Terra

Eloy Moreno · Capítulo 165 de 205

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Terra

Capítulo 167

— Vou mostrar-te um lugar mágico — disse-me o meu irmão.

— E a casa? — perguntei, revelando a minha veia jornalística, a que não descansa nem por um minuto.

— Não faço a menor ideia — respondeu-me, a rir. — Neste momento, não temos qualquer pista acerca da casa. Talvez amanhã possamos perguntar, e nos informem. Só sei que nos restam umas quantas horas de sol e que gostava de te mostrar um lugar muito especial. Vens? — E dirigiu-se ao carro sem esperar por mim, sabendo que iria atrás dele.

Porque aquele «Vens?» me transportou para a minha infância: para quando me levou a ver a cabana que ele e os amigos tinham feito com um punhado de ramos; para quando me levou a ver uma rocha de onde podíamos atirar-nos ao rio; para quando me levou a ver uma gruta que tinha descoberto… «Vens?» E eu ia sempre.

E fui.

Entrámos no carro e metemos por uma pequena estrada rumo ao sul, à Ring Road, a estrada que contornava toda a ilha. Uma ilha que, a cada quilómetro, nos presenteava com surpresas à queima-roupa. Quando já nos tínhamos habituado a uma paisagem, tudo em volta mudava completamente passados poucos minutos: um sem-fim de cascatas que nasciam das montanhas quase por capricho; desertos de lava que engoliam qualquer vislumbre de cor; montículos verdes que pareciam esconder pequenos seres mitológicos. Água, frio, fogo, gelo.

Quase não falámos. Não precisávamos, porque a paisagem dizia tudo.

Felizmente, durante os últimos anos, o governo impusera um limite máximo de visitantes por ano. Era a única forma de manter a ilha com vida face à invasão humana. Não era simples conseguir autorização para entrar. Por vezes, implicava dois ou três anos de espera, embora, se se tivesse dinheiro, fosse possível consegui-lo mais depressa.

Aproveitei o facto de o meu irmão ir a conduzir, para enviar várias mensagens a um contacto que me fora passado por um colega, um contacto que vivia em Reiquejavique e que talvez nos pudesse ajudar.

 

Já tínhamos duas horas de caminho, e eu começava a transpor a fronteira do sono, quando um estrondo me assustou.

— De onde vem este barulho? O que se passa? — perguntei ao meu irmão, olhando para os dois lados.

Ele limitou-se a sorrir-me e continuou a conduzir.

O som amplificava-se cada vez mais. Era como se uma vaga gigante viesse na nossa direção.

E, de repente, vi-a.

— Mas o que é isto? — quase gritei, surpreendida.

— Uma maravilha da Natureza — disse-me, a sorrir.

À nossa esquerda, apareceu uma grande cascata que parecia nascer do céu.

— É a cascata Skogafoss — disse-me. — Tem mais de sessenta metros de altura e, sim, parece saída do nada. Além disso, como hoje está sol, podemos ver a sua magia.

Virou à esquerda, para se desviar por um pequeno caminho. Estacionámos e, a pé, dirigimo-nos à cascata. Muitos metros antes de a alcançarmos, a água já nos molhava.

Quando nos aproximámos o suficiente, descobri um enorme arco-íris que nascia aos meus pés e abraçava tudo em volta.

— Isto é real? — perguntei, receando que fosse mais um truque.

— Sim, acho que, por enquanto, não há efeitos especiais por aqui. Habitualmente, quando está sol, o arco-íris está presente. Por vezes, até aparecem dois.

Permanecemos ali, em silêncio, a observar um dos lugares mais bonitos que vira em toda a minha vida.

Nesse momento, o meu irmão pegou-me na mão.

— Há uma lenda… Diz-se que um víquingue tinha um cofre cheio de ouro e não sabia onde o esconder. Depois de pensar em vários sítios, lembrou-se de o deixar atrás desta cascata.

»O víquingue morreu, mas o tesouro continuou ali durante anos, até que, um dia, um jovem que se encontrava nas redondezas o descobriu. O problema foi tentar resgatá-lo, pois, no momento em que puxou a argola do cofre, este desapareceu. Dizem que essa argola existe e que foi colocada na porta da igreja de Skógar, aí permanecendo.

Sorri e apertei-lhe a mão.

— Anda. Vamos para cima.

E começámos a subir umas escadas intermináveis, para descobrir onde nascia aquela maravilha.

Depois de muitas fotografias, regressámos ao carro.

— Já são horas de almoço — disse-me.

Metemo-nos no carro, para percorrer apenas um quilómetro. Parámos em frente a uma caravana estacionada no pátio de uma casa, uma caravana pintada com bolinhas brancas sobre um fundo vermelho. Mia’s Country Van.

— Mas isto é o pátio de uma casa particular?

— Sim, mas fazem um belo fish and chips — disse, a sorrir.

Não encontrei mesas livres.

— Senta-te no chão, não faz mal. Vou fazer o pedido — disse, enquanto se aproximava da caravana.

Procurei um pouco de relva e sentei-me no chão. Nesse momento, chegou uma mensagem do meu contacto em Reiquejavique. Sorri. «Sempre é qualquer coisa», disse para comigo.

Passados poucos minutos, o meu irmão regressou com duas pequenas caixas de cartão. Comemos. Rimos. Falámos de tantas coisas, que, por um momento, nos esquecemos das chaves. Esquecemo-nos também de quando, há anos, nos tornámos desconhecidos.

— E agora vamos a Vik, ver uma das praias mais bonitas da Islândia. Quando lá estivermos, conto-te uma história — disse-me, enquanto me limpava a maionese da boca.

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