — disse, enquanto me observava. — Vi a menina muitas vezes na televisão, muitas vezes… Gosto, gosto que ainda haja jornalistas assim, com ousadia. Foi a senhora quem levou a melhor no julgamento daquele infeliz.
Falou, sem se dar conta de que o infeliz a que se referia era o meu próprio pai.
— E o que fazem aqui? — perguntou.
Estive prestes a responder-lhe, mas pensei que poderia ser-nos útil. Afinal, fora vizinho do pai da Veruca, talvez até se conhecessem.
— Se lhe dissesse que estamos a tentar terminar um jogo… — respondi.
— Um jogo? Adoro jogos. — Sorriu. — E de que jogo se trata?
— Bem, não sei se conhece o jogo das chaves.
— O jogo das chaves! — exclamou o homem, com entusiasmo. — Claro que sim. Era o meu preferido.
— É precisamente a esse que estamos a jogar. E quer saber a melhor? Chegámos à última chave. Estava aqui.
— A dourada? — exclamou, levantando as mãos, como se aquele fosse o grande momento do dia ou da semana ou, quem sabe, do que lhe restava de vida.
— Sim, a dourada. Só nos falta resolver a pista final para o terminar, mas não sabemos por onde continuar. Estamos a tentar encontrar uma caixa nesta casa. — Sorri para o meu irmão.
— Excelente. Foi por pouco… — Nesse momento, o homem trocou a expressão de alegria por um ar de resignação. — É uma pena, mas não vão encontrar nada aqui.
— Nada? Porquê? — perguntei.
— Porque limparam tudo. — Aproximou-se de mim, para me sussurrar ao ouvido. — Levaram tudo o que aqui havia quando o mataram.
— Quando mataram quem? — quis saber.
— Quem é que haveria de ser? — disse o homem, enquanto coçava a cabeça e olhava compulsivamente em volta. — O pai da Veruca, quando mataram o pai da Veruca.
Depois de dizer aquelas palavras, o homem virou costas e saiu. Observou o espaço em volta, como se estivesse vigilante. Voltou a coçar a cabeça e regressou para junto de nós. Continuou a falar. Os cães tinham deixado de ladrar.
— Mas, enfim, eu sou apenas um velho. Sei que não devia dizer estas coisas… Não as devia dizer…
— Mataram-no? Mas como? Quem? — perguntou o meu irmão.
— Eu não disse nada, eu não disse nada… — Estava nervoso. — Eu e esse homem tornámo-nos amigos. E eu fiz-lhe uma promessa, e éramos amigos, e não quero que me prendam outra vez…
O homem olhou para fora. Tremia. Parecia procurar alguém. Depois de ver que não havia ali ninguém, continuou a murmurar em voz baixa, quase em silêncio.
— Era um homem bom, um homem bom… E mataram-no, mataram-no.
Aquele homem queria falar, mas havia alguma coisa que o impedia: o medo. Ao longo da minha carreira, vira-o muitas vezes: em testemunhas ao abrigo do programa de proteção, a quem demorávamos séculos a arrancar informações; em indivíduos arrependidos que entravam em pânico se ouviam um barulho estranho… Sabia que tinha de o ajudar, pelo que o instiguei com outra pergunta.
— Alguma vez entrou nesta casa?
— Sim, claro. — E, nesse momento, como se se tivesse lembrado do que não devia dizer: — Mas não vi nada, juro que não vi nada. Na verdade, não entrei, nunca cheguei a entrar…
— É que encontrámos um quarto com perucas — interrompi-o, de propósito—, mas o mais estranho é serem todas de mulher. Sabe para quem eram?
— Não, não, não sei dizer… — O homem estava cada vez mais nervoso, coçava a cabeça de forma compulsiva. — Não, não sei nada, não sei nada do que havia lá dentro…
— Bem — continuei no mesmo tom, tentando chegar a um daqueles pontos em que o entrevistado explode e conta tudo —, segundo as redes sociais e a imprensa, parece que, depois do que aconteceu à Veruca, o homem ficou transtornado e passou a andar com muitas acompanhantes.
— Mentira! — gritou o homem, nervoso. Explodira. Tocara num assunto delicado. Talvez agora conseguíssemos obter informação interessante. — Era um homem bom. Trataram-no mal, muito mal! Tudo o que se disse sobre ele era mentira! — gritou.
Então, saiu para o exterior e olhou em volta. Coçava a cabeça e tremia.
— Tudo o que se disse sobre ele era mentira. Era um homem bom! — continuou a gritar.
Os cães começaram a ladrar.
— Calma. Fique tranquilo — disse o meu irmão, aproximando-se dele.
— Não me toque! Não me toque! — gritou.
Nesse momento, ouvimos uma voz ao longe.
— Pai! Pai!
O homem ficou imóvel como uma estátua, parou de tremer, parou de gritar, quase parou de respirar.
— Estão a chamar-me… — disse, já mais calmo.
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