Terra
Capítulo 114
E chegou a hora combinada. Duas da manhã.
As câmaras captaram duas sombras, que começaram a avançar pelo corredor até ao quarto de Frank.
Abriram a porta em silêncio e viram-nos: o pediatra na cama, John no chão. Dormiam. Mas, no momento em que o Mãozinhas deu um passo na direção de Frank, o militar levantou-se de um salto.
— O que fazes aqui? — perguntou.
— Quero justiça! — gritou o Mãozinhas, e acordou o pediatra, que permaneceu na cama, imóvel.
Para sua surpresa, John viu o Mãozinhas sacar de uma faca. Calculou as hipóteses de os dominar: existiam, mas eles eram bastante mais fortes e muito mais novos do que ele. Se lhe custara controlar um, com dois, seria muito mais complicado. Avaliou rapidamente a probabilidade de alguém sair ferido: muito elevada.
— Deixa-nos levá-lo, e ninguém sairá ferido — disse o Mãozinhas, levantando a faca com a mão direita.
— Não vais levar ninguém — respondeu John.
— Claro que vou, e não és tu quem me vai impedir — replicou o Mãozinhas, enquanto se aproximava dele, de faca em riste.
Sangue, dor, violência, caos… John vivera aquilo tantas vezes… É sabido como algo semelhante começa, não como acaba, porque, às vezes, as coisas alteram-se e tudo pode descontrolar-se. E ali não há ambulâncias. Contrataram-no para minimizar os riscos, por isso, em apenas dois segundos, avalia as alternativas, sabendo que a mais eficaz é aquela que não deveria revelar, mas talvez tenha chegado o momento… ainda assim, decide tentar de novo a via pacífica.
— Mãozinhas, deixa isso. Vai para a cama. Amanhã será um novo dia — respondeu o militar, habituado a momentos muito mais tensos do que aquele.
— O quê? — disse, começando a rir. — Até podes ser grande, mas nós somos dois, e estou armado. Podemos bem contigo — respondeu, com raiva.
O momento era verdadeiramente tenso. O Jardineiro olhava, assustado. Frank também. O Mãozinhas e John estavam a apenas dois metros de distância.
— Não me parece, porque não estou sozinho. Também trouxe uma amiga — disse John, sacando de uma pequena pistola que apontou à cabeça do Mãozinhas.
— Mas o que é que estás a fazer? — gritou este, enquanto se detinha.
— A defender-me.
— Onde a desencantaste? Não podes ter isso aqui!
— Bem, é um pequeno privilégio decorrente de ter servido a pátria.
Silêncio.
— Escuta — tentou falar delicadamente, sem baixar a arma. — Vamos fazer uma coisa. Vamos todos acalmar-nos. Vamos dormir, descansar. Vamos esperar pelas revelações das câmaras, e, quando tivermos percebido tudo, e só nessa altura, discutiremos que castigo o culpado merece, mas, para já, não temos culpado, apenas suspeitas, mais nada. Aqui não há juízes, apenas testemunhas, milhões. As câmaras hão de mostrar o que lhe aconteceu. Até esse momento, vamos manter a calma.
O Mãozinhas e o Jardineiro sabiam que tinham perdido. Com raiva, viraram costas e foram-se embora.
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