Terra
Capítulo 97
— Conheço essa chave, mas não é de nenhum cacifo. Esse tipo de chave abre uns cofres tão especiais quanto desconhecidos. Esses cofres estão distribuídos por vários países, por todo o mundo: podem estar em orfanatos, em hospitais, em lares de acolhimento, em pequenas escolas…
— E o que há dentro desses cofres? — perguntei.
— Vidas que vale a pena salvar. Foi a resposta que o vosso pai me deu quando veio falar comigo acerca da Andrea e me trouxe uma chave parecida. Quando aceitei a proposta de acolher a Andrea, levou-me a visitar um sítio: um pequeno orfanato situado a cerca de três horas daqui. Foi lá que me falou do objetivo da sua fundação: encontrar pessoas especiais. Entrámos numa pequena sala cheia de caixinhas amarelas, e cada caixa tinha a sua chave, como a vossa. Deu-me a 010, e, quando a abri, deparei com toda a história da Andrea.
O homem pegou numa esferográfica e assentou qualquer coisa numa folha de papel.
— É esta a morada. Se vos puder ajudar em mais alguma coisa…
— Acho que é suficiente. Muito obrigado.
Levantámo-nos, e ele aproximou-se para nos apertar a mão.
— Uma última pergunta? — sugeri.
— Claro, diga.
— Este anel, o que tem na mão, se não for indiscrição, como o conseguiu?
O reitor desatou a rir.
— É verdade que tenho um bom ordenado, mas não é suficiente para gastar cem mil dólares num anel. A minha mulher matava-me. — Continuou a rir. — Foi um presente do seu pai. Disse-me que talvez um dia me pudesse ser útil. Não o compreendi…
Olhámos um para o outro, enquanto dávamos um aperto de mão. Foi nesse momento que reparei que a mão dele me rodava suavemente o pulso.
— Posso fazer-lhe uma pergunta também? — disse, sem me soltar.
— Claro.
— Tem alguma coisa que ver com este trevo que tem tatuado no pulso, com a forma da chave?
Afastei a mão suavemente.
— Não me parece… — respondi.
Despedimo-nos e saímos daquele grande edifício. Entrámos no carro e introduzimos a morada no GPS.
O reitor voltou para o gabinete, assomou à janela e viu os dois irmãos atravessar o pátio interior em direção à saída. E, dali, sabendo que não o poderiam ouvir, dirigiu-lhes umas palavras finais.
— A verdade sobre a Andrea… Um dia, vão saber o poder que essa rapariga tem, um dia…
Às três horas, chegámos ao orfanato que procurávamos. Era uma casa no meio do campo, com uma quinta ao lado e uma pequena horta. À volta do edifício, havia várias carrinhas amarelas, todas iguais.
Mal chegámos, fomos recebidos por uma mulher idosa que nos levou até à pessoa responsável. Mostrámos-lhe a chave, conduziu-nos a uma sala em que havia várias caixas, também amarelas.
— Qual é a caixa que procuram?
— A 010 — respondi.
— Oh, que estranho. Há uns dias, apareceu um homem para aceder a essa mesma caixa. Acho que levou tudo o que se encontrava lá dentro.
— Um homem? Como era? — perguntei.
— Não sei bem dizer-lhe: alto, grande, muito grande. Trazia um boné e óculos de sol. Lembro-me de que tinha uma barba cerrada, quase não se lhe via a cara. Ah, e usava luvas, não sei muito bem porquê, porque não faz assim tanto frio por aqui.
A mulher deixou-nos sós.
Experimentámos a chave. Era aquela.
A caixa continha apenas dois objetos: uma chave semelhante à que tínhamos utilizado, mas sem número, e uma folha de papel com um nome escrito: Margaret Fride. Mais nada.
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