Terra

Eloy Moreno · Capítulo 123 de 205

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Capítulo 123

Dois dias depois, a estação emitiu o comunicado que a população aguardava, um comunicado que não seria bem aceite.

Uma apresentadora apareceu diante das câmaras.

 

Bom dia, boa tarde, boa noite a todos os telespectadores.

Interrompemos a transmissão, porque, depois de reunidos os especialistas jurídicos, e com

base na legislação aplicável em Marte, se realizou um julgamento privado que contou com a presença de três prestigiados juízes, de um advogado e, a partir de Marte, do próprio capitão Marcus, através de videoconferência diferida.

Teve-se em conta a gravidade dos factos e a vulnerabilidade da vítima, mas também o

percurso irrepreensível do capitão.

Aplicou-se como atenuante a situação excecional que ali se vive: dois anos de solidão podem

afetar até a mente mais lúcida.

Não estamos, com isto, a justificar qualquer ato, apenas a tentar encontrar uma explicação. Este é o veredicto:

Marcus Z. N. é culpado da violação de Amelie Borowski, mais conhecida por Miss, em

Marte. A punição seria de vinte anos de detenção, mas, como ali não existe estabelecimento prisional e é impossível repatriar o acusado para que cumpra a pena na Terra, o tribunal determinou que será desterrado da colónia para o resto da vida. Nunca mais poderá aproximar-se dela. Deverá manter uma distância mínima de dez quilómetros.

Pensou-se também em mantê-lo fechado na nave durante vários anos, sem que lhe fosse

permitido sair, mas é uma pena inviável, pois o seu trabalho no exterior é necessário para a sobrevivência de todo o projeto.

Muito obrigada pela vossa atenção. Feliz dia, feliz tarde, feliz noite.

 

Numa questão de segundos, apenas, a indignação percorreu as ruas e as redes sociais. Parecera a todos um castigo demasiado brando. Mas que alternativa havia? A vida de quem ali estava dependia desse homem, de uma das mentes mais brilhantes que a Terra criara.

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