Terra

Eloy Moreno · Capítulo 101 de 205

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Terra

Capítulo 101

No dia seguinte, ao início da tarde, chegámos a um bairro de luxo. O meu irmão conseguira a morada, pelo menos, a última que figurava na base de dados. Começámos a procurar, até depararmos com uma casa bonita, com um jardim imenso.

— De acordo com o que tenho apontado, é aqui.

— Bela casa! — exclamei. — Bem, suponho que, com o dinheiro que lhe pagaram, podia ter comprado três como esta.

Estacionamos diante da vedação, avançamos a pé por um pequeno caminho de pedra e batemos à porta.

Pouco segundos depois, aparece uma mulher. Pela farda, deduzimos que faz parte dos empregados.

— Bom dia — cumprimentou, com amabilidade. — Em que posso ajudá-los?

— Bom dia — respondi. — Procuramos Margaret, Margaret Fride.

— Margaret? — perguntou a mulher, surpreendida. — Lamento, mas acho que se enganaram. Não vive aqui ninguém com esse nome.

— Tem a certeza? — insisti. — A última morada que temos é esta.

— Não, lamento. Mas esperem um instante. Vou chamar o senhor para ver se os pode ajudar.

Apareceu um homem alto, forte, bem vestido, de meia-idade.

— Boa tarde. Em que posso…? — E, nesse momento, soube que acabara de me reconhecer. — Olha, mas a senhora não é a Nel, a jornalista?

— Sim, sou eu — respondi.

— Que surpresa! Aqui, em minha casa. Em que posso ajudá-los? — quis saber, enquanto nos apertava a mão.

— Bem, andamos à procura de Margaret Fride.

— Ah, sim, a antiga proprietária desta casa.

— A antiga proprietária?

— Sim. É uma longa história… e também um pouco triste. Teve de vender a casa há algum tempo. Foi um banco que ficou com ela. Depois, foi a leilão, e houve várias licitações. Finalmente, tive oportunidade de a comprar.

— Teve de vender a casa? Mas tinha tanto dinheiro… — disse, mais para mim do que para o resto dos presentes.

— Bem, como lhes disse, é uma longa história. Se não tiverem pressa e me quiserem fazer companhia num chá, num café…

Eu e o meu irmão olhámos um para o outro e aceitámos.

Atravessámos o átrio e dirigimo-nos a uma pequena sala em que havia uma mesinha simples e quatro cadeiras.

— Sentem-se, sentem-se. O que desejam tomar?

— Eu, um café… — respondeu o meu irmão.

— E a senhora? — perguntou-me.

— Também, obrigada.

— Perfeito — disse, olhando para a empregada. — Como lhes dizia, é uma história um pouco triste, mas, se me permitem a indiscrição, é para algum documentário, para algum livro?

— Nós é que pedimos desculpa. Entrámos aqui sem explicar nada. Eu e o meu irmão estamos a rever vários pormenores do testamento do nosso pai, e, entre eles, encontra-se a Margaret.

— O vosso pai! É verdade. Que falta de educação. Lamento imenso, lamento imenso o ocorrido. Não a tinha relacionado com ele. Lamento.

— Não se preocupe.

— Bem, não é que saiba grande coisa, apenas o básico. O marido dela morreu num acidente… sabiam?

— Sim, temos andado a investigar.

— Bem, antes do acidente do marido, o casal vivia, com o filho, numa casa normal, num bairro modesto do outro lado do rio. De repente, chamam-na para lhe dizer que o marido morreu de uma forma estranha na Islândia. Logo na Islândia.

»Sei que foi lá, que o enterrou e que, várias semanas depois, recebeu uma indemnização milionária. Recebeu tanto dinheiro, que conseguiu comprar esta casa. O problema foi quando teve de o gerir. Não soube fazê-lo.

— Mas como pode ter-se arruinado?

— Bem, na verdade, é simples. Quando se ganha dinheiro muito depressa e não se sabe geri-lo, começa-se a comprar coisas, coisas muito caras, a crédito. Assinam-se documentos que não foram bem interpretados, recebe-se aconselhamento de pessoas mal-intencionadas… e, de repente, os empréstimos começam a engolir tudo. Por fim, a única hipótese que teve de não ir parar à prisão foi vender esta casa.

— E agora, onde vive? Sabe?

— Sim, infelizmente, sei. Vive num descampado que existe nos arredores da cidade, numa pequena caravana.

Durante alguns segundos, ficámos todos em silêncio.

— É esta a história. Não sei se ajudei nalguma coisa.

— Sim, claro que sim. Temos de falar com ela. Vamos fazer-lhe uma visita. Muito obrigada pela informação.

— De nada. Foi um prazer.

Bebemos o café, enquanto o homem nos perguntava milhares de coisas sobre a televisão, sobre o mundo do jornalismo, sobre os segredos das pessoas famosas…

Depois de quase uma hora, saímos da casa em direção à nossa nova pista.

Em apenas dez minutos, chegámos ao descampado que nos indicara. Era ainda pior do que tínhamos imaginado.

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